Jean-Yves Calvez é um jesuíta com uma trajetória de vida muito interessante e repleta de reflexão sobre os grandes problemas sociais da humanidade. É autor de inúmeros livros, entre eles, foram publicados no Brasil: Política. Uma Introdução. Ática, 1997; A Economia, o Homem, a Sociedade. Loyola, 1995. Calvez é um profundo conhecedor do Ensino Social da Igreja. Ele foi entrevistado pela revista IHU On-Line. Confira a entrevista. IHU On-Line - Qual foi a principal contribuição do Padre Arrupe para a Igreja e para a Companhia de Jesus? O que o senhor mais guardou de sua convivência com o Pe. Arrupe? Jean-Yves Calvez - O padre Arrupe foi um dos grandes “transmissores”, ou digamos, “comunicadores” do Concílio Vaticano II. Do Concílio ele captou sem dúvida quase tudo somente na última sessão, no outono de 1965, da qual participou, pouco após sua eleição como Superior Geral da Companhia de Jesus. Ele ficou claramente marcado por ela. Ele extraiu dela uma forte vontade de retorno ao Evangelho e imediatamente trabalhou para uma Igreja dos pobres, para uma Igreja de irmãos, para uma Igreja no mundo e para o mundo. Essencialmente missionária, quando a “missão” não estava mais na moda. Ele procurou comunicar isso primeiro aos jesuítas e também a uma multidão de religiosos e religiosas, sobre os quais ele teve uma notável influência. Ele foi, durante todo o seu generalato, presidente da conferência dos Superiores gerais das congregações masculinas e deu à animação deste grupo muito de seu coração e de seu tempo. Sempre no sentido do Concílio. O próprio Padre Arrupe, para mim, estava sempre na frente, não esperava, desde que tinha observado uma grande exigência evangélica. Seus colaboradores ainda se encontravam nas orientações que lhes havia comunicado no dia anterior, enquanto ele já estava mais adiante. Muito perceptivo, curioso de tudo, capaz de também faz triagem segura, com bons critérios. Ele distinguia as coisas importantes das sem importância. IHU On-Line - Como foi a destituição do P. Arrupe por parte de João Paulo II. O que realmente aconteceu e que conseqüências trouxe para a Companhia? Jean-Yves Calvez - O que aconteceu no final do generalato do padre Arrupe? Ele não foi “destituído” pelo papa. Foi outra coisa que se passou. Já em fins de 1980, o padre Arrupe pensou em demitir-se de seu cargo de Geral (no qual estava desde 1965): tomando as providências para isso. Segundo as regras da Companhia de Jesus, ele podia prever passar o cargo a um sucessor na idade de mais ou menos 75 anos, que ele estimava ser razoável. No momento de sua eleição em 1965, a Congregação geral dos jesuítas havia explicitado um procedimento de demissão que não estava claramente definido até então, e o padre Arrupe pensou desde o início que ele a poria em andamento. Humoristicamente, ele estimava estar colocado sobre um “assento ejetável”. Quando ele anunciou ao Papa sua intenção de efetivar sua demissão, o Papa solicitou-lhe que esperasse, a fim de poder esclarecer com ele alguns pontos da Companhia (sobretudo, sem dúvida, questões herdadas de certas tensões no período precedente, no tempo do papa Paulo VI). Este processo de esclarecimento foi, no entanto, retardado até que aconteceu, em 1981, primeiro o atentado à vida do Papa e depois a trombose cerebral que tornou o padre Arrupe incapaz de exercer sua função. Foi então que o Papa quis realizar a clarificação anunciada por meio de um delegado nomeado por ele. Este foi o padre Dezza. Na realidade, a espera não foi muito longa, pois desde 1982 se prefigurou a perspectiva da congregação geral que receberia a demissão do padre Arrupe e elegeria um sucessor em condições normais. Sem dúvida, a decisão do Papa de nomear seu delegado, fora dos procedimentos normais de governo da Companhia, foi um choque para muitos jesuítas que não compreendiam a ação dele. É notável, no entanto, que eles a aceitaram em obediência. Foi isso que precipitou a abreviação do período de interinidade que, conforme algumas pessoas no Vaticano, teria podido durar bem mais tempo. IHU On-Line - Poderia explicar um pouco o processo de reformulação da missão da Companhia de Jesus como serviço da fé e promoção da justiça? Jean-Yves Calvez - Mais que reformulada, a missão da Companhia foi adaptada, diria eu, pela Congregação Geral de 1974-75: adaptada em particular às conclusões do Sínodo dos Bispos de 1971, que seguiu a assembléia episcopal latino-americana de Medellín (1968), eco, por sua vez, do Concílio Vaticano II. O Sínodo de 1971 tinha adotado um documento importante sobre A Justiça no mundo, onde se lia: “O combate pela justiça e pela participação na transformação do mundo nos aparecem plenamente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que é a missão da Igreja para a redenção da humanidade e sua libertação de toda a situação opressiva”. E também: “A mensagem cristã integra na própria atitude do homem para com Deus sua atitude para com os outros homens”. E: “O amor ao próximo e à justiça são inseparáveis”. Eis o que se passou na redefinição de sua missão pela Companhia, no espírito, certamente, dos documentos de fundação da Companhia de Jesus, que já associavam um bom número de serviços ao próximo ao serviço da fé, dizendo do jesuíta: ”Ele se empenhará ainda em reconciliar aqueles que estão na discórdia, em socorrer e servir piedosamente aqueles que se encontram nas prisões ou nos hospitais e a praticar outras obras de caridade como parece convir à glória de Deus e ao bem comum”. O importante é que a Congregação Geral exigia que este cuidado pelo serviço ao próximo na pobreza e antes de tudo da justiça em seu favor se tornasse uma marca de toda forma de apostolado jesuíta, e não somente do apostolado social. Isso mudou de fato muitas coisas na vida dos jesuítas em geral. IHU On-Line - Como o senhor definiria a importância da Companhia ante as necessidades do mundo contemporâneo? Por que os jesuítas estão interessados e trabalham em temas relativos ao social, à justiça e à política? Jean-Yves Calvez - A importância da Companhia de Jesus? Evidentemente, ela não deve somente engajar-se pela justiça, por suas dimensões sociais e políticas, pelas necessidades do mundo. Ela tem um tesouro: os Exercícios Espirituais que, de maneira excepcional, fazem um confronto entre a vida do Cristo e a vida de cada homem ou cada mulher, levando a escutar os apelos do Cristo nos apelos da própria vida de cada um, com simplicidade e com segurança. A Companhia de Jesus é importante por este “método”, por este estilo, que podem penetrar toda forma de serviço, toda forma de aproximação dos outros homens. Se ele não existisse, em função do mundo de hoje, seria preciso, como se diz, inventá-lo. E com urgência. IHU On-Line - Que momento vive a Igreja Católica? Jean-Yves Calvez - A Igreja Católica vive hoje uma competição difícil com um bom número de forças inspiradas também pelo Evangelho, mas comportando um grau de simplificação, por vezes também de politização, que correm o risco de trair a profundidade da mensagem do Cristo. Nós temos, porém, que buscar a reconciliação com as Igrejas diretamente saídas da Reforma, sem falar da Igreja oriental mais importante, ainda separada, a ortodoxa, a fim de descartar o escândalo da divisão que tanto enfraquece a Igreja do Cristo. IHU On-Line - Que rumos vem tomando a Doutrina Social da Igreja nos últimos 40 anos? Qual é hoje seu papel? Jean-Yves Calvez - A Igreja Católica continua esforçando-se para fazer refletir a mensagem do Cristo na vida dos homens, em suas sociedades, suas profissões, a vida do mundo, também se pode dizer. Sua “doutrina social” é atualmente pouco conhecida com esse título, pouco presente a reflexão para a ação de seus membros. A Igreja interroga-nos, portanto, após o Concílio, no domínio da economia, pondo em guarda contra uma economia seguramente dinâmica, mas produtora de demasiada desigualdade e injustiça, no domínio da paz e da guerra, pondo em guarda contra o recurso demasiado fácil a meios de guerra que mais agravam do que resolvem os conflitos, no domínio da vida política também, onde tendemos a perder de vista as referências essenciais – verdades e valores – para contentar-nos com acomodações programáticas sem rigor. IHU On-Line - E o cristianismo? Tem ainda futuro? Qual será o papel do cristianismo no século XXI? Jean-Yves Calvez - Não se pode falar do cristianismo hoje sem distinguir os continentes. Há continentes onde ele prospera, respondendo a muitas necessidades de significação da vida, muito particularmente na Ásia e na África. Há continentes, a Europa por exemplo, onde ele sofre, vivamente interrogado pela dúvida de civilizações em que tantas coisas foram postas em questão e o são ainda, o cristianismo entre elas. Lá o cristianismo precisa de uma nova juventude. Eu penso que vale o mesmo para a América Latina, onde se aproximam juventude e velhice. O cristianismo tem muito futuro, desenvolvendo-se atualmente em regiões de grande expansão geográfica. Aí ainda incluo a China. O cristianismo é uma religião de caráter excepcional, próxima de muitas outras (budismo, islã), única, no entanto, pelo evento de Jesus Cristo entre seus irmãos humanos. Isso não pode não valer para amanhã. IHU On-Line - De que ética estamos necessitando para mudar a economia e a política? Jean-Yves Calvez - O que necessitamos é livrar-nos do individualismo que promove os meios da autonomização que oferece a civilização contemporânea, para aprofundar nossa ligação ao outro homem, onde se descortina a profundeza de nosso ser. IHU On-Line - Como caracteriza a obra e o pensamento de Karl Marx? Em que sentido já estaria superado? Jean-Yves Calvez - O que era determinismo histórico, ao mesmo tempo, aliás, que messianismo (de uma classe), é caduco. A análise do capitalismo não o é, tendo Marx visto muito bem os males que resultam de uma situação em que um número muito pequeno de pessoas controla os meios de produção, determina, então, quase todo o destino de um número muito grande de pessoas que só têm para oferecer ao processo de produção o seu trabalho, sempre mais precário do que o capital – em nossa época em que o capital é raro e em que a população capaz de trabalhar superabunda. É sempre precioso e estimulante ler Marx, notando bem que as doutrinas da União soviética totalitária de ontem estavam bem longe dos pontos de vista de Marx. IHU On-Line - Em que medida o materialismo histórico e o materialismo dialético de Marx ajudam a compreender a contemporaneidade? Jean-Yves Calvez - O materialismo dialético tem o mérito de conduzir à própria dialética, mas desligando-a do materialismo. Perceber a dialética é perceber o “diálogo”, a vida inerente ao ser. Jamais o ser se fechou em si mesmo, encerrado ou contido. Ele é abertura, uma forma ou outra de alteridade jamais está longe, e a transcendência também não está. Porém Marx traiu isso pela idéia materialista. O materialismo dito histórico é pernicioso, ele é uma espécie de traição da própria história em seu constante jorrar em benefício de um determinismo que o achata. Uma vez mais, o que tem valor em Marx são suas intuições na análise sociológica e antropológica do capitalismo, em todo o caso, tal como o conhecemos até hoje, capitalismo fundamentalmente “desigual”: poderia haver um capitalismo bem mais igualitário, se nós o reformássemos profundamente. IHU On-Line - Frei Beto, sociólogo brasileiro, afirma que, quando esteve preso, na época da ditadura militar, em São Paulo, viu comunistas lendo os seus livros para estudar melhor o marxismo. Qual é sua constante na forma de abordar Marx e o marxismo em seus livros? Jean-Yves Calvez - Sim, eu fui lido por muitos marxistas, que encontraram em meus estudos sobre Marx uma grande fidelidade aos próprios textos, distante das simplificações que oferecia o materialismo dialético e histórico correntes. Eu creio ter com isso interrogado mais de um, como eu me interrogava a mim mesmo, à escuta de um homem que cavava fundo, mesmo se ele conduzia a certos impasses. IHU On-Line - Qual é sua experiência pessoal de ser jesuíta? Jean-Yves Calvez - É a experiência de uma grande liberdade, uma imensa abertura ao mundo – através de toda a minha vida (com poucos obstáculos, na verdade) -, a experiência de uma grande solidez de fundamento, já que é a própria pessoa do Cristo, Jesus de Nazaré, toda sua vida e seu mistério, sua morte e sua ressurreição, a nossa, o amor de Deus, no qual se devora todo o ser. Esplendor do mundo, esplendor de Deus, glória de Deus. A gente não se enfada, de vez, de ser jesuíta, e há muitas pequenas coisas que aparecem, em comparação, precisamente como “pequenas”, mas, tem-se a impressão de só estar se ocupado com a “maior”. |