O surgimento dos ''cismáticos devotos'' na Igreja Católica. Artigo de Massimo Faggioli

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17 Julho 2019

A dissensão contra esse papa tornou-se radicalizada com instintos cismáticos, porque esse tipo de devoção política tem mais a ver com uma ideologia partidária do que com a Igreja. O catolicismo foi exposto à manipulação ideológica por parte daqueles que realmente não se importam com o Evangelho, mas que estão mais interessados em uma cultura política conservadora particular, que encontrou apoio no Vaticano e nos círculos eclesiásticos bem antes de Francisco.

O comentário é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em artigo publicado por La Croix International, 16-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“Se Matteo Salvini se tornar primeiro-ministro, a Itália terá um governo liderado por um católico que é devoto, mas cismático.”

Assim disse Sergio Romano, ex-embaixador da Itália junto à OTAN e à ex-União Soviética, em um recente artigo publicado no jornal italiano Corriere della Sera.

Salvini, 46 anos, é ministro do Interior da Itália. Nacionalista anti-imigrante, ele também é o vice-primeiro-ministro do país e seu líder de fato. E é um herói para certos católicos devotos.

Ele se levantou em oposição ao Papa Francisco (especialmente sobre a questão migratória) e ajudou a mostrar que, na Itália, assim como nos Estados Unidos, a Igreja Católica está agora abertamente dividida.

Rezando com o papa, discordando das suas visões políticas

No último século, os católicos do mundo ocidental votaram ou se juntaram a uma grande variedade de partidos políticos. Mas o que estamos testemunhando hoje em lugares como os EUA, a Itália e em outros partes da Europa é bem diferente.

Há muito tempo se foi o fenômeno do século XX dos católicos que podiam rezar com o papa e, ao mesmo tempo, votar em políticos que se opõem a certos ensinamentos da Igreja Católica. Isso não era apenas um tipo típico de dissonância católica.

Também era o sinal de uma distinção saudável entre a Igreja e o Estado. E refletia a consciência que os católicos leigos tinham de suas responsabilidades políticas e do pluralismo legítimo das culturas políticas, como Paulo VI também reconheceu em sua carta apostólica Octogesima adveniens, de 1971.

O que estamos testemunhando agora é um novo tipo de fenômeno. Ele se caracteriza por políticos com instintos autoritários, como Salvini, que estão programaticamente tentando minar o pontificado de Francisco. Salvini fez isso até expressando uma preferência por Bento XVI sobre o atual papa e formando uma aliança com o cardeal Raymond Burke, um dos mais ferrenhos críticos doutrinários de Francisco.

Isso criou um problema não apenas para a Igreja, mas também para o Estado.

Independentemente do que os oponentes do papa jesuíta digam, Francisco não é a verdadeira razão por trás do surgimento desse novo fenômeno. Pelo contrário, ele se enraíza na resposta que alguns católicos deram aos ensinamentos da Igreja sobre uma das principais emergências do nosso tempo – como lidar com a reformulação do nosso mundo através de movimentos de migração em massa e das consequências que isso tem para o papel de religião na vida pública.

Um componente-chave nisso é a questão do pluralismo religioso, especialmente no contexto das disrupções causadas pela globalização. Tudo isso provocou uma crise nas democracias liberais, que populistas como Salvini estão manipulando oportunisticamente de maneira politicamente conveniente.

Embora Francisco seja publicamente favorável à integração de imigrantes em uma sociedade multicultural e multirreligiosa, há alguns católicos que são muito contrários a isso. Políticos como Donald Trump e Salvini estão apelando abertamente a (e usando) esse descontentamento para colocar esses fiéis contra um papa que ampliou o espectro daquilo que constitui as questões morais importantes.

Um papa radicalmente evangélico que reorienta a Igreja

O caráter cristão da Igreja Católica está sendo medido agora de uma maneira que é significativamente diferente do passado recente, que foi marcado por sua posição anticomunista durante a Guerra Fria e a sua preocupação com questões de moral sexual entre os anos 1970 e o início dos anos 2000.

A mudança está tendo consequências sobre o modo como alguns católicos percebem o papa. Se cada católico fosse entrevistado sobre a sua visão em relação ao ensinamento radical de Francisco, provavelmente veríamos que a maioria deles, de certa forma, se sente desconfortável com esse pontificado. E, se não se sentem assim, deveriam se sentir.

Mas há uma grande diferença entre os católicos que não estão prontos para seguir o radicalismo de Francisco e aqueles que o acusam de ser herege. Estes últimos fazem parte de um novo fenômeno de oposição.

Certamente, a radicalidade evangélica do ensinamento de Francisco contribuiu para a ascensão desse fenômeno. Mas esse fenômeno tem ainda mais a ver com o tipo de Igreja que Francisco herdou dos seus antecessores. O papa de 82 anos foi forçado a limpar as distorções ideológicas do catolicismo que surgiram, mais ou menos, nas últimas duas décadas. Esse tem sido um longo processo em andamento.

No período pós-Segunda Guerra Mundial, tendo aprendido com os trágicos erros do último meio século – a aliança entre setores da Igreja Católica com o fascismo e o nazismo – a doutrina católica aceitou, embora com relutância, a ideia de uma distinção entre Igreja e Estado (não separação, que é algo diferente). Isso também significava rejeitar as tentações em relação a um casamento ideológico entre a Igreja e uma ideologia política particular.

A Igreja tendia a ser uma “grande tenda”, onde o ensino oficial sobre algumas questões particulares coexistia com uma visível pluralidade de opções políticas no contexto da ordem democrática. A grande tenda coexistia com a condenação oficial do comunismo, é claro, o que significava que as lideranças da Igreja (clero, teólogos, políticos católicos) não podiam compartilhar a ideologia marxista. Mas, ao mesmo tempo, muitos leigos católicos faziam parte do eleitorado votante em partidos socialistas e comunistas no hemisfério ocidental.

Então, um novo modo de entender a relação entre católicos e a política começou a tomar forma depois do fim da Guerra Fria, do declínio do pontificado de João Paulo II e da eleição de Bento XVI. Como as questões de biopolítica e de moral sexual levantavam novos desafios para o ensino católico tradicional, o magistério oficial começou a enfatizar os “valores inegociáveis” e a lei natural.

Entram os “ateus devotos”

Isso preparou o palco para um novo alinhamento entre a Igreja Católica Romana e os chamados “atei devoti” [ateus devotos] – uma expressão italiana que descreve aqueles ateus que demonstram uma deferência pública em relação ao ensino católico tradicional sobre questões morais e sociais, enquanto violam esses mesmos ensinamentos em suas vidas privadas.

Desenvolveu-se, assim, uma história de amor entre Joseph Ratzinger-Bento XVI e os “atei devoti”, abrindo uma nova fase na longa história da Igreja de exercer a conveniência política no hemisfério ocidental.

Os ateus devotos tendem a ver a tradição católica como um pilar essencial para a preservação da civilização ocidental. E por causa disso, certos hierarcas da Igreja deram a eles um tratamento preferencial, até mesmo acima e além daquele que é atribuído aos católicos “normais”. Eles os consideraram aliados na luta contra o secularismo e o Islã.

Não é nenhuma surpresa, então que, em nome da preservação do cristianismo, esses “atei devoti” tenham expressado apoio às guerras lideradas pelos EUA no Oriente Médio como uma nova cruzada contra o Islã, enquanto criticam a União Europeia por falhar em reconhecer as “raízes cristãs da Europa” em seus textos fundamentais.

Essa aliança entre a Igreja e os “atei devoti” foi criada, principalmente, por causa de dois fatores teológicos.

O primeiro diz respeito à identificação do catolicismo e do cristianismo com a Europa e o Ocidente. Isso inclui uma visão particular do Islã que precedeu o 11 de setembro, mas que foi fortalecida e radicalizada pelas convulsões que ocorrem no mundo muçulmano desde o retorno das “religiões fortes” à vida pública.

O segundo diz respeito à eclesiologia das “minorias criativas” dentro da Igreja. Tais comunidades intencionais são entendidas como uma resposta à secularização do mundo ocidental e como uma alternativa à suposição de que todos os nascidos na fé católica permaneceriam na Igreja. Contudo, o impulso para estabelecer minorias criativas também encorajou um certo particularismo dentro da Igreja.

Isso, por sua vez, produziu testes de pureza ideológica que fomentaram uma espécie de leninismo ou jacobinismo eclesiológico na Igreja Católica. A verdadeira devoção por esse novo tipo de católico politicamente devoto se dirige a uma identificação político-teológica particular da Igreja com a civilização ocidental, muito mais do que para a Igreja Católica e sua longa e multifacetada tradição.

Dos “ateus devotos” aos “cismáticos devotos”

A transição dos “atei devoti” do início dos anos 2000 para os “cismáticos devotos” de hoje tem sido mais um curto passo do que um salto. Ele pode ser traçado a partir da eleição em 2013 do Papa Francisco, que imediatamente começou a desafiar qualquer identificação da Igreja com suposições político-teológicas conservadoras – precisamente porque elas não expressam o verdadeiro catolicismo, especialmente para os fiéis do Sul global.

A excessiva obsessão com apenas um aspecto particular da fé cristã sempre foi o caminho para a heresia e o cisma. Os “cismáticos devotos” de hoje, como Matteo Salvini e seus apoiadores, são em grande parte aqueles que abraçaram o catolicismo pelo seu alinhamento político nos últimos 20 anos.

Eles são devotos no sentido de que mostram publicamente sua preferência por uma Igreja tradicionalista e suas devoções, como o terço. Eles são cismáticos porque promovem abertamente o enfraquecimento do bispo de Roma entre os fiéis católicos.

Esses “cismáticos devotos” não são apenas políticos. Eles também incluem alguns teólogos, padres, bispos e até mesmo cardeais. Seus instintos cismáticos têm estado à mostra desde o início do pontificado de Francisco. Mas eles foram particularmente visíveis em agosto de 2018, quando alguns deles – como os arcebispos Charles Chaput, da Filadélfia, e Salvatore Cordileone, de San Francisco, assim como Dom Joseph Strickland, bispo de Tyler (Texas) – ficaram do lado do arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio papal em Washington, que pediu que Francisco renunciasse.

A conduta dos católicos que se opõem ao atual papa é muito diferente da dissidência leal dos fiéis no século XX – desde a época de Yves Congar e Marie-Dominique Chenu antes do Concílio Vaticano II (1962-65) até os teólogos da libertação entre os anos 1980 e hoje.

Mais devotos a uma ideologia política do que ao Evangelho

Nenhum desses “dissidentes” anteriores abandonou a Igreja ou acusou o papa de heresia, mesmo tendo opiniões teológicas que diferiam do ensino oficial de Roma. Alguns deles foram até perseguidos pelo Santo Ofício (a Congregação para a Doutrina da Fé de hoje) pelos seus escritos. Muitos deles já foram inocentados, e suas intuições teológicas, mesmo décadas depois, foram adotadas pelo magistério oficial.

A dissensão política e teológica contra João Paulo II e Bento XVI não era cismática.

Os cismáticos devotos de hoje também são diferentes dos adeptos do cisma do arcebispo Lefebvre. A ideologia original dos lefebvrianos era claramente reacionária, senão até, muitas vezes, abertamente fascista. Mas eles não conseguiram se identificar com um líder nacionalista que apelasse a uma deslealdade aberta em relação ao papa do mesmo modo que Salvini, Trump e seus adidos eclesiásticos estão fazendo hoje.

Essa identificação entre a Igreja Católica e uma ideologia política – ou um partido político, como para muitos nos EUA – entrou em colapso visivelmente em março de 2013, com a eleição de Francisco, que deixou claro – com sua biografia e sua personalidade, mesmo antes dos seus ensinamentos – que a Igreja é transnacional e multicultural. Ela é maior do que as ideologias nacionalistas e as narrativas civilizacionais.

Francisco não criou as atuais tensões. Pelo contrário, ele as expôs – não apenas pelo que ele diz ou faz, mas principalmente (e em primeiro lugar) por quem ele é e pelo catolicismo anti-ideológico que ele encarna.

A dissensão contra esse papa tornou-se radicalizada com instintos cismáticos, porque esse tipo de devoção política tem mais a ver com uma ideologia partidária do que com a Igreja. O catolicismo foi exposto à manipulação ideológica por parte daqueles que realmente não se importam com o Evangelho, mas que estão mais interessados em uma cultura política conservadora particular, que encontrou apoio no Vaticano e nos círculos eclesiásticos bem antes de Francisco.

A identificação entre o catolicismo e o conservadorismo ocidental funcionou devido ao espectro limitado de questões tão próximas do coração desses ateus devotos.

Partido e Igreja se sobrepuseram, senão até coincidiram. Mas toda vez que a Igreja se identifica com um partido político, é sempre o partido que domina a Igreja.

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