No país que historicamente apregoa a não-intervenção estatal na economia, o que leva o governo a realizar tamanha ajuda ao mercado? Para debater esta questão a Radioagência NP, 23-09-08, entrevistou a professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Leda Paulani.
Eis a entrevista.
A crise enfrentada pelos EUA é localizada em algum setor da economia?
Essa idéia de que vem de um setor é uma aparência só. O contexto onde esta crise está inserida é o que chamamos de financeirização da economia. A riqueza financeira considerados aí ações, títulos de dívidas privados e públicos e aplicações bancárias, se você pegar esse valor mundial de 1980 até 2006, esse valor cresceu 14 vezes. Agora se você pegar o quanto cresceu o PIB mundial no mesmo período, não cresceu cinco.
Mas como o mercado financeiro afeta o restante da economia?
Essas coisas estão interligadas. O fato é que esse crescimento da riqueza financeira, que em boa parte a gente pode chamar de capital fictício, acaba determinando uma série de coisas que acontecem na assim chamada, economia real e acaba afetando a produção material. Com essa estrutura de riqueza financeira exacerbada começa a apontar um perigo de inflação. De repente, uma coisa que não discutíamos mais, a mídia começa a ficar inundada de discussão sobre inflação, vai retomar inflação, não vai retomar a inflação, os alimentos, o petróleo, etc.
Como resposta à crise, o governo dos EUA comprou instituições financeiras. Como você vê esta medida?
O discurso que predominou foi o discurso livre-cambista, neoliberal, um discurso de que tem que deixar a economia andar por si mesma, o mercado é sábio, ele resolve tudo. Então, o Estado tem que se retirar, tem que garantir as instituições que garantam o jogo capitalista, segurança, polícia, Justiça, etc, e do mais ele tem que ficar no seu lugar. E agora a gente vê exatamente o país que mais divulgou essas idéias obrigado, literalmente, a fazer uma coisa que se chama estatização. Então a necessidade que um Estado, poderoso como o Estado americano é, de fazer alguma coisa que nega tudo aquilo que ele disse durante 20 anos é um sinal inequívoco do tamanho da contradição.
E qual é a razão econômica desta intervenção do governo estadunidense?
O pânico é da falta de liquidez, ou seja, ele tem uma riqueza financeira que está aplicada em uma montanha de papéis que são, por exemplo, títulos de dívida que são da AIG [empresa estatizada pelo governo dos EUA]. Ora, se ela não consegue pagar, esses sujeitos aqui, que tem os títulos dela, não vão ter a liquidez dos títulos dele. O que é liquidez? É dinheiro vivo, é crédito em conta corrente. Por isso que os Bancos Centrais, os chamados emprestadores de última instância, têm que entrar de algum jeito na história.
Mas, em sua opinião, esta crise irá determinar mudanças na política econômica hegemônica no mundo?
Eu acho que você não vai ter uma mudança do dia para noite no plano do discurso. Acho que os Estados Unidos vão continuar a fazer essas mega-intervenções e continuar a defender o discurso que defenderam até agora, mesmo que a realidade os contra-diga. Agora, o que vai mudar em termos de política econômica strito-sensu, eu acho que objetivamente já está mudando no caso dos Estados Unidos e também eu diria no caso do centro do sistema como um todo, porque o próprio banco europeu e os bancos asiáticos estão inundando a economia de liquidez para evitar um aprofundamento maior da crise, o que evidentemente, só faz adiar e até aprofundar esse descompasso. . |