O verdadeiro inimigo da democracia é a eterna desigualdade

Foto: FABIAN KRONENBERGER | Flickr CC

03 Agosto 2021

 

"As sociedades saberão resistir às tentações ditadas pelo desespero e pelo descontentamento enquanto o sistema tenta se corrigir? Ainda há tempo? Que espaço de negociação existe entre as regras do mercado global e as aspirações das pessoas ao bem-estar e à justiça? Em uma sociedade global onde tudo se troca, se monetariza, se banaliza, a defesa da democracia só pode começar com esses questionamentos", escreve Mario Giro, vice-ministro do Exterior italiano, em artigo publicado por Domani, 31-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Se olharmos para o fenômeno da desigualdade de uma perspectiva histórica, notamos que a partir da década de 1980 aquela entre os países diminui enquanto aquela dentro dos países aumenta, depois de ter ficado estacionária por muito tempo. A globalização mudou as cartas: não olha para as nações, mas para os indivíduos. A redistribuição da riqueza nos últimos vinte anos favoreceu o surgimento de novas classes ricas ou médias em todos os países. Assim, reduziu o desnível entre as nações, mas aumentou as distâncias internas, mesmo nos países desenvolvidos, provocando as reações que conhecemos.

 

A grande contradição

 

Dentro dos Estados Unidos, por exemplo, após cerca de 40 anos de relativa estabilidade, a sociedade estadunidense parece ter apagado os progressos de igualdade que se iniciaram logo após a crise de 1929 e após a Segunda Guerra Mundial. É precisamente à classe trabalhadora "branca", rebaixada e empobrecida, que se dirige agora a propaganda populista e trumpiana. Com a "grande duplicação" da força de trabalho (a entrada no mercado de trabalho do antigo mundo do socialismo real que dobrou a mão de obra disponível) esperava-se uma redução dos salários para os menos qualificados nos países ricos, mas não que isso fosse rapidamente expandido também para as posições intermediárias e aos quadros.

 

Assim, o trabalho na indústria manufatureira, ou seja, a verdadeira economia real, caiu pela metade nos EUA, mais da metade na Grã-Bretanha e quase pela metade em outros países europeus. Ao mesmo tempo, os salários da alta administração global dispararam, favorecidos pelos novos ganhos auferidos e causando muitos descontentamentos na população. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, o cenário é contraditório: a desigualdade cresceu em todos os países ocidentais, mas também na China e na Índia, enquanto (pelo menos até antes da pandemia) diminuiu no Brasil, Turquia, Irã, muitos países africanos, Chile, Peru, Tailândia e assim por diante.

 

O medo das classes médias

 

Nessa incerteza global surge o já citado “temor de rebaixamento” das classes médias ocidentais, enquanto paralelamente se forma - e se torna influente - a opinião insatisfeita das novas classes médias dos países emergentes - exigindo mais. Na Europa, as ansiedades da classe trabalhadora e das classes médias se transformaram em verdadeiras surpresas eleitorais. Afetados pela crise, eles temem ficar para trás e se perguntam se seus filhos conseguirão manter o mesmo padrão de vida. Por sua vez, as novas classes emergentes (a que no Brasil é chamada de classe C, numa escala A - D), ainda se sentem muito fracas e exigem garantias de que podem permanecer no nível que acabaram de adquirir e talvez até melhorá-lo.

 

A novidade é que a desigualdade agora pode ser vista a olho nu e desencadeia reações. Está em curso um curto-circuito global em duas frentes: na frente sul, o enriquecimento repentino de uma população acostumada à igualdade da penúria, à medida que aumenta, produz ressentimento social. As classes desfavorecidas veem a riqueza se aproximando, favorecer uma elite nacional, mas sem que a maioria ainda possa usufruí-la plenamente. Na ausência de welfare, corrupção, favoritismo, burocracia: tudo se torna intolerável. É o caso da China e da Índia, mas também do Brasil, assim que a economia desacelerou no ano passado. Na frente norte, o ressentimento se espalha com o corte do welfare, a disseminação de mini empregos sem garantias como na Alemanha ou a gig economy dos deliveries por exemplo, a precarização e o desenvolvimento da classe dos "working poors", aqueles que não conseguem chegar até o final do mês e tem que buscar mais empregos. É a "fratura social" que Jacques Chirac vislumbrou em sua campanha presidencial em 1995.

 

Democraturas

 

Velhas e as novas classes médias provocam a crise em ambas as frentes com consequências políticas: por isso são a essas classes que deve olhar que governa, tanto no norte quanto no sul do mundo. Dois aspectos preocupantes devem ser ressaltados: especialmente no Ocidente, as classes médias são também aquelas que pagam impostos e formam a espinha dorsal das democracias. Se esse equilíbrio desmoronar, o dano será colossal. Ao mesmo tempo, está se criando uma espécie de "não classe": aquela dos desempregados. São os que perdem o emprego depois dos 50 anos sem esperança de conseguir outro, os jovens inativos (Neet), muitas mulheres. São os "excluídos não representáveis", segundo a análise de Pierre Rosanvallon.

 

Embora não representem uma novidade absoluta na história, a desigualdade se tornou uma questão crucial. Por essas razões, Francis Fukuyama falou de uma "nova luta de classes", que diz respeito desta vez à classe média global. Esta última soma no total cerca de três bilhões de pessoas: é cerca de 40 por cento que detém 14 por cento dos recursos disponíveis. No entanto, não se trata de uma classe homogênea: os especialistas a calculam com base em uma renda por pessoa que varia entre 10 e 100 dólares por dia disponíveis. Como pode se ver, uma bifurcação bastante grande, projetada para reunir a classe média ocidental e aquela emergente do sul.

 

Segundo o Fundo Monetário Internacional, cerca de metade desses três bilhões são asiáticos, 25% europeus, 10% norte-americanos, 8% sul-americanos, o restante africanos e do Oriente Médio (para a África negra emprega-se outra bifurcação: entre 2 e 20 dólares por dia) Trata-se daquela parcela da população mundial que oscila entre a rebelião e a adesão ao autoritarismo das "democraturas". Em ambos os casos, o objetivo é sempre o mesmo: defender o próprio frágil status. O sentimento que prevalece neste universo, tanto nos países ricos como nos emergentes ou pobres, é um sentimento de "precariedade".

 

O economista francês Thomas Piketty fez fortuna com um livro - O Capital no Século XXI - no qual enfatiza as políticas necessárias para reduzir a desigualdade. “As classes médias - escreve - têm a impressão de que os mais privilegiados pagam menos do que eles (em impostos, tarifas, etc.). Tais desigualdades alimentam os populismos de direita e de esquerda, bem como o declínio da autorrepresentação soberanista”. Sua conclusão é simples: “sente-se cada vez mais a necessidade de uma regulamentação do capitalismo. Precisamos de instituições democráticas fortes que possam limitar o crescimento das desigualdades e reverter a relação de força. É errado pensar que tudo se resolve de maneira natural. Já vimos isso no passado: no primeiro ciclo da globalização, entre o século XIX e 1914, quando a fé cega na autorregulação dos mercados provocou desigualdades, tensões sociais, crescimento dos nacionalismos, até à guerra mundial”.

 

No entanto, muitos de seus colegas não acreditam que isso seja possível: a degradação das relações sociais estaria agora demasiado avançada para ser corrigida. Apenas a pandemia impôs um toque de freio a essa lacuna. Para alguns especialistas, o único resultado será uma reação violenta ou revolucionária ou uma involução autoritária igualmente violenta, uma vez que os regimes despóticos entenderam como participar da globalização sem pagar o preço da democracia.

 

Como se sabe, a consequência final desse processo seria a crise do sistema liberal-democrático. Entre as duas posições estão aquelas mais moderadas e otimistas que se reportam à velha teoria, mas ainda vital, do "flat world", o mundo que se tornou plano de Thomas Friedman: a globalização e as novas tecnologias terão, em qualquer caso, um efeito nivelador para todos. A inovação social e tecnológica possui uma força igualitária que acabará por prevalecer. O debate está aberto.

 

Após décadas de desvinculação entre economia liberal e as exigências da sociedade, questiona-se como esta última possa manter uma atitude racional e solidária, quando o grau de incerteza e insegurança atingiu níveis intoleráveis. As sociedades saberão resistir às tentações ditadas pelo desespero e pelo descontentamento enquanto o sistema tenta se corrigir? Ainda há tempo? Que espaço de negociação existe entre as regras do mercado global e as aspirações das pessoas ao bem-estar e à justiça? Em uma sociedade global onde tudo se troca, se monetariza, se banaliza, a defesa da democracia só pode começar com esses questionamentos.

 

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