“O futuro é o comunismo de interpretação, o que eu chamo de comunismo hermenêutico”. Entrevista com Gianni Vattimo

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28 Mai 2020

O filósofo Gianni Vattimo (Turim, 1936) viveu estas últimas semanas de reclusão, que afetaram pouco a sua rotina e muito mais seu ânimo, com estupor e resignação. Afligido por uma forma leve de Parkinson, que limita muito seus movimentos, o que mais estranhou é seu ritmo habitual de trabalho, pois ficou isolado de seus colaboradores.

É que, apesar de já ter completado os 80 anos, o pensador italiano se mostra incansável, como demonstra em seu último livro, “Alrededores del ser”(Galaxia Gutenberg), uma coletânea de 31 ensaios, produzidos nos últimos quinze anos, nos quais o italiano aborda a influência e as consequências que a sua ideia do pensamento fraco pós-modernista teve em campos tão variados como a política, a religião, a sociedade e, é claro, a própria filosofia.

O diálogo, “um diálogo aberto e em constante evolução”, é uma das marcas do Vattimo ensaísta, que escreve com o tom daqueles que querem convencer conversando e não impondo. Ainda que como um criminoso que volta ao lugar do crime, as reflexões filosóficas de Vattimo sempre convergem em vários nexos comuns. A política, como ex-parlamentar europeu e confesso comunista, é um deles. A religião e Heidegger são outros.

“Esta ideia de que a verdade é uma palavra dirigida ao homem a tomo de Heidegger e ele, por sua vez, do cristianismo. O que me importa não é negar a verdade, mas negar que tenha o caráter de evidência objetiva, dada de maneira neutra e acessível. A verdade existe porque nós, humanos, assim concordamos. Em resumo, não há relativismo, mas um vínculo inseparável entre a aparição da verdade e a presença humana”.

A entrevista é de Andrés Seoane, publicada por El Cultural, 27-05-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Neste volume, reúne uma trintena de textos variados que funcionam como corolário de seu pensamento filosófico. O que estes ensaios articulam?

Todos estes escritos são o resultado de reflexões dos últimos anos relacionadas à exploração das, por assim dizer, consequências do pensamento fraco, que continua sendo minha orientação central. Abordando vários elementos da atualidade, como a religiosidade, o papel da publicidade, a política latino-americana, a transparência do poder público, a evolução da tecnologia, e outros mais puramente filosóficos, como a hermenêutica e o niilismo, reflito sobre as possibilidades que a multiplicidade de perspectivas, o diálogo e a abertura de visões, marcas do pensamento fraco, continua oferecendo. Tudo isso passando por muitos de meus clássicos como Nietzsche, Marx, Wittgenstein, Gadamer e, claro, Heidegger.

Fazendo essa revisão, sente que está em perigo essa ideia nuclear de seu pensamento que proclama a morte da verdade absoluta e dogmática? Hoje, assistimos a um revigoramento do pensamento forte, fundamentalista, radical e ortodoxo?

Minha crítica à metafísica, ou seja, à verdade como fundamento, ataca o duplo papel dessa verdade como legitimadora do poder e das hierarquias e como legitimadora da violência que esse poder exerce. Há anos, quando escrevi “A sociedade transparente”, pensava que em uma sociedade babélica, caótica, ou seja, plural, se é mais livre. E sim, se é, mas apenas se existe uma babel verdadeira. Caso contrário, se a pluralidade é falsa, se na realidade tudo pertence a poucos sujeitos, todo este efeito libertador não ocorre. E isso é o que acontece hoje em dia, por exemplo, com as fake news.

Atualmente, no Ocidente, vivemos no que gosto de chamar a “sociedade da administração”, no sentido de sociedade do pensamento único. A cidadania é fortemente oprimida com dois mitos, o do bem-estar infinito, sempre melhorável, e o da segurança, que são, como vemos, as ferramentas do populismo.

Quais seriam esses “arredores do ser”, essa difusa região que se situa entre as metafísicas do absoluto do século passado e os tópicos da liquidez que impregnam a modernidade?

Concordamos em que a verdade absoluta e dogmática não existe, certo, mas também não estou cegamente a favor dessas verdades múltiplas e provisórias, líquidas. A verdade se constrói no diálogo social e na compreensão mútua, ou seja, na linguagem comum: “o homem nomeou muitos deuses desde que somos diálogo”, escreveu Hölderlin.

Está claro que precisamos pensar em uma sociedade de diálogo e não de autoridade. Uma espécie de comunismo do espírito, onde todos somos sujeitos de igualdade de direitos. Não estou falando de um projeto político específico, mas certamente, sim, de um critério para avaliar os sistemas políticos existentes. E não acredito que qualquer um tenha passado na prova.

Pela primeira vez orienta sua ideia do pensamento fraco contra o relativismo, ao qual costumam lhe associar erroneamente. Reivindicando o ponto de vista dos excluídos e os invisíveis, o que nos oferecem estas visões periféricas sobre a realidade?

Apesar de ser comunista, não acredito nesse relativismo vitimista que condena o indivíduo. Há muitos pontos de vista, por isso a verdade não está em um ou em outro, mas no acordo entre todos. Não obstante, acredito que na visão de nossas sociedades que os excluídos, os invisíveis, podem oferecer, é possível ler as grandes falhas de nosso sistema.

O pensamento fraco é o pensamento dos fracos, daqueles que se identificam com os proletários de Marx e não têm nada a perder, exceto suas cadeias. Como chego a esta conclusão? Poderíamos chamá-los de uma observação empírica. Quem é o que imediatamente escandaliza o pensamento débil? Quem é o que não pode suportar a ideia de que não há uma base fundamental a qual se referir?

Os fracos não se escandalizam pelo pensamento fraco, mas, sim, acima de tudo, aqueles que estão indo bem no mundo tal como é. Como explica Walter Benjamin, em seu ensaio “Sobre o conceito de história”, aqueles que estão bem no mundo tendem a querer manter a ordem atual e precisam de certezas. Minha batalha habitual é demonstrar que as afirmações de verdade são, sempre e acima de tudo, afirmações de poder.

Nesta sua orientação, outro aspecto para o qual se dedica com abundância em seus ensaios, o âmbito religioso, desempenha um papel muito importante. Qual a influência de sua condição de cattocomunista em seu pensamento?

O cristianismo é fundamental em meu discurso, porque se eu não fosse cristão não teria a tentação de ser comunista. A única razão pela qual me sinto tentado para uma política socialista é o amor ao próximo que aprendi no Evangelho. Por outro lado, com os anos, minha teoria filosófica do enfraquecimento do poder na história, núcleo do pensamento fraco, se parece mais com a tradução da ideia cristã da encarnação de Deus: cada vez menos peso ao “dado” e cada vez mais peso à relação intersubjetiva. Uma espiritualização progressiva do mundo que, além disso, está em marcha, inclusive com a digitalização do conhecimento e os intercâmbios.

Para converter em espírito o que a tecnologia totalitária nos arremessa, é necessária uma humanidade religiosa. Isto não é uma desculpa pela globalização capitalista, porque justamente o capitalismo constitui o limite que impede a espiritualização plena, a plena igualdade dos sujeitos. Podemos ver isso com muita facilidade. O mundo está longe de ser um paraíso de amor e compreensão mútua. No entanto, se não o quê? Que ideal de sentido da história pode ter alguém a não ser o de um comunismo deste tipo?

Neste sentido, qual o papel da filosofia no momento de construir esse novo ideal histórico?

Sempre acreditei na filosofia da práxis, com um compromisso ativo, político, no sentido mais ético do termo, de interrogar, compreender e participar no presente. O mundo atual foge cada vez mais de nosso controle e compreensão, razão pela qual se impõe uma nova hermenêutica capaz de nos dizer quais estruturas complexas regem sua arquitetura e estratificação.

Em relação ao conteúdo, acredito que frente ao niilismo moderno e a essa objetividade do poder que se identifica cada vez mais com o capitalismo financeiro, devemos escolher o comunismo, o único ideal político que ainda pode convocar as massas. Por que ir votar? Pelo livre mercado ou os interesses oligárquicos que os populistas defendem? No entanto, o comunismo é a única alternativa igualitária e democrática possível.

Parece que começamos a sair do pesadelo do que significou estas semanas. Considera que esta pandemia de coronavírus obriga a repensar o mundo tal e como o conhecíamos ou, apesar de seu grande drama, será um incômodo passageiro para a ordem social habitual?

Obviamente, frente ao coronavírus, o pensamento fraco não tem uma solução filosófica a oferecer. Olha com esperança para a ciência e a pesquisa, sem nenhum ceticismo sobre o valor da “verdade” de seus resultados. Somos, por assim dizer, pragmáticos cristãos: o que se necessita vale, não para o capital, mas para as pessoas e as relações de amor, caridade e compreensão entre os homens.

É claro, pelo poder se dirá, não é tudo culpa do capitalismo, se existe um vírus... É claro! Mas um mundo menos dominado pela ideia de conseguir lucros a todo custo, talvez também estivesse em melhores condições para se preparar adequadamente diante das pandemias e outras ameaças mais ou menos “naturais”. O futuro, como digo, é o comunismo de interpretação, o que eu chamo de comunismo hermenêutico. E espero que a situação tão dramática que virá nos ajude a alcançá-lo paulatinamente.

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