‘Querida Amazônia’ mostra como Francisco busca uma mudança mais profunda

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14 Fevereiro 2020

"Permitir que a Igreja se perca nas particularidades de uma ordenação presbiteral ou diaconal, por mais importantes que sejam, quando pessoas precisam se galvanizar para salvar o ecossistema amazônico sustentador de toda a vida humana, é como criticar as cortinas de uma casa que está pegando fogo", escreve Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 13-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

A mais recente exortação apostólica do Papa Francisco, Querida Amazônia, é um documento multifacetado. Aqui, eu gostaria de voltar o olhar para o que considero o aspecto mais marcante do texto: o seu significado eclesiológico.

Muitos leitores do National Catholic Reporter ficarão decepcionados que o papa não tenha avançado na ordenação sacerdotal dos “viri probati”, diáconos experientes que poderiam presidir a Eucaristia e absolver os pecados no sacramento da Penitência, nem avançado na ordenação de mulheres ao diaconato. Certamente, o documento final do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, assembleia ocorrida em outubro passado, convidou-lhe para abordar essas duas questões.

Por que ele não abordou? Penso que o papa busca uma mudança mais profunda. A ênfase dada por ele à sinodalidade tornou-se um dos temas mais dominantes deste pontificado e tem o potencial de ajudar a Igreja a se afastar dos excessos dos ultramontanos dos séculos XIX e XX. Os sínodos são instâncias consultivas e geralmente deixam as decisões difíceis para o papa. Mas Francisco quer que nos afastemos desse modelo monárquico e envolvamos toda a Igreja no processo de discernimento, como aquele de reviver o diaconato feminino.

Não podemos alcançar a sinodalidade se olhamos continuamente para o papa na espera de que ele tome as decisões difíceis. Isso me lembra aqueles políticos que dizem que precisamos tirar a influência do dinheiro na política, ao mesmo tempo em que continuam coletando muitos milhões quando concorrem aos cargos públicos. Uma mudança verdadeira nunca aconteceu dessa forma. A prova do alimento que estamos cozinhando está em prová-lo, e não em alguma racionalização.

Logo de início, o Santo Padre indica um afastamento significativo para com as práticas anteriores, nas quais todos os caminhos sinodais acabavam resultando em decisões papais. Aqui, Francisco propõe um modelo diferente de relação entre o documento final dos padres sinodais e a sua própria exortação:

“Com esta Exortação, quero expressar as ressonâncias que provocou em mim este percurso de diálogo e discernimento. Aqui, não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento conclusivo; não pretendo substituí-lo nem repeti-lo. Desejo apenas oferecer um breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazônica uma síntese de algumas grandes preocupações já manifestadas por mim em documentos anteriores, que ajude e oriente para uma recepção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal.”

De fato, o papa rompe até mesmo com a sua própria prática anterior ao decidir não citar o documento final do sínodo em seu texto.

“Ao mesmo tempo, quero apresentar de maneira oficial o citado Documento, que nos oferece as conclusões do Sínodo e no qual colaboraram muitas pessoas que conhecem melhor do que eu e do que a Cúria Romana a problemática da Amazônia, porque vivem lá, por ela sofrem e a amam apaixonadamente”, escreve ele. “Nesta Exortação, preferi não citar o Documento, convidando a lê-lo integralmente.”.

Essa postura é bastante importante. Em vez de o sínodo ser um órgão consultivo que ajuda o papa a formar seu próprio juízo, aqui ele confere ao resultado das deliberações sinodais a sua própria importância e status. O trecho que diz dos padres sinodais que sabem mais sobre a região do que o papa e a Cúria não é algo a ser encontrado, digamos, nos ensinamentos do Papa Pio X. Eu não tinha previsto isso e, até onde posso dizer, nem alguém mais.

A segunda questão eclesiológica importante é o esforço de Francisco em fundamentar os métodos de evangelização da Igreja em uma abordagem doutrinária especificamente católica. Desde o início de seu pontificado, Francisco deixou claro que não concebe a espiritualidade ou e ética da forma individualista, como o fazem alguns protestantes. O Evangelho jamais se reduz a uma disposição pessoal. Tampouco o Evangelho se apresenta como um sonho distante no céu.

“Tudo o que a Igreja oferece deve encarnar-se de maneira original em cada lugar do mundo, para que a Esposa de Cristo adquira rostos multiformes que manifestem melhor a riqueza inesgotável da graça”, escreve ele, pavimentando o caminho teológico para a sua postura adotada. “Deve encarnar-se a pregação, deve encarnar-se a espiritualidade, devem encarnar-se as estruturas da Igreja”.

Eis a resposta aos que se opõem ao papa e o acusam de romper com a tradição católica. Os opositores do papa parecem pensar que Santo Tomás de Aquino é a última palavra em se tratando de inculturação. Como observa H. Richard Niebuhr no livro “Christ and Culture”:

“No entanto, Leão XIII e todos os que o seguiram, pedindo uma nova síntese em bases tomistas, não são sintetistas. A síntese de Cristo e da cultura é sem dúvida o objetivo deles, mas eles não sintetizam Cristo com a cultura atual, com a filosofia atual, com as instituições atuais como fez Tomás. (...) O que se busca aqui não é a síntese de Cristo com a cultura atual, mas o restabelecimento da filosofia e das instituições de outra cultura (...) o reinado e o senhorio de Jesus acabaram tão identificados com os dogmas, a organização e os costumes de uma instituição religiosa cultural que os contrapontos dinâmicos característicos da síntese de Aquino desapareceram, salvo na própria teoria aceita.”

Para o papa, a inculturação é sempre uma espécie de via de mão dupla. Por um lado, a Igreja “não para de moldar a sua própria identidade na escuta e diálogo com as pessoas, realidades e histórias do território. Desta forma, ir-se-á desenvolvendo cada vez mais um processo necessário de inculturação, que nada despreza do bem que já existe nas culturas amazônicas, mas recebe-o e leva-o à plenitude à luz do Evangelho”. Tampouco ela “despreza a riqueza de sabedoria cristã transmitida ao longo dos séculos, como se pretendesse ignorar a história na qual Deus operou de várias maneiras”.

Somente aqueles que pensam na tradição como uma espécie de peça de museu não entendem essa dinâmica de inculturação e não apreciam o seu valor. São eles que acusam o papa de ser hegeliano. Não é preciso subscrever à filosofia do grande pensador alemão para reconhecer a dinâmica do diálogo entre Deus e o homem que caracteriza as escrituras hebraicas e os evangelhos. A Encarnação torna a inculturação óbvia e necessária. “A inculturação eleva e dá plenitude”, escreve o papa.

Em terceiro lugar, o papa continua a convidar a Igreja para que esta seja menos autorreferencial e se volte mais às necessidades dos outros, especialmente os pobres, e, nesse caso também, o planeta. Quando o sínodo se reuniu, a bacia amazônica estava literalmente em chamas. As florestas da região são corretamente chamadas de “os pulmões da Terra” e, portanto, os danos aqui têm o potencial de causar estragos em todo o planeta.

Como o papa deixou claro em Laudato Si’: Sobre o cuidado da casa comum, não há duas crises na Amazônia, uma ambiental e outra social, mas uma crise que é, ao mesmo tempo, ambiental e social. Os danos ao meio ambiente prejudicam necessariamente a sociedade e a cultura das pessoas da região, pessoas que há tempos – e com amor – cuidam da Terra.

Permitir que a Igreja se perca nas particularidades de uma ordenação presbiteral ou diaconal, por mais importantes que sejam, quando pessoas precisam se galvanizar para salvar o ecossistema amazônico sustentador de toda a vida humana, é como criticar as cortinas de uma casa que está pegando fogo.

Por fim, o papa acredita claramente que deve haver um diálogo de coração e mente antes que a Igreja comece a transformar as suas estruturas. Citando Amoris Laetitia, ele declara: “Igreja deve pôr um cuidado especial em compreender, consolar e integrar, evitando impor-lhes um conjunto de normas como se fossem uma rocha, tendo como resultado fazê-las sentir-se julgadas e abandonadas precisamente por aquela Mãe que é chamada a levar-lhes a misericórdia de Deus”.

Francisco também parece tão desconfiado do legalismo dos reformadores quanto do legalismo dos tradicionalistas. Ele escreve: “Não se trata apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados que possam celebrar a Eucaristia. Isto seria um objetivo muito limitado, se não procurássemos também suscitar uma nova vida nas comunidades. Precisamos de promover o encontro com a Palavra e o amadurecimento na santidade por meio de vários serviços laicais, que supõem um processo de maturação – bíblica, doutrinal, espiritual e prática – e distintos percursos de formação permanente”.

Na seção intitulada “A força e o dom das mulheres”, vemos como o papa aborda essas questões de maneira diferente em comparação à maneira como são discutidas nos EUA.

“Isto convida-nos a alargar o horizonte para evitar reduzir a nossa compreensão da Igreja a meras estruturas funcionais. Este reducionismo levar-nos-ia a pensar que só se daria às mulheres um status e uma participação maior na Igreja se lhes fosse concedido acesso à Ordem sacra. Mas, na realidade, este horizonte limitaria as perspectivas, levar-nos-ia a clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável. (…) sem as mulheres, ela se desmorona, como teriam caído aos pedaços muitas comunidades da Amazônia se não estivessem lá as mulheres, sustentando-as, conservando-as e cuidando delas. Isto mostra qual é o seu poder caraterístico.”

Numa época em que quase toda a Igreja nos EUA clama pelo fim do clericalismo que substituiu o primado do serviço por um mero acúmulo de poder, é estranho ouvir um certo clamor pelo fim do sacerdócio masculino, pois ele rouba mulheres do poder. O filósofo francês Michel Foucault era muitas coisas, mas não um apóstolo.

Dom Jerry Kicanas, bispo emérito da Diocese de Tucson, no estado americano do Arizona, fez parte das recentes visitas ad limina e disse algo que aponta para uma razão pela qual o papa acha que precisa haver um discernimento maior em torno dessas questões neurálgicas.

“Eu acho que ele percebe existir um tipo de – para repetir suas palavras – mundanismo espiritual que assumiu o controle e que não teve a percepção de viver a vida de maneira sacrificial, uma vida de serviço, de doação, generosa”, disse Kicanas após um encontro coletivo com o papa.

Dom John Wester, da Arquidiocese de Santa Fe, estado do Novo México, EUA, disse algo parecido: “Muito gentilmente e com muita calma, o papa falou: ‘Sabem, esse tema não era na verdade muito importante (...) Eu não acho que é algo que vamos abordar, porque não percebo o Espírito Santo trabalhando neste momento’”.

Para que fique claro: Kicanas e Wester não falavam especificamente desse texto, mas acontece que até mesmo católicos fiéis adotam estruturas de referência essencialmente políticas para compreender a Igreja, estruturas que Francisco tem resistido desde que fora superior dos jesuítas na Argentina há muitas décadas.

É uma questão em aberto saber se o apelo papal por uma renovação espiritual levará aos tipos de mudanças estruturais que muitos de nós gostaríamos de ver. Francisco desconfia claramente da vontade própria e da capacidade esta tem de obstruir o movimento do Espírito.

Por outro lado, com certeza é impossível ele não ver que, às vezes, as estruturas e leis devem mudar a fim de facilitar uma renovação espiritual. Lembro-me de uma antiga tirinha, publicada na revista New Yorker, que retratava uma galinha e um ovo na cama, com os dois fumando, e a legenda: “Devemos contar para eles?” Continuarei a conceder-lhe o benefício da dúvida, porque o seu discernimento parece muito mais sagrado do que meus cálculos.

Entendo por que outras pessoas, e especialmente as mulheres, acharão mais difícil dar ao papa o benefício da dúvida após esse documento. Ao preparar o presente artigo, uma amiga manifestou não só a sua decepção, mas também sua mágoa, e é sempre doloroso ver alguém que amamos acabar magoado, especialmente magoado por um papa que ambos admiramos. Muitos católicos terão experiências semelhantes nos próximos dias.

Devemos observar, no entanto, que Francisco não fecha as portas neste documento. Nenhuma. Há uma seção nesta exortação após a qual esperamos que o papa escreva que a Igreja não tem a autoridade para ordenar mulher ou que o assunto está encerrado, mas aí encontramos apenas um convite ao discernimento e ao diálogo continuados.

Espero que, assim como no caso de abuso sexual clerical, quando o papa ouviu as vítimas e isso alterou sua perspectiva, o papa escute também os que sofrem por causa da teologia católica da sexualidade e do gênero humano. A prova mais poderosa da fé cristã é o amor imanente no mundo, e esse amor geralmente – na verdade normalmente –, manifesta-se sob a forma de sofrimento. Como teólogo e padre Hans Urs von Balthasar costumava dizer: “Só o amor é digno de fé”.

Existem outros aspectos deste documento que merecem uma análise, principalmente a intensa espiritualidade do meio ambiente e a apreciação da espiritualidade dos povos indígenas apresentada pelo Santo Padre e o uso da poesia não só para ecoar, mas para instanciar os pontos doutrinários apresentados. A sua abordagem à questão de Cristo e da cultura revela-se ainda mais em toda a sua complexidade. A atenção dada aos sussurros do Espírito é notável.

Ao tentar devolver o ministério petrino a algo que continua a servir como fonte de unidade, enquanto desfaz a uniformidade sufocante produzida pelo ultramontanismo dos últimos 200 anos, Francisco tenta, através do mecanismo da sinodalidade, algo quase impossível de conceber. A menos que realmente acreditemos que, com Deus, todas as coisas são possíveis. Acreditamos?

 

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