Sugestões antropológicas do Sínodo da Amazônia

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17 Janeiro 2020

"Roma tornou-se um lugar de escuta de experiências periféricas e de fronteira. A Igreja se transformou, ou pelo menos embarcou em um caminho de conversão: de 'indigenista', que considera os povos indígenas objeto de pastoral, a 'indígenas', que os vê como protagonistas de sua própria experiência de fé", escreve Edoardo Martinelli, líder escoteiro, treinador nacional dos Agesci, formado em línguas e literaturas estrangeiras e atualmente colabora como especialista em antropologia cultural na Universidade Católica de Brescia, em artigo publicado na revista MissioneOggi, de dezembro de 2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Sínodo, se for traduzido em ações concretas, trará mudanças significativas na Igreja da Amazônia e em sua relação com os povos originários, mas não só. O Sínodo também deve ser interpretado como kairós, momento propício, não apenas para a Amazônia, que está passando por uma emergência ecológica, humana, social e cultural, mas também por suas implicações globais, sem precedentes na história.

Um Sínodo de escuta

O primeiro fato interessante - e inovador - do Sínodo é, sem dúvida, o envolvimento de muitas pessoas e comunidades eclesiais de base, paróquias, dioceses, especialistas, universidades, através de encontros, debates e consultas. Calculam-se quase 100 mil pessoas que contribuíram para a elaboração do Instrumentum laboris, publicado em maio passado. Graças principalmente à Repam, que ouviu a base sobre as problemáticas emergentes na esfera ecológica e eclesial (ministerial). Uma escuta altamente inovadora e "democrática" (sinodal), em um período de crise da democracia em muitos Estados, em sintonia com o desejo de reforma da Igreja do Papa Francisco.

A palavra para a periferia

O segundo aspecto relevante é o desejo de dar a palavra à "periferia" da Igreja no "centro", em Roma, onde o Sínodo foi realizado. A periferia falou em Roma e de Roma, enviando a sua voz para toda a Igreja e para o mundo inteiro.

Roma tornou-se um lugar de escuta de experiências periféricas e de fronteira. A Igreja se transformou, ou pelo menos embarcou em um caminho de conversão: de "indigenista", que considera os povos indígenas objeto de pastoral, a "indígenas", que os vê como protagonistas de sua própria experiência de fé. Forte é o chamamento à necessidade de a pastoral seja colocado nas mãos dos indígenas, apoiando as vocações locais, insistindo para que todas as congregações passem da "pastoral da visita" para a "pastoral da residência". Para usar os termos da pesquisa antropológica, poder-se-ia dizer: passar da observação participante para a participação observante, compartilhando história e vida das populações amazônicas.

Amazônia, lugar de beleza

Terceiro aspecto importante - mas também preocupante - é o reconhecimento da Amazônia como lugar de beleza, riqueza e biodiversidade, além de dor e violência em todos os níveis, alvo de ataques à natureza, por meio de uma economia de rapina, projetos não sustentáveis em nível ambiental, agricultura de exploração, monoculturas empobrecedoras, danos da indústria extrativa, projetos de mineração. Esse grito da terra é o grito dos pobres que desse desequilíbrio são vítimas: do tráfico de seres humanos, do tráfico de drogas, do tráfico ilegal de armas, da criminalidade local, dos grupos armados ilegais, da urbanização descontrolada, da corrupção, da criminalização dos movimentos de defesa dos direitos humanos e do território. Muitos são os mártires dessa luta também entre os padres, os missionários, os religiosos e as religiosas, os laicos e os sindicalistas. Nesse sentido, deve ser entendida a introdução do conceito de "pecado ecológico".

Amazônia, lugar de migração

Amplo é o espaço dedicado à migração que na Amazônia se articula em três níveis: a mobilidade de grupos indígenas em territórios com circulação tradicional; o deslocamento forçado de povos indígenas. Entre essas, os cerca de cem Povos em isolamento voluntário (Piav); a migração internacional e os refugiados, os migrantes vítimas de tráfico.

Fala-se também do direito à cidade, tema já abordado pela Laudato si'. 70/80% da população da Amazônia (cerca de 33 milhões e 600 mil habitantes, dos quais 2 a 2,5 milhões de indígenas) residem nas cidades. A questão da urbanização também inclui a transmissão de um estilo de vida modelado pela metrópole que provoca mudanças de hábitos, perda de tradições, mudanças culturais, religiosas e familiares. Tudo isso gera crises de identidade, empobrecimento, marginalização. Por esse motivo, o Documento Final (n. 39-40) recomenda a criação de equipes missionárias itinerantes que tratem da pastoral de conjunto nas periferias. Mas também lança um apelo aos Estados para criar um fundo para a proteção e ressarcimento dos povos que vivem na Amazônia. O papel do bioma Amazônia no ecossistema global é de vital importância, todos os Estados devem contribuir para sua proteção, deixando de considerar a Amazônia como uma dispensa inesgotável.

Novos caminhos de conversão cultural

O terceiro capítulo do Documento final (Novos caminhos de conversão cultural) é o que mais chama a atenção da antropologia. Conversão é a palavra-chave de todo o documento e "novos caminhos" é a proposta de um percurso longo e não fácil.

A Igreja indígena não é feita por decreto. A Igreja reconhece que em sua história também adotou políticas pastorais alinhadas com o colonialismo das várias épocas.

Mas, desde o início, também teve homens e mulheres que lutavam pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, pela proteção de suas línguas, culturas, espiritualidade. Hoje a Igreja - e aqui o conceito de kairós retorna - tem a oportunidade histórica de se desapegar das políticas coloniais, para uma conversão cultural que leve o cristão a caminhar ao encontro do outro para aprender com ele (cf. n. 41). A Igreja empenha-se a ser aliada das populações indígenas, denunciando os ataques perpetrados contra suas vidas, os projetos de desenvolvimento etnocidas e ecocidas, a criminalização dos movimentos sociais. Portanto devem ser respeitados os direitos à autodeterminação, a delimitação dos territórios e a consulta preventiva, livre e informada dos povos indígenas (até o momento cerca de 130), incluindo aqueles em isolamento voluntário ou em isolamento e contato inicial (Piavi).

Centros de pesquisa

Para esse propósito devem ser criados centros de pesquisa que estudem e reúnam as tradições, as línguas, as crenças, os medicamentos naturais e as aspirações dos povos amazônicos. A formação dos diáconos deve incluir "disciplinas que tratem de ecologia integral, eco-teologia, teologia da criação, teologias indígenas, espiritualidade ecológica, história da Igreja na Amazônia, antropologia cultural amazônica ..." (n. 108) A liturgia também deve ser renovada "valorizando a visão de mundo, as tradições, os símbolos e os ritos originais, que incluem a dimensão transcendente comunitária e ecológica" (116). Existem 23 ritos litúrgicos na Igreja Católica, sinal de um desejo de falar a linguagem de muitas realidades diferentes.

Conversão à ecologia integral

Finalmente, a conversão para ecologia integral é a mensagem que permeia todo o documento. Legado completo da Laudato si', o único caminho possível para a Igreja, que deve dar origem a uma atitude que vincule o cuidado pastoral da natureza à justiça para os mais pobres e mais desfavorecidos da terra. A ecologia integral tem como fundamento o fato de que tudo está "intimamente conectado" (LS 16). Por essa razão, ecologia e justiça social estão intrinsecamente unidas. A vida plena, a conexão harmônica das relações entre água, território e natureza, vida comunitária e cultura, Deus e as várias forças espirituais, o bom viver. Essa é a mensagem que os povos indígenas nos enviam através do Sínodo. A Igreja, portanto, sente-se chamada a empreender uma conversão integral que afete a sua pastoral, os seus ministérios, a sua "política", partindo das estruturas sinodais regionais articuladas no Cepam (Conselho Episcopal Pan-Amazônico) e na Repam.

 

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