“O Estado social acabou. É hora de construir o ‘Planeta social’”. Só assim, explica Zygmunt Bauman, se poderá sair da crise global que o mundo contemporâneo está vivendo. A política deve ter a força de reinventar-se em escala planetária para enfrentar a emergência ambiental ou a discrepância crescente entre ricos e pobres. Senão, está condenada à marginalidade em uma dimensão local, com instrumentos obsoletos adaptados a um mundo que não existe mais. O inventor da “sociedade líquida” não acredita em uma capacidade de auto-reforma da política. “Melhor construir uma opinião pública global e confiar-se a organizações cosmopolitas, extra-territoriais e não-governativas”.
A reportagem é de Alessandro Lanni, publicada no jornal La Repubblica, 21-11-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Os nossos políticos conseguirão mudar de paradigma, passando do local ao global?
Eu não contaria muito com os governos – de nenhum país, pequeno ou grande que seja – e menos ainda com suas tentativas de colaboração, que terminam freqüentemente em uma poesia de nobres intenções mais do que em uma prosa de concreta realidade. Os poderes que decidem sobre a qualidade da vida humana e sobre o futuro do planeta são hoje globais e, portanto, do ponto de vista dos governos, são extraterritoriais e isentos da sua soberania local. Até que não elevemos a política aos níveis já alcançados pelo poder, as probabilidades de para os desenvolvimentos catastróficos a que estamos conduzindo a nossa vida sobre o planeta são, pelo menos, escassas.
Portanto, de quais instrumentos alternativos a política deve dotar-se para enfrentar as grandes emergências do novo mundo global?
O objetivo de parar as desigualdades globais que tendem a se tornar rapidamente mais profundas não está entre as prioridades das agendas políticas dos Estados-nações mais potentes, apesar de tantas promessas feitas a respeito. Contemporaneamente, faltam ainda uma “agenda política planetária” e instituições políticas globais eficazes e dotadas de recursos que lhes permitam perseguir tais objetivos tornando-os operativos. As prerrogativas territoriais dos Estados-nações obstaculizam a criação de tais agendas e de tais instituições e tornam ainda mais difícil a tentativa de mitigar o processo de polarização.
Os Estados sozinhos não podem fazer isso. Os indivíduos cidadãos têm alguma possibilidade a mais para frear os desconfortos que são anunciados, para organizar uma ação coletiva?
Aqui intervém aquele fator que foi amplamente descrito com o termo “individualização”. Com a progressiva queda da condição de defesa mantida contra os medos existenciais e com o estar menos de acordo com a autodefesa comum, como por exemplo os sindicatos ou outros instrumentos de contratação coletiva, despotencializados pela competição imposta pelo mercado, espera-se que os indivíduos encontrem e coloquem em prática soluções individuais a problemas produzidos pela sociedade no seu complexo. Mas fazer tudo isso sozinhos e com instrumentos necessariamente limitados é manifestamente inadequado à tarefa prefixada.
Também as mudanças climáticas estão entre os grandes medos e inseguranças que o homem ocidental deve enfrentar.
A insegurança deriva da diferença entre a nossa interdependência planetária geral e a natureza meramente local, ao nosso alcance, dos nossos instrumentos de ação concertada e de controle. Os problemas mais terríveis e assustadores que nos atormentam e que nos levam a provar uma sensação de insegurança e incerteza com relação a tudo o que nos circunda têm origem no espaço global que está além do alcance de qualquer instituição política ora existente. No entanto, esses problemas são descarregados sobre entidades locais – cidades, províncias e Estados –, onde se pretende que sejam resolvidos com aqueles meios disponíveis em nível local: uma tarefa praticamente impossível.
Entrentanto, muitos sustentam que algumas questões relativas à poluição, à produção de energia, aos resíduos, podem ser enfrentados em nível “micro”, de cidade, de governo local.
A poluição atmosférica e a falta de água potável são questões que têm origem no espaço global, mas depois são as instituições locais que devem geri-las. O mesmo princípio se aplica ao problema das migrações, do tráfico de drogas e de armas, do terrorismo, da criminalidade organizada, da incontrolável mobilidade dos capitais, da instabilidade e da flexibilidade do mercado de trabalho, da alta dos preços dos bens de consumo e assim por diante. A esfera política local é sobrecarregada de tarefas e não é suficientemente forte ou dotada de recursos para resolvê-las. Só instituições políticas e jurídicas internacionais – até agora ausentes – poderão reter as forças planetárias atualmente desreguladas e alcançar as raízes da insegurança global.
É um governo planetário que irá salvar o mundo?
No estado de desenvolvimento a que a globalização dos capitais e dos bens de consumo já alcançou, não existe nenhum governo que possa permitir-se, individualmente ou em relação com outros, acertar as contas – e sem acertar as contas é impensável que se possa efetivamente colocar em prática as medidas típicas do Estado social, com o objetivo de reduzir à raiz a pobreza e prevenir que a desigualdade continue a crescer livremente. Além disso, é difícil imaginar governos capazes de impor limites sobre o consumo e aumentar as taxas locais a níveis necessários para que o Estado possa continuar a oferecer serviços sociais com a mesma intensidade ou com maior vigor.
A globalização apaga também o Estado social. Professor Bauman, o senhor não tem esperança em um pouco de justiça e de igualdade no mundo do século XXI?
Não existe uma maneira adequada por meio da qual um só ou mais Estados territoriais juntos possam sair da lógica de interdependência da humanidade. O Estado social não constitui mais uma alternativa válida. Somente um “Planeta social” poderia recuperar as funções que, há não muito tempo, o Estado buscava desenvolver, com destinos diferentes. Acredito que o que pode ser capaz de se dirigir por meio desse imaginário “Planeta social” não são os Estados territoriais e soberanos, mas principalmente as organizações e as associações extra-territoriais, cosmopolitas e não-governativas, que alcançam de maneira direta quem se encontra em uma condição de necessidade, sobrevoando as competências dos governos locais e soberanos e impedindo-os de interferir. |