Zigmunt Bauman, o sociólogo que sacudiu as ciências sociais com o seu conceito de “modernidade líquida” propõe que se reconheça a situação planetária atual como um caso de interregno. “O velho está morrendo”, diz ele, mas o novo ainda não nasceu. “Vivemos um lapso em que virtualmente tudo pode acontecer, mas nada pode realizar-se com plena segurança e certeza de sucesso”, afirma o sociólogo. Uma das principais características desse interregno é o crescente divórcio entre o poder e a política. O poder se tornou global e a política não conseguiu transpor o local, afirma Bauman. O princípio trinitário - território, Estado e nação - está em crise, destaca.
Residente em Londres e professor emérito de Sociologia das Universidades de Leeds e de Varsóvia, Bauman concecedeu entrevista a Héctor Pavón do jornal Clarín, 18-07-2009. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Um dos seus livros se chama ‘Múltiplas culturas, uma só humanidade’. Neste conceito há uma visão “otimista” do mundo de hoje?
Nem otimista, nem pessimista… É apenas uma avaliação sóbria do desafio que enfrentamos no umbral do século XXI. Estamos agora interconectados e somos interdependentes. O que acontece num lugar do planeta tem impacto em todos os demais lugares, mas essa condição que compartilhamos se traduz e se reprocessa em milhares de línguas, estilos culturais, depósitos de memória. Não é provável que a nossa interdependência redunde em uma uniformidade cultural. O desafio que enfrentamos é, por assim dizer, o de que estamos todos no mesmo barco; temos um destino comum e a nossa sobrevivência vai depender da cooperação ou da luta entre nós. Em todo o caso, às vezes, diferimos muito em alguns aspectos vitais. Temos que desenvolver, aprender e praticar a arte de viver com as diferenças, a arte de cooperar sem que os cooperados percam sua identidade, a beneficiarmo-nos uns dos outros, não apesar, mas graças às nossas diferenças.
É paradoxal, mas enquanto se exalta a livre circulação de mercadorias, se fortalecem e se constroem fronteiras e muros. Como se sobrevive a esta tensão?
Isso apenas parece ser um paradoxo. Na realidade, essa contradição já era esperada num planeta onde as potências que determinam as nossas vidas são globais e podem ignorar as fronteiras e as leis do Estado, ao passo que a maior parte dos instrumentos políticos continua sendo local e de uma completa inadequação para as enormes tarefas a serem enfrentadas. Fortificar as velhas fronteiras e traçar outras novas, procurar separar o “nós” em contraposição a “eles” são reações naturais, se bem que desesperadas, a essas discrepâncias. Se essas reações são eficazes é outra questão. As soberanias locais territoriais vão continuar a se desfazer neste mundo em rápida globalização.
Há cenários comuns na Cidade do México, em São Paulo, em Buenos Aires: de um lado, vilas miseráveis; do outro, condomínios fechados. Pobres de um lado, ricos do outro. Quem fica no meio?
Por que limitar-se às cidades latino-americanas? A mesma tendência prevalece em todos os continentes. Trata-se de outra tentativa desesperada de separar-se da vida incerta, desigual, difícil e caótica que vem de “fora”. Mas a cerca tem dois lados. Divide o espaço em um “dentro” e um “fora”. Mas o “dentro”, para as pessoas que vivem de um lado do muro, é o “fora” para os que estão do outro lado. Cercar-se em uma “comunidade fechada” significa também excluir os outros dos lugares dignos, agradáveis e seguros e trancafiá-los em seus bairros pobres. Nas grandes cidades, o espaço se divide em “comunidades fechadas” (guetos voluntários) e “bairros miseráveis” (guetos involuntários). O resto da população leva uma incômoda existência entre esses dois extremos: sonhar em aceder aos guetos voluntários e temer cair nos involuntários.
Por que se acredita que o mundo de hoje sofre de uma insegurança sem precedentes? Em outras épocas se vivia com maior segurança?
Cada época e cada tipo de sociedade tem os seus próprios problemas específicos e seus pesadelos, e cria suas próprias estratégias para lidar com os seus medos e angústias. Em nossa época, a angústia aterradora e paralisante tem as suas raízes na fluidez, na fragilidade e na inevitável incerteza da posição e das perspectivas sociais. Por um lado, se proclama o livre acesso a todas as opções imagináveis (vem daí as depressões e as auto-condenações: “devo ter algum problema se não consigo o que os outros conseguiram”); por outro lado, tudo o que já se conquistou é uma espécie de “até o novo desafio” e poderia ser retirado ou negado a qualquer momento. A angústia resultante permanece em nós enquanto a “liquidez” continua sendo a característica da sociedade. Nossos avós lutaram com valentia pela liberdade. Nós parecemos cada vez mais preocupados com a nossa segurança pessoal… Tudo indica que estamos dispostos a entregar parte da liberdade que tanto custou em troca de maior segurança.
Isto nos leva a outro paradoxo. Como a sociedade moderna lida com a falta de segurança que ela mesma produz?
Por meio de todo tipo de estratégias, em sua maior parte através de substitutos. Um dos mais habituais é o deslocamento/transferência do terror da globalização inacessível, caótica, descontrolada e imprevisível aos seus produtos mais imediatos: imigrantes, refugiados, pessoas que pedem asilo. Outro instrumento são as chamadas “comunidades fechadas”, fortificadas contra estranhos, errantes e mendigos – se bem que são incapazes de deter ou desviar as forças que são responsáveis pelo debilitamento de nossa auto-estima e atitude social que ameaçam nos destruir. Em linhas mais gerais: as estratégias mais utilizadas reduzem-se à substituição de preocupações com a segurança do corpo e da propriedade por preocupações com a segurança individual e coletiva sustentada ou negada em termos sociais.
Há futuro? É possível pensá-lo? Ele existe no imaginário dos jovens?
O filósofo britânico John Gray disse que “os governos dos Estados soberanos não sabem de antemão como os mercados vão reagir (…) Os governos nacionais na década de 1990 praticavam um voo cego”. Gray nos diz que o futuro não supõe uma situação muito diferente. Como no passado, podemos esperar “uma sucessão de contingências, catástrofes e sinais de paz e civilização”, todos eles, permita-me acrescentar, inesperados, imprevisíveis e que se farão, de modo geral, com vítimas e beneficiários sem consciência e preparação. Há muitos indícios de que diferentemente dos seus pais e avós, os jovens tendem a abandonar a concepção “cíclica” e “linear” do tempo e voltar a um modelo “pontilhista”: o tempo se pulveriza em uma série desordenada de “momentos”, cada um dos quais se vive naquele momento que pode desvanecer-se com a chegada do momento seguinte e tem pouca relação com o passado e com o futuro. Como a fluidez endêmica das condições tem o mau costume de mudar sem aviso prévio, a atenção tende a se concentrar em aproveitar ao máximo o momento atual em vez de se preocupar com as possíveis consequências a longo prazo. Cada ponto do tempo, por mais efêmero que seja, pode resultar num outro “big bang”, mas não há como saber com antecedência que ponto será esse. Por via das dúvidas, é preciso explorar cada um a fundo.
É uma época em que os medos têm um lugar de destaque. Quais são os principais temores que o presente nos traz?
Acredito que as características mais destacadas dos medos contemporâneos são a sua natureza disseminada, a subdefinição e a subdeterminação, características que tendem a surgir nos períodos que se pode chamar de “interregno”. Antonio Gramsci escreveu nos Cadernos do Cárcere o seguinte: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Gramsci deu ao conceito “interregno” um significado que abarcou um espectro mais amplo da ordem social, político e legal, ao mesmo tempo em que aprofundava a situação sociocultural; ou melhor, tomando a memorável definição de Lênin da “situação revolucionária” como a situação na qual os governantes já não podem governar ao passo que os governados já não querem ser governados, separou a ideia de “interregno” de sua habitual associação com o interlúdio da transmissão (acostumada) do poder hereditário ou escolhido e o associou às situações extraordinárias nas quais o marco legal existente da ordem social perde força e já não pode se manter, enquanto que um marco novo, na medida das novas condições que tornaram inútil o marco anterior está ainda em uma etapa de criação, ainda não se estruturou ou não tem força suficiente para se instalar. Proponho que se reconheça a situação planetária atual como um caso de interregno. De fato, como postulou Gramsci, “o velho está morrendo”.
A velha ordem, que até há pouco se baseava em um princípio “trinitário” de território, Estado e nação, como chave da distribuição planetária de soberania, e num poder que parecia vinculado para sempre à política do Estado-nação territorial como o seu único agente operativo, está agora morrendo. A soberania já não está ligada aos elementos das entidades e ao princípio trinitário; no máximo está vinculada aos mesmos, mas de forma frouxa e em proporções muito mais reduzidas em dimensões e conteúdos. A suposta união indissolúvel de poder e política, por outro lado, está terminando com perspectivas de divórcio. A soberania está sem âncora e boiando. Os Estados-nação se encontram em situação de partilhar a companhia conflitiva de aspirantes a, ou, pretensos sujeitos soberanos sempre em disputa e em competição com entidades que fogem com sucesso à aplicação do até então princípio trinitário obrigatório de atribuição, e com bastante frequência ignorando de maneira explícita ou fugindo de forma furtiva de seus objetos designados. Um número cada vez maior de competidores pela soberania já excede, se não de forma individual, sem dúvida de forma coletiva, o poder de um Estado-nação médio (as companhias comerciais, industriais e financeiras multinacionais são responsáveis hoje, segundo Gray, “por um terço da produção mundial e dois terços do comércio mundial”).
A “modernidade líquida”, como um tempo onde as relações sociais, econômicas, escorrem como um fluído que não pode conservar a forma adquirida em cada momento tem fim?
É difícil responder a essa pergunta, não apenas porque o futuro é imprevisível, mas devido ao “interregno” que mencionei antes, um lapso em que virtualmente tudo pode acontecer, mas nada pode realizar-se com plena segurança e certeza de sucesso. Em nossos tempos, a grande pergunta não é “o que resta fazer”, mas “quem pode fazê-lo”. Atualmente, há uma crescente separação, que se aproxima de forma alarmante do divórcio entre o poder e a política, os dois sócios aparentemente inseparáveis que durante os dois últimos séculos moraram – ou acreditavam e exigiram morar – no Estado-nação territorial. O poder desapareceu do nível do Estado-nação e se instalou no “espaço de fluxos”, livre da política, deixando a política oculta na morada que antes compartilhava.
O crescente volume de poder que importa já se fez global. A política, entretanto, continua sendo tão local como antes. Portanto, os poderes mais relevantes permanecem fora do alcance das instituições políticas existentes, enquanto que o marco de manobra da política interna continua se reduzindo. A situação planetária enfrenta agora o desafio de assembleias ad hoc de poderes discordantes que o controle político não limita devido ao fato de que as instituições políticas existentes têm cada vez menos poder. Estas se veem, portanto, obrigadas a limitar de forma drástica suas ambições e a “transferir” ou “terceirizar” para organizações não políticas a crescente quantidade de funções que, tradicionalmente, se confiava aos governos nacionais. A redução da esfera política se auto-alimenta, assim como a perda de importância de sucessivos segmentos da política nacional redunda no aumento do desinteresse dos cidadãos pela política institucionalizada e a crescente tendência em substituí-la por uma política de “flutuação livre”, notável por seu caráter expeditivo, mas também por seu curto-prazismo, redução a um único tema, fragilidade e resistência à institucionalização.
Essa crise global que estamos assistindo pode gerar um novo mundo, ou ao menos um pouco diferente?
Até agora, a reação à “crise de crédito” é “mais do mesmo”, com a vã esperança de que as possibilidades revigoradoras de lucro e consumo dessa etapa não estejam ainda inteiramente esgotadas. O que se vê é um esforço para recapitalizar aqueles que emprestam dinheiro e para fazer com que os seus devedores voltem a ser confiáveis para o crédito, de tal modo que o negócio de emprestar e tomar crédito, de continuar se endividando, volte ao “normal”. O Estado benfeitor dos ricos voltou aos salões de exposição do qual havia sido retirado para as dependências de serviço, para onde foram transferidos temporariamente seus préstimos para evitar comparações invejosas.
Mas há indivíduos que sofrem as consequências dessa crise dos quais poucos se fala . Os protagonistas visíveis são os bancos, as empresas…
O que se esquece alegremente (e de forma estúpida) nessa ocasião é que a natureza do sofrimento humano é determinada pela forma como as pessoas vivem. A dor que atualmente se lamenta, assim como todo o mal social, tem profundas raízes na forma de vida que aprendemos, no nosso hábito de buscar crédito para o consumo. Viver de crédito é algo viciante, mais do que qualquer outra droga e sem dúvida mais viciante que outros tranquilizantes que se oferecem. Décadas de generoso fornecimento de uma droga só podem acabar em choque e comoção quando a provisão se reduz. Agora nos propõem a saída aparentemente fácil do choque de que sofrem tanto os drogados como os vendedores de droga: a retomada do fornecimento de drogas. Até agora há muitos indícios de que estamos longe da raiz do problema. No momento em que já se parou na beira do precipício mediante a injeção de “dinheiro dos contribuintes”, o banco TSB Lloyds começou a pressionar o Tesouro para que destinasse parte do pacote de recursos para os dividendos dos acionistas. Apesar da indignação oficial, o banco permaneceu impassível ao pagar bonificações, cujo valor obsceno levou ao desastre os bancos e seus clientes.
Por mais impressionantes que sejam as medidas que os governos já tomaram, planejaram tomar ou anunciaram, todas apontam para a “recapitalização” dos bancos e permitir que voltem à “atividade normal”: em outras palavras, a atividade que foi a principal responsável pela atual crise. Se os devedores não puderam pagar os juros da orgia do consumo que o banco estimulou, talvez se possa induzir/obrigar a fazê-lo por meio de impostos pagos ao Estado. Não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade de consumo e crédito. A “volta à normalidade” anuncia um retorno às vias ruins e sempre perigosas. De qualquer modo, ainda não chegamos ao ponto de não retorno; ainda há tempo (pouco) para refletir e mudar de caminho; ainda podemos transformar o choque e a comoção em algo positivo para nós e para nossos filhos.
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