Louvor da pastoral culinária. Os ingredientes para acompanhar as pessoas homossexuais nas nossas comunidades cristãs

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10 Janeiro 2019

É difícil imaginar hoje em dia uma pastoral que não tenha momentos de convívio. Começa-se com o catecismo, onde se celebram os aniversários e, depois, no grupo do pós-crisma com a fórmula pizza + encontro (por vezes também na forma inversa devido à conhecida propriedade comutativa que não altera o produto).

O artigo é de Dom Gian Luca Carrega*, chefe do Departamento Diocesano da Pastoral da Cultura e das atividades pastorais para as pessoas LGBT e seus familiares da diocese de Turim, em artigo publicado por Gionata, 08-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Dos grupos de casados, aliás, nem é preciso falar, pois às vezes se montam salões improvisados, a fim de dar vazão a lautos jantares que ocupam a maior parte do tempo compartilhado (lembro ainda quando eu era pároco assistente e às 23h30 pedia licença para me retirar e o sempre animado Vincenzo tentava me segurar com a lisonja "vamos ferver a água e preparar mais um pouco de espaguetes ...").

Nem mesmo o grupo de aposentados escapa a esse costume, com o cuidado de banir doces e crocantes que ameacem a estabilidade das dentaduras. Em um contexto desse tipo, pode-se pensar que a pastoral com as pessoas homossexuais não acompanhe essa regra?

Eu circulei muito pela Itália e encontrei vários grupos que orientam suas reuniões de forma diferente, como escolas de oração ou momentos de vivência existencial, com capelães ou se autogerindo, nas paróquias e em casas privadas. Parece-me que um dos poucos dados constantes que podem ser registrados é uma profunda dedicação ao aspecto culinário.

Com o passar dos anos, posso ter me esquecido dos nomes das pessoas que conheci e até mesmo ter apagado alguns rostos (não sou muito fisionomista, infelizmente), mas ainda me lembro do que foi comido! Somos um país dividido sobre tudo, mas, felizmente, damos uma atenção especial à comida e eu não me sentiria pronto para montar um ranking para premiar uma culinária regional em detrimento de outra.

Parece-me uma sensibilidade importante, que também fala sobre o sentimento de acolhimento entre pessoas que muitas vezes precisam lidar com a dificuldade de conviver com aqueles que as recusam a priori. Aliás, talvez certas tensões intereclesiais e muitas vezes internas às próprias paróquias poderiam ser domadas mais facilmente na frente de um fervido ou de um prato de maltagliati, do que de um asséptico conselho pastoral. É uma fórmula que já funcionava na época de Jesus, se é verdade que ele frequentemente aceitava convites daqueles fariseus que não perdiam a oportunidade de falar mal dele.

É claro, porém, que a mesa não é suficiente para arrumar tudo e, nesse sentido, é indicativo lembrar o que aconteceu em Antioquia, conforme relatado por São Paulo no segundo capítulo da carta aos Gálatas. Naquela igreja os cristãos de origem pagã e de origem judaica comiam na mesma mesa, considerando que as normas alimentares que separavam os judeus dos gentios (e de suas impurezas) tivessem sido superadas pela novidade cristã e pelo batismo que haviam recebido. Tudo parecia funcionar da melhor maneira, até que mensageiros enviados por Tiago, chefe da igreja-mãe de Jerusalém, fizeram a exigência de voltar a ter duas mesas separadas.

Até mesmo Pedro e Barnabé baixaram a cabeça diante dessa imposição, apenas Paulo a transformou em uma questão de princípio e opôs a sua recusa. Até onde sabemos, ficou sozinho e derrotado. Por que evocar esse fato? Porque inclusive hoje em nossas igrejas corre-se o risco é retornar a mesas separadas.

A pastoral com as pessoas homossexuais em muitos casos é um elemento não integrado com a realidade da igreja em que é inserida. É claro que deve ter seus espaços de confidencialidade e proteger as pessoas que os usam, para não serem expostas ao juízo alheio. Inclusive para disso, existe um caminho específico semelhante às instâncias próprias dos escoteiros ou de outros grupos que gravitam em torno da paróquia, mas conservando uma certa autonomia. O problema, no entanto, surge quando resulta um corpo estranho em relação à vida da comunidade.

Infelizmente, são muitas as situações deste tipo, onde à pastoral com as pessoas homossexuais são "concedidos" espaços, mas de forma quase clandestina, como se fossem reuniões de sociedades secretas e não momentos eclesiais. Isso não é bom porque acaba por reproduzir no âmbito da igreja algumas distorções da sociedade civil, onde cada um se regula como considera melhor, desde que não pise nos pés dos outros. Mas a Igreja é outra coisa...

Se as iniciativas da pastoral para as pessoas homossexuais são mantidas em segredo, de modo a não perturbar o sono de alguns crentes carolas, há algo que não funciona, voltamos a separar as mesas e a considerar que alguns possam te contagiar com a sua "impureza".

Haverá sempre pessoas obtusas que se recusam a enviar seus filhos às escolas dominicais se há categorias com as quais têm problemas em se relacionar, mas ceder a estas chantagens significa dar razão àquelas famílias que escondem os avós quando chegam as visitas ou nunca falam dos parentes com deficiência. Que tipo de família seria a Igreja se fizesse distinção entre filhos e enteados? E, acima de tudo, que tipo de família seria aquela em que os mais fortes fazem bullying com os menores?

Eis por que a mesa pode se tornar um lugar de comunhão, onde as pessoas se encontram e se aceitam pelo que são. Comer o mesmo pão é uma forma concreta de comunhão porque o próprio termo "acompanhamento" deriva disso, ou seja, o companheiro (cum-panis) é aquele que compartilha o mesmo pão.

Se participamos do mesmo pão na Eucaristia, se recebemos um Batismo que nos torna todos parentes porque filhos do mesmo Pai, então as barreiras e as divisões que são erguidas depois, são abusivas, são reconstruções humanas do que o Filho de Deus derrubou.

* Dom Gian Luca Carrega, nascido em 1972, em 2000 foi ordenado padre na diocese de Turim. Depois de um período de três anos na paróquia de Orbassano (TO), continuou seus estudos da Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Obteve a Licença em 2006, preparou o doutorado sobre as traduções siríacas dos Evangelhos.

Ele é atualmente o Diretor do Departamento para a Pastoral da Cultura da diocese de Turim e, pelo mandato recebido do seu arcebispo, também cuida das atividades pastorais para as pessoas LGBT e seus familiares. É professor na Faculdade Teológica da Itália Setentrional - Secção Paralela de Turim e autor de vários livros de exegese bíblica, além do prefácio do livro de Adrien Bail, Omosessuali e transgender alla ricerca di Dio (Homossexuais e transexuais em busca de Deus, da editora Effatà, 2016) e do livro de ajuda Genitori fortunati. Vivere da credenti l’omosessualità dei figli (Pais de sorte. Viver como crentes a homossexualidade dos filhos, publicado pela associação Tenda di Gionata, 2019).

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