“Nossa civilização depende de minerais muito escassos na natureza”. Entrevista com Alicia Valero

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10 Julho 2021

 

Alicia Valero, 43 anos, professora de Engenharia Mecânica, da Universidade de Zaragoza, alerta sobre o consumo insustentável de recursos e minerais, que está atingindo crescimentos exponenciais. Valero aponta que muitos destes minerais já ultrapassaram o seu pico de extração.

Junto com o seu pai, Antonio Valero, professor de Engenharia Energética, na Universidade de Zaragoza, divulgou suas ideias no livro Thanatia. Los límites minerales del planeta (Icaria), no qual se afirma: “Se continuarmos com esse consumo desmedido e irreversível de matérias-primas, a civilização atual não poderá ser garantida para além de um século de vida, dependendo mais ou menos dos materiais que forem considerados...”.

Alicia Valero é a coordenadora do grupo de ecologia industrial do Instituto CIRCE (Centro de Pesquisas de Recursos e Consumos Energéticos).

 

A entrevista é de Antonio Cerrillo, publicada por La Vanguardia, 07-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

No livro, você diz que a sociedade moderna depende de materiais e minerais que, hoje em dia, são cada vez mais escassos. Em breve, observaremos essa escassez?

Sim. E também falamos de materiais que ainda são abundantes, mas que extraímos em grande velocidade. A cada 25 anos, duplica-se a extração de cobre, portanto, cedo ou tarde, notaremos essa escassez no caso do cobre. E também falamos de muitos minerais que agora entrarão em jogo, e cujas concentrações são baixas na crosta terrestre, com poucas reservas e que estão concentrados em poucos países. Este é um problema muito grave, e já o estamos vendo.

Onde pode ser percebido? Como?

Isso aparece quando ouvimos falar do problema que temos com o fornecimento dos chips e dos semicondutores. Dizem que é algo conjuntural, mas este é um problema estrutural, porque a demanda por estes recursos está aumentando de maneira exponencial.

São as novas tecnologias as responsáveis por nossa dependência de minerais que são muitos escassos?

Quando queremos fabricar um aerogerador, construir uma usina fotovoltaica ou montar um veículo elétrico, praticamente, entra em jogo toda a tabela periódica. Estamos falando em cobalto ou lítio para as baterias, por exemplo. Todos estes são elementos muito escassos na natureza e, além disso, estão concentrados em bem poucos países. Assim, o mundo todo depende desses países e do que produzem as poucas reservas que existem.

No caso da energia fotovoltaica, os novos modelos, que conseguem maior eficiência ou melhor desempenho do que as do silício, requerem, além do cobre e da prata, índio-gálio, selênio, telúrio e cádmio. Todas as energias renováveis precisam de elementos que não frequentes na natureza.

Entramos em uma nova dimensão...

Eu diria que agora tudo isso assume uma multidimensão, porque se antes estávamos praticamente dependendo dos combustíveis fósseis, agora teremos uma multidependência de quase todos os elementos da tabela periódica. É o que estamos vendo com a fabricação de veículos. Vemos que as fábricas precisam parar, meses e meses, porque falta um determinado chip. E por que isso acontece? Porque esse chip está sujeito a uma demanda brutal, depende de materiais que são escassos e as fábricas não suportam. Isso é o que está acontecendo.

São materiais muito pouco familiares para a grande maioria dos cidadãos: ítrio, escândio, neodímio, disprósio... São materiais que fazem parte do que se conhece como terras raras....

Sim, são nomes raros, mas estou convencida de que em pouco tempo serão tão familiares como o ferro ou o cobre.

Em que âmbitos esses materiais raros são especialmente necessários?

São necessários na produção de energia renovável, mas em geral em toda a eletrônica. E se estamos dizendo que transitaremos para uma economia descarbonizada, ou seja, baseada em renováveis e digitalizada, isso significa que teremos que utilizar todos esses elementos.

Você diz que outro problema é que esses materiais são, em grande parte, controlados pela China.

A China, em geral, controla grande parte de todos esses elementos que serão essenciais, e não os controla somente porque possua as reservas, mas os controla porque tem sob o seu controle os processos de refino desses elementos. A China, por exemplo, não possui reservas importantes de lítio, mas compra as minas que possui lítio na América Latina ou Austrália ou então compra o concentrado desses países, refina e depois vende para o resto do mundo. Portanto, dependemos da China, sim ou sim.

A China se apoderou desses recursos futuros? É uma estratégia planejada?

Sim, sem dúvida. Desde o século passado, a China está fazendo uma política de monopolização de toda a cadeia de valor das matérias-primas, porque é a fábrica do mundo. Realmente, pouco a pouco, tem ficado com o monopólio das matérias-primas.

No caso das terras raras, acontece o mesmo?

Quando falamos em terras raras, falamos do mesmo. As terras raras são outro grupo de elementos escassos, são constituídas por 17 elementos da tabela periódica, e aí encontramos o neodímio e o disprósio, que comentei antes, que são essenciais para os aerogeradores.

Disse que um carro convencional possui 52 metais diferentes, não só alumínio, aço e cobre. Até agora, estivemos mais preocupados com a possível falta de combustíveis fósseis. O mundo dos minerais havia ficado nos bastidores...

Sim, um veículo é uma mina com rodas. Antes, um veículo era sobretudo aço e um pouco mais. Os novos veículos são computadores, com muita eletrônica e agora, com as baterias para os veículos elétricos, utilizarão mais materiais de valor estratégico e críticos.

De que maneira, o veículo eletrônico estará condicionado a esses materiais?

Os fabricantes de veículos estão muito preocupados porque já enxergam isso sem passar à fase do veículo elétrico, com os problemas de escassez de semicondutores, e isso será o pão nosso de cada dia.

E em relação aos telefones inteligentes...?

Exatamente o mesmo. Possuem eletrônica e isso faz com que sejam muito vulneráveis, estão à mercê de que terceiros possam produzir ou queiram produzir. Pouco a pouco, veremos problemas de escassez.

Em seu livro, disse que a produção de fertilizantes sintéticos depende diretamente de uma escassa rocha fosfática, e que no Saara Ocidental está presente o grosso das reservas dessa rocha fosfática. Disse isso justamente quando explodiu novamente o conflito com o Marrocos, tendo o problema do Saara como pano de fundo...

Os conflitos no Saara não são para se apoderar do deserto, são pelas reservas estratégicas de fósforo, assim como houve conflitos pelo petróleo no Oriente Próximo. As reservas de rocha fosfática do Saara Ocidental são essenciais para a alimentação do mundo, é o ouro verde. A matéria-prima do fósforo é utilizada como fertilizante. O mercado de fertilizantes é alucinante. Há navios no meio do oceano com cargas de ácido fosfórico e, conforme o preço, vão para um porto ou se dirigem para outro. Isso ilustra como o fósforo é estratégico.

Li seu livro e me faz pensar em Malthus e no recente livro de Giorgos Kallis, ‘Limits’. Malthus é atual?

As teorias de Malthus são cada vez mais atuais. Ele falava em recursos finitos referentes à alimentação. Seu argumento é que, se o Planeta é finito e a superfície do mesmo é finita, teremos problemas de alimentação. Depois, como sabemos, as tecnologias melhoraram, ocorreu a revolução verde e, justamente, ao ser introduzidos fertilizantes nos campos, os prognósticos de Malthus não se cumpriram.

De qualquer modo, tanto as teorias de Malthus como as teorias dos limites do crescimento do Clube de Roma estão muito vigentes, e seus autores (os Meadows) já nos alertaram de que algo deve ser feito ou iremos entrar em colapso.

Mas, os mais tecno-otimistas dirão que os picos de produção destes recursos ainda não foram alcançados. Há muito tecno-otimismo?

Sim, embora cada vez existam menos tecno-otimistas. Estamos analisando tudo isso há mais de 15 anos, e meu pai muito mais, há 25 anos.

Você e seu pai estudaram a mesma disciplina...

Ele começou e eu continuei com a minha tese. Ele começou com José Manuel Naredo, falando em limites. Meu pai, a partir da termodinâmica e Naredo, a partir da Economia, retomando as teses de Nicholas Georgescu-Roegen, expressa em La ley de la entropía y el proceso económico.

Cito seu pai: “Se continuarmos com esse consumo desmedido e irreversível de matérias-primas, a civilização atual não poderá ser garantida para além de um século de vida, dependendo mais ou menos dos materiais que forem considerados...”.

Sim, concordo. Estamos alcançando os picos das matérias-primas. A era da abundância está chegando a seu fim. Isso não quer dizer, de modo algum, que todos nós iremos morrer, mas veremos mudanças radicais, em alguns anos, e teremos que questionar as bases sobre as quais nos assentamos.

E, por outro lado, há muito desconhecimento dos materiais finitos...

Efetivamente. Este é um assunto que agora começa a ser conhecido, a partir do problema do fornecimento dos chips. As políticas de descarbonização e de energias renováveis estão fundamentadas na ideia de que existem recursos materiais infinitos para realizar esses planos, mas levando em conta os números, a conta não fecha...

Mas uma das grandes receitas frente às mudanças climáticas são as instalações de fontes de energia renovável, não é?

É uma receita central e necessária, mas você não pode assumir que a economia continuará crescendo 2% ao ano, pois não há recursos suficientes. Dizemos sim às renováveis, mas precisa ocorrer uma redução e é necessária uma reflexão sobre o fato de que não podemos crescer a um ritmo de 2% ao ano.

Estamos, pois, presos em um beco sem saída. Se a descarbonização nos leva a fomentar as renováveis e estas fazem um uso desproporcional de materiais, que solução você vislumbra?

A saída é reduzir, consumir menos. E aquilo que consumirmos, precisa ser reutilizado o máximo de vezes possível...

“Nossa civilização é incompatível com a vida no planeta. É imprescindível reivindicar, com clareza, uma gestão planetária das matérias-primas que nos permita viver: nós e as gerações futuras...”, dizem no livro. Também explica que a mineração consome de 8 a 10% da energia primária no mundo. E que caso partamos para uma maior dependência dos minerais, esta porcentagem aumentará.

Sim, esta porcentagem aumentará, porque a mineração, para a sua extração, baseia-se em combustíveis fósseis. Se queremos mais minerais e estes são majoritariamente extraídos com combustíveis fósseis, não está claro que, ao final, esses números de descarbonização sejam reais, pois não estão sendo levadas em conta essas emissões adicionais.

Seu livro pode ser lido como um reparo em toda a economia, conforme é convencionalmente entendida...

Há um capítulo mais relacionado à economia a pedido do entrevistador, Adrián Almazán, no qual humildemente nos somamos à linha de pensamento de Georgescu-Roegen. A contabilidade não pode se basear em indicadores monetários, pois o dinheiro são 'papéis' que hoje não têm respaldo físico, não existe sequer o respaldo em ouro. Baseia-se na confiança dos mercados. O que dizemos é que a economia precisa se basear em dados físicos e ter uma base termodinâmica, porque cada ação econômica está associada a uma degradação da natureza...

Isso, traduzido em termos políticos, é o decrescimento?

O decrescimento é um movimento importante que possui várias vertentes. Eu não gosto de me alinhar completamente com as teses do decrescimento, pois possuem uma série de implicações com as quais eu também não concordo totalmente, mas, sim, compartilho de seu espírito. O decrescimento diz que não é possível continuar crescendo ilimitadamente. É preciso reduzir.

É uma mudança filosófica?

Sim, é uma mudança filosófica e estrutural porque há contradições totais. Se você tem um acidente, o PIB sobe, e se ocorre um incêndio que causa danos, como está acontecendo no Canadá, provavelmente, o balanço apresentado estabelecerá um resultado positivo para a economia, porque não se leva em conta todas as externalidades associadas ao incêndio. Enquanto a economia não levar em consideração a degradação que as ações humanas provocam na natureza, viverá de costas para a natureza e continuaremos extrapolando na extração de recursos.

É preciso dar ou colocar um preço nos recursos naturais? Essa é a solução?

O que nós dizemos é que devemos fazer uma avaliação em temos de indicadores físicos, considerando o que implica em termos energéticos... Se exploramos uma mina, devemos saber que isso significa, dentro de 25 anos, ou seja, para as gerações futuras, que para extrair a mesma quantidade de mineral de hoje terão que investir digamos três vezes mais energia, porque na medida em que se reduz a concentração, o custo energético, mas também o ambiental, aumenta exponencialmente. O custo de reposição em termos físicos, ao menos, deveria estar incorporado em uma contabilidade da qual hoje carecemos.

 

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