Padre alvo de preconceito em supermercado quer encorajar vítimas

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26 Janeiro 2021

Manoel David, pároco em Vitória (ES), foi seguido por segurança ao usar boné, chinelos e bermuda.

A entrevista é de Arthur Gandini, publicada por A Igreja Paulistana, 22-01-2021.

O padre Manoel David Neto, 60 anos, é responsável pela paróquia São Pedro do bairro Vila Rubim, na cidade de Vitória (ES). De férias em Guarapari (ES) a 58 km da capital do Estado, na última quarta-feira (20), ele decidiu ir a um supermercado para fazer algumas compras.

Ao transitar pelos departamentos da unidade da rede de supermercados Casagrande no bairro Aeroporto, percebeu que um segurança acompanhava todos os seus passos. O padre usava uma bermuda, uma camiseta, chinelos e um boné de material de construção. Ao chegar no caixa, reagiu à perseguição e apresentou a sua carteira de identidade sacerdotal. A situação acabou em discussão.

O religioso, ativo nas redes sociais e onde costuma publicar críticas ao presidente Jair Bolsonaro, resolveu divulgar o ocorrido em seu perfil no Facebook. Embora muitas pessoas próximas tenham manifestado solidariedade a Manoel, houve contestações à denúncia de um caso de preconceito sofrido pelo padre. “Há quem ache que eu deveria estar andando de batina”, contou o sacerdote em entrevista ao site A Igreja Paulistana.

Padre Manoel afirma que resolveu divulgar o ocorrido para incentivar outras pessoas vítimas de preconceito a se manifestarem. Se um padre conhecido na cidade passou pelo que foi relatado, situações mais graves poderiam acontecer com moradores de regiões periféricas.

Na sua opinião, o ocorrido também é fruto de um clima de polarização política no país, que foi incentivado pela grande mídia no país e se consolidou com o governo atual. “Pessoas preferem acreditar em mentiras do que acreditar em verdades que desmentem a maneira delas pensarem”, defende.

A reportagem entrou em contato com a funcionária responsável pela supervisão da unidade do supermercado Casagrande, que disse que somente o setor jurídico da rede de supermercados poderia comentar o ocorrido. O site não havia conseguido contato com representantes da rede até a publicação desta matéria. O espaço está aberto.

Confira abaixo a entrevista com o religioso.

Como foi o ocorrido?

Passando no supermercado, que eu sempre frequentava para fazer compras, percebi que eu estava sendo seguido pelo segurança. Ele ficava de longe e a cada departamento que eu ia, ele estava me olhando. Resolvi dar um “baile” nele e andar o supermercado todo para ver ele me seguindo.

Fiz ele ir até o caixa comigo. Eu tirei o boné. Estava de bermuda, camiseta, um boné, inclusive, de material de construção aqui de Guarapari. Reagi falando para ele em voz alta, indignado. Sou conhecido no supermercado e no bairro e algumas pessoas no supermercado me conhecem. Mas eu estava de boné, de máscara e de férias. Eu trabalho em Vitória e estou celebrando (missa) aos domingos. Durante a semana, estou de férias.

Tirei a minha carteira de identidade sacerdotal (do bolso) e mostrei para ele ali. As pessoas começaram a observar. Uma supervisora da loja chegou e pediu para ele sair dali. Em seguida, um colega dele chegou perto de mim, tomou a benção e disse: “padre Manoel, o senhor celebrou o casamento da minha mãe!”

O cara estava me seguindo o tempo todo só porque eu estou de bermuda, de boné, de chinelo. Está achando que eu não vou pagar as compras? O que aconteceu foi isso.

Resolvi divulgar no Facebook. Houve muitas manifestações de todo o tipo. Há quem ache que eu deveria estar andando de batina. É essa polarização (política no país). Eu quero dar visibilidade ao fato. Se aconteceu comigo que tenho uma credibilidade aqui, imagine outras pessoas, qualquer cidadão da periferia que for ao supermercado.

Já me disseram que não foi a primeira vez na loja. Pensei em empoderar as pessoas para que reajam a esse tipo de preconceito, a esse racismo estrutural que mata, como matou no Carrefour do Rio Grande do Sul (no caso do mecânico João Alberto Silveira Freitas na cidade de Porto Alegre).

Como você vê essa polarização política que citou no Brasil?

Essa questão é fruto da falta de valores. A gente vê essa polarização onde pessoas preferem acreditar em mentiras a acreditar em verdades que desmentem a maneira delas pensarem como a história da vacina (contra a Covid-19, que não seria confiável). Se eu não quero acreditar na vacina, prefiro acreditar nas “cloroquinas da vida”.

É fruto daquele ódio que foi divulgado na grande mídia brasileira, que está na mão de poucas pessoas, e que gerou toda essa polarização. Claro que não é só no Brasil, mas no Brasil foi muito construído por esses veículos de comunicação que agora estão mudando de lado (e se posicionando contra o governo). Mas, na verdade, não podem negar que ajudaram a destruir aquilo que estava razoavelmente bem consolidado e provocando esse racha na nossa Democracia. Essa derrota do Donald (Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos) vai ajudar um pouco a desconstruir essa polarização ou acirrar ainda mais os ânimos. A gente vê que foi consolidada com o governo atual que temos que, por sua vez, foi consolidado com o governo americano que graças a Deus acabou.

Há também um movimento de transformar as vítimas em culpadas? Além de revelar um conservadorismo em relação aos costumes na Igreja Católica, pedindo que você usasse a batina no supermercado, você foi colocado como se fosse o culpado?

Eu seria respeitado. Se eu estivesse lá de batina, poderia até tranquilamente pegar algumas coisas e enfiar embaixo da batina como alguns bandidos, vamos dizer assim, até fazem, vão de terno e gravata, e eu não seria importunado. Eu fui importunado por causa da aparência e não por conta da essência.

Eu não quero ser respeitado porque eu sou padre, quero ser respeitado porque eu sou uma pessoa. Quero que todas as pessoas sejam. É como acontece com as mulheres: “você não merece ser estuprada (em citação à declaração do então deputado federal Jair Bolsonaro, em 2014, à deputada federal Maria do Rosário)”. Qual mulher merece ser estuprada? Ela tem o direito de usar o que quiser e ficar onde quiser. Esse preconceito cultural que está aí, esse machismo, vai se polarizando. Estamos em um tempo onde a lógica não importa, o que importa é a minha lógica de pensar.

Muitos dizem que a religião não deve se misturar com a política. Qual o papel da Igreja? Como ela pode atuar para combater o preconceito, o racismo, entre outros temas?

Nesse caso, eu estou tentando, como ministro religioso, dar visibilidade. É fazer com que a visibilidade ajude outras pessoas a terem coragem. No caso do trabalho pastoral, a gente tem uma nova geração de colegas que espiritualizam tudo. Na minha formação histórica, bíblica e teológica, aprendi que tenho que fazer com que as pessoas se sintam valorizadas e amadas independentemente da fé e do que elas pensam. A Igreja também tem que fazer isso: ajudar as pessoas a tomarem consciência da sua dignidade enquanto filhas de Deus. Há pessoas que são vistas pela roupa, pela aparência, pela conta bancária. É o caso “sabe com quem você está falando?", aquela velha história. Eu sei é que uma pessoa educada não falaria isso.

O trabalho pastoral, como o Papa Francisco tem dito, é cuidar das pessoas. Se a gente consegue ajudar uma pessoa a se libertar dessas situações de opressão e de sofrimento, a gente já cumpre a nossa missão. A ideia é ajudar independentemente da sua condição social e moral. Há o falso moralismo que temos aí de que são os puros que vieram para viver e os impuros devem morrer. É o farisaísmo atual.

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