“As direitas subversivas de todo o mundo estão se unindo”

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27 Janeiro 2021

Em seu novo livro, o historiador dos neofascismos Claudio Vercelli denuncia os riscos dos movimentos extremistas. “Estamos testemunhando o surgimento de um fenômeno completamente novo. Existe uma direita profunda muito semelhante em suas manifestações na Europa e nos EUA: é um radicalismo subversivo e extra-institucional, do qual o ataque ao Capitólio foi apenas a última das manifestações mais trágicas e marcantes. Esta direita desestabilizadora é composta por grupos e grupelhos muito fluidos e mutáveis, mas que pelo menos há dez anos compartilham objetivos e uma cultura”. Não nos iludamos, pois, o trumpismo não acaba com o fim da era Trump: é assim que interpreta o professor Claudio Vercelli, um dos maiores especialistas em história dos Neofascismos (é o título de um de suas obras) a história dos “patriotas” do ex-presidente e a presença nos Estados Unidos de seus partidários prontos a tudo, até a um golpe de Estado.

Neofascismo in grigio.
La destra radicale tra l’Italia e l’Europa

Hoje chega às livrarias a sua pesquisa mais recente sobre a cultura do radicalismo, Neofascismo in grigio. La destra radicale tra l’Italia e l’Europa (Neofascismo cinza. A direita radical entre a Itália e a Europa, em tradução livre, Einaudi, p. XVI-112, € 15) que explora a galáxia complexa de seguidores da supremacia branca e afins. Um universo que inclui os grupos dos Proud Boys, os Boogaloos, os teóricos da conspiração de QAnon, Zog - uma sigla para Zionist Occupation Government (Governo de Ocupação Sionista) que se acirra contra o "Judaísmo mundial" -, os jovens e as mulheres de "Women for America First” que lutam contra o uso de máscaras. Mas do qual, como Vercelli nos explica, há também um equivalente italiano constituído por uma miríade de agregações, de Forza Nuova de Roberto Fiore à Casa Pound e muitos outros movimentos.

A entrevista com Claudio Vercelli é editada por Mirella Serri, publicada por La Stampa, 26-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professor, o senhor considera a ignição global de um extremismo incontrolável como a expressão de novas formas de fascismo?

Não, o radicalismo atual que se encontra no Novo e no Velho Continente é muito diferente daquele de Mussolini e do hitlerismo. Trata-se de uma cultura que muda de rosto e está sujeita às contínuas transformações dos processos de modernização. Expressa desilusão, raiva e desconforto muito reais e não deve ser subestimada. Na Itália, por exemplo, há uma área de descontentamento que se concentra por trás de manifestações de rua efêmeras e fictícias, como "os forcados". Depois, há uma pulverização de grupos que se dividem e se recompactam e que vão da Casa Pound ao Fronte Nazionale de Adriano Tilgher, de Forza Nuova ao Movimento Fascismo e Libertà de Attilio Carelli ao Mis, Movimento Idea Sociale fundado por Pino Rauti. Em geral, nos EUA e na Itália, a direita radical está trabalhando para mudar em protestos e revoltas as transformações econômicas e sociais que estamos vivendo que correm o risco de resultar não só pouco aceitáveis, mas até incompreensíveis.

Está se referindo à crise econômica e à pandemia?

Vamos pegar os patriotas do QAnon que invadiram o Capitólio: de acordo com eles, haveria um complô secreto organizado por um suposto Deep State (identificável em alguns poderes ocultos) para limitar a iniciativa do presidente Trump que, segundo eles, teria desejado desarticular uma hipotética nova ordem mundial em conluio com redes globais de pedofilia, práticas judaicas e obscuras cabalas. Somos levados a subestimar essas fantasias que obviamente nos parecem loucuras.

Mas a sugestão da conspiração é muito difundida e culturalmente importante. QAnon e os outros sobreviverão após o término do mandato de Trump. Porque também na Itália existem os seguidores do QAnon que antes deram seu apoio ao governo de "Giuseppi" Conte, não por acaso tão bem acolhido por "the Donald", e depois a Matteo Salvini. No entanto, não existe uma internacional preta, mas uma cultura de extrema direita que serve de adesivo a vários impulsos e sentimentos: ali também estão os sanitaristas, os higienistas, os ecologistas integrais, os expoentes da recusa a grandes obras. Todos em busca de uma natureza autêntica e oposta à “artificialidade” do mundo contemporâneo. A pandemia em curso nada mais fez do que enfatizar esses estados de espírito extremistas e transformá-los em uma possível subversão.

As palavras de ordem da direita radical são as mesmas nos EUA e na Europa?

Xenofobia, nacionalismo, rejeição à globalização, protecionismo, eurofobia marcada, autoritarismo, paternalismo de estado e plebiscitarismo. Além disso, há a hostilidade ao pluralismo (social, político e cultural) e às instituições da democracia representativa. Como Hitler e Mussolini pegaram emprestado seu léxico da esquerda, também esses extremistas da direita valorizaram elementos da cultura pop dos anos 1960, quando a crítica radical do poder se tornou recusa niilista e, em seguida, expectativa messiânica de uma mudança. Vejo os precedentes históricos italianos desses movimentos naquela que foi a grande festa revolucionária da ocupação de Fiume de 1919 liderada por Gabriele D'Annunzio que abriu o caminho para o fascismo, ou também os encontros folclóricos com que os índios metropolitanos se apresentaram à opinião pública em 1977.

A direita italiana pode se reunir sob a égide de um único líder?

Não. Uma liderança inquestionável como a de Trump não pertence nem a Giorgia Meloni nem a Matteo Salvini. Talvez possamos esperar protestos violentos na Itália também. Mas tudo depende da Europa, que neste momento segura as rédeas da nossa estabilidade também com apoio econômico. A ponta da balança é a Alemanha. E, felizmente, a história de hoje, como o atesta a eleição de Joe Biden 46º presidente dos Estados, vai na direção oposta, rumo à democracia e não ao autoritarismo.

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