A mídia e a psiquiatrização da política

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Por: Cesar Sanson | 04 Abril 2016

"Ao ocultar o confronto político com o véu de uma suposta ocorrência psiquiátrica, a matéria veiculada promove a psiquiatrização desse embate, prestando um desserviço à sociedade e à própria ciência". O comentário é de Augusto César de Farias Costa, médico-psiquiatra e psicoterapeuta, em artigo publicado por Revista Fórum, 03-04-2016.

Eis o artigo. 

Era de se esperar que após as recentes manifestações de apoio à democracia, ao Governo e à Presidenta Dilma, houvesse um recrudescimento da campanha de desconstrução da sua legitimidade como autoridade constituída nas urnas. Não causa estranheza essa nova ofensiva.

Contudo, vale a indignação diante dessa investida, que sugere a falta de capacidade da Chefe do Poder Executivo, referindo-se a uma hipotética desestabilização psicoemocional. A matéria de capa da revista IstoÉ trata a subjetividade de maneira distorcida, mediante um discurso que pretende se apropriar, direta ou indiretamente, do campo psiquiátrico para promover estigmas e moralismos. Alegria, tristeza, coragem, medo, serenidade, raiva e outras emoções integram a condição humana e, por si só, não configuram um quadro psiquiátrico.

A Psiquiatria, nascida na confluência entre as ciências naturais e humanas, tem como objeto a compreensão e o cuidado às pessoas que entram em sofrimento psíquico. Atenta à complexidade humana em seus variados contextos e manifestações, contribui para a saúde individual e coletiva.

Entretanto, ao ocultar o confronto político com o véu de uma suposta ocorrência psiquiátrica, a matéria veiculada promove a psiquiatrização desse embate, prestando um desserviço à sociedade e à própria ciência.

Traz mais confusão do que esclarecimento à população – já muito desgastada – nesse momento controverso e delicado que atravessa o país. Com uma atitude leiga e desautorizada, esse tipo de veiculação pode facilmente se estender a outras autoridades públicas e políticas questionando sua sanidade mental.

Essa manobra, além da vilania do argumento, recupera o que há de mais extemporâneo em relação aos portadores de transtornos mentais.

Os estigmas em torno da loucura – secularmente construídos – são reforçados no imaginário social, e alimentam os três grandes eixos de exclusão: incapacidade, irresponsabilidade e periculosidade.

Ademais, essa postura se opõe a todos os esforços voltados para a afirmação da cidadania dos que sofrem transtorno psíquico, oprimidos e imolados pelo preconceito. A Política Nacional de Saúde Mental, referenciada principalmente na Lei de Reforma Psiquiátrica (Lei n. 10.216/2001), preconiza a superação desses estigmas.

Ao longo das últimas décadas, a moderna psiquiatria vem construindo um novo modelo em Saúde Mental. Pautado pela referência psicossocial, preconiza a substituição dos manicômios pelo cuidado em serviços abertos, proporcionando aos pacientes a reinserção na comunidade e a condição de sujeitos de direito.

Construções midiáticas carregadas de anacronismo e preconceito, como se lê na revista, em nada contribuem para a consolidação de uma sociedade plural, inclusiva e justa. A Psiquiatria, como área que estuda os fenômenos inerentes à pessoa em seus variados contextos, sempre esteve implicada no debate público e político. Contudo, esse acervo de conhecimento não pode ser manipulado com fins avessos ao seu propósito científico e à sua verdadeira vocação.

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