Pacto das Catacumbas, Papa Francisco e a Igreja dos pobres. Entrevista com Luigi Bettazzi

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18 Novembro 2015

"Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue", escreviam há 50 anos os 40 bispos que, no dia 16 de novembro de 1965, durante a fase final do Concílio Vaticano II, assinaram o Pacto das Catacumbas. "Eu não vivo no luxo. O meu apartamento tem 296 metros quadrados, e eu vivo sozinho. Moro com uma comunidade de três irmãs que me ajudam", declara hoje o ex-secretário de Estado vaticano do Papa Ratzinger, o cardeal Tarcisio Bertone.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada no jornal Il Manifesto, 14-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A distância que separa as duas afirmações mostra claramente o caminho enunciado, mas nunca percorrido até o fim, pela instituição eclesiástica e indica principalmente a coexistência, na mesma Igreja Católica, de dois modos opostos de viver o Evangelho, ao menos em relação ao tema da pobreza e do uso dos bens, hoje como ontem.

Outono de 1965, o Concílio Vaticano II já chegou à sua última fase. O tema da "Igreja dos pobres", lançado por João XXIII, esteve pouco presente no debate na assembleia, ainda menos nos documentos oficiais, também por medo, no clima da Guerra Fria, de fazer um favor em Moscou e prejudicar o Ocidente capitalista.

Justamente por causa disso, no dia 16 de novembro de 1965, o bispo brasileiro Hélder Câmara, o argentino Enrique Angelelli (que depois seria morto durante os anos da ditadura) e outros 38 Padres conciliares se reuniram nas Catacumbas de Domitila.

"Como Paulo VI não quer falar de pobreza, nós o fazemos", dizem, e assim assinam aquele que passaria para a história como o Pacto das Catacumbas, uma lista de compromissos individuais de pobreza a ser posto em prática no próprio ministério pastoral: a renúncia a hábitos ricos, a títulos honoríficos, a contas bancárias, a moradias luxuosas.

Entre eles estava também Dom Luigi Bettazzi, agora com 92 anos, o único sobrevivente daquele grupo, na época bispo auxiliar do cardeal Lercaro em Bolonha, que, nos anos 1970, ficaria famoso por uma correspondência com o secretário do Partido Comunista Italiano, Berlinguer.

Eis a entrevista.

Dom Bettazzi, como nasceu o "Pacto das Catacumbas"?

No Colégio Belga de Roma, reunia-se regularmente um grupo informal de cerca de 50 bispos, autodenominados de "Igreja dos pobres", que refletia sobre o tema da pobreza na Igreja. Paulo VI não gostava que no Concílio se falasse da Igreja dos pobres, porque ele temia que o debate acabasse em política. Ele dizia que ele mesmo abordaria o tema em uma encíclica, que depois seria a Populorum progressio. Então, o grupo da "Igreja dos pobres" decidiu tomar a iniciativa.

O que fizeram?

Eles concordaram em celebrar uma missa nas Catacumbas de Domitila e de formalizar compromissos concretos sobre o tema da pobreza que cada bispo pessoalmente assumiria, assim que voltasse para a sua diocese. Eu fiquei sabendo e fui.

E assinou o Pacto...

O bispo de Tournai, Dom Himmer, presidia a missa. No fim, ele leu esta lista de compromissos: não morar em edifícios luxuosos, renunciar aos hábitos ricos, aos títulos honoríficos, às contas bancárias, ficar perto dos pobres, dos trabalhadores, dos marginalizados. Assinamos em 40, nos comprometemos a fazer com que outros o assinassem, e, em pouco tempo, havia cerca de 500 adesões. Depois, o cardeal Lercaro o levou para o papa, junto com outros materiais sobre o tema da pobreza, que, por um pedido reservado de Paulo VI, ele tinha elaborado com um pequeno grupo de bispos.

Por que se falou pouco no Concílio sobre esse tema, que está pouco presente nos documentos finais?

Paulo VI não queria que ele fosse tratado de forma explícita. Estávamos em plena Guerra Fria, havia a União Soviética e o comunismo, e o papa tinha medo de que o fato de falar sobre Igreja dos pobres fosse interpretado em chave antiocidental, uma tomada de posição contra o Ocidente atlântico e capitalista.

E depois havia os episcopados ricos...

É claro, porque quem liderava os trabalhos eram os episcopados do norte da Europa: Alemanha, França, Bélgica e Holanda, pouco sensíveis ao tema da Igreja dos pobres.

Seria preciso esperar pela teologia da libertação...

Exatamente. Em 1967, Paulo VI publicou a Populorum progressio, também com base nos materiais que Lercaro lhe tinha fornecido, que é uma encíclica muito forte no plano social, mas não aborda especificamente o tema da pobreza. Em vez disso, em 1968, com a assembleia dos bispos latino-americanos em Medellín, pela primeira vez se fala de "opção preferencial pelos pobres", ou seja, olhar e abordar a realidade do ponto de vista dos excluídos.

O que aconteceu com o Pacto das Catacumbas nesses 50 anos?

Cada um de nós tentou fazer o seu melhor na sua própria diocese, mas sem se conectar com os outros.

Hoje, que Igreja vivemos?

Parece-me que o Papa Francisco, depois de 50 anos, está levando adiante o apelo da Igreja dos pobres e da opção preferencial pelos pobres. Por isso, a sua atividade pastoral encontra muitas resistências.

Resistências principalmente internas...

Sim. Além disso, mudar uma estrutura é muito mais difícil do que fazer uma nova, pois é difícil mudar uma certa mentalidade das pessoas...

Um compromisso concreto pela Igreja a ser assumido imediatamente?

Acima de tudo, a transparência e a veracidade dos orçamentos econômicos e financeiros, em todos os níveis, do Vaticano até a paróquia individual. E, depois, uma autêntica comunhão, porque o clericalismo é muito forte na Igreja.

É concebível que a Igreja realmente renuncie a bens e patrimônios?

Quando eu leio os últimos documentos do Papa Francisco, parece-me que ele vai nessa direção. Certamente, a operação deve ser levada adiante com sabedoria. O IOR, por exemplo, é um problema que não pode ser resolvido com um corte claro. É preciso ver como conseguir transformar aquilo que se tornou em um poder financeiro em um serviço, o que ele deveria ser na realidade. Para fazer isso, é preciso tempo e as pessoas aptas.

O Papa Francisco vai conseguir?

Eu espero. É muito difícil renovar uma Igreja que, por séculos, foi um poder, até com um papa-rei.

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