Angelelli, pastor corajoso de uma Igreja perseguida

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14 Maio 2015

Anno Domini 2015. Ex parte Sancta Sedis nihil obstat. Não há mais nenhum obstáculo. A 39 anos da morte, abre-se agora oficialmente o caminho dos altares para outra figura significativa de bispo testemunha da Igreja do Concílio: o prelado argentino Enrique Angelelli, bispo de La Rioja, assassinado no dia 4 de agosto de 1976, durante a ditadura militar de Videla.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 10-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Santa Sé concedeu o nada obsta no dia 21 de abril passado. O pedido formal para a introdução da causa de canonização por martírio in odium fidei de Angelelli havia sido encaminhada pelo atual bispo da diocese de La Rioja apenas quatro meses antes, no dia 7 de janeiro.

Um tempo breve para o placet para o início da causa, especialmente quando comparado com o atraso de quase 40 anos para o resultado da investigação sobre a verdade da morte do bispo, realizada no processo penal iniciado pelo tribunal de La Rioja e objeto de inúmeros obstáculos, despistagens e contínuas tentativas de encobrimento.

Só no dia 4 de julho passado é que a investigação judicial estabeleceu que a morte de Angelelli não foi causada por um "trágico acidente rodoviário" – segundo a versão publicamente defendida no início também por alguns setores da Igreja –, mas por "homicídio premeditado e executado no âmbito do terrorismo de Estado", e condenou à prisão perpétua dois ex-militares, colaboradores estreitos do general Videla, reconhecidos como mandantes.

Uma verdade sobre a qual certamente também contribuíram para lançar luz as cartas pedidas ao Vaticano pelo atual bispo de La Rioja, Marcelo Daniel Colombo, entregues ao tribunal.

Como afirmou o próprio prelado, as cartas "evidenciam claramente os termos do estado de perseguição que vivia a Igreja de La Rioja e as ameaças de morte recebidas por Angelelli" e, na sequência da sentença sobre o caso, o prelado se expressou assim: "Hoje não há mais dúvidas sobre o fato de que essa Igreja particular viveu uma perseguição muito forte, que levou embora a vida do bispo, junto com a de outros sacerdotes e leigos. Como se costuma dizer, não há pior do que cego do que aquele que não quer ver. Se ainda existem, dentro e fora da Igreja, pessoas que não querem ver na vida e na morte de Dom Angelelli um sinal heroico e eloquente do amor de Deus pelo seu povo, rezemos por elas".

Enrique Angelelli é o primeiro bispo assassinado pelas ditaduras latino-americanas. A sua história se insere nas violentas perseguições sofridas pela Igreja na América Latina nos anos 1970-1980. Angelelli, como Romero e outros bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, que moldaram a sua fisionomia sobre o modelo e as exigências do Evangelho, do Concílio e do magistério, sob a falsa acusação de fazerem política e comunismo, foram condenados à morte por sistemas ditatoriais formados por homens que se professavam católicos e que viam nessas testemunhas obstáculos para a prossecução dos interesses "da ocidental social".

Assim, enquanto era conhecida na Europa a perseguição operada nos matadouros pelos regimes totalitários ateus, aquela em curso na América Latina, realizada em nome do mesmo Deus, era eclipsada pelos experimentados métodos da difamação e da calúnia.

Filho de imigrantes italianos, Angelelli havia participado do Concílio e tinha sido escolhido por Paulo VI como bispo de La Rioja, uma das dioceses mais pobres da Argentina.

Ele foi um dos bispos que, junto com os padres Lucio Gera e Rafael Tello, presidiram a comissão da qual nasceu a teologia do povo. Bergoglio o conhecia desde quando era reitor do Colégio São Miguel. Angelelli havia enviado sob a sua proteção alguns dos seus seminaristas. Bergoglio visitou La Rioja pela primeira vez no dia 13 de junho de 1973, junto com outros consultores da Companhia de Jesus para um retiro espiritual, durante o qual ocorreu um ataque por um grupo autodenominado "Cruzados de la Fe", organizado por proprietários de terras.

Ele voltou para lá dois meses depois, no dia 14 de agosto de 1973, como provincial dos jesuítas, acompanhando a visita do geral da Companhia de Jesus, Pe. Arrupe, preocupado com as agressões naquela diocese contra religiosos e leigos. No dia 4 de agosto de 2006, por ocasião do 30º aniversário da morte de Angelelli, como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio celebrou em La Rioja uma participada celebração eucarística.

Na homilia, ele lembrou os "inesquecíveis dias passados em La Rioja". Falou do profundo laço de amor que unia o bispo ao seu povo, citando a Lumen gentium, e referiu-se a Angelelli como "um pastor apaixonado pelo seu povo, que o acompanhava no caminho, até nas periferias, geográficas e existenciais".

"Nós vimos", disse, "o diálogo de um laicado vivo, forte com o seu pastor." Lembrou um encontro durante a visita do Pe. Arrupe com todos os agentes de pastoral que contaram a sua situação, durante o qua "uma mulher riojana, que levava adiante as coisas de Deus com verdadeira coragem, perguntou: 'Diga-nos, padre, aquilo que o senhor ouviu aqui é o Concílio Vaticano ou não?'. E o Pe. Arrupe respondeu: 'Isso é o que quer a Igreja do Vaticano II'".

"Foram dias em que recebemos a sabedoria de um pastor que dialogava com o seu povo" e "vimos o escárnio que esse povo e esse pastor recebiam, simplesmente por seguirem o Evangelho... homens e mulheres livres de compromissos, ambições, ideologias, para os quais o Evangelho era o comentário da própria vida. Encontrei-me com uma Igreja perseguida, inteiramente, povo e pastor", disse.

Ele comparou os sofrimentos sofridos pelo bispo e pelo "santo povo fiel de Deus" com os sofridos por São Paulo em Filipos, "por meio dos experimentados métodos da desinformação, da difamação, da calúnia". Ele afirmou que o bispo "foi testemunha da fé, derramando o seu sangue", citando a frase dos primeiros cristãos: "Sangue dos mártires, sementes de cristãos" e acrescentando: "Se alguém festejou a sua morte acreditando que fosse um triunfo, essa foi a derrota dos seus adversários".

Embora não explicitamente mencionado, o exemplo do bispo de La Rioja é levado em conta na Evangelii gaudium. "Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo", escreve o Papa Francisco no número 154, evocando o ditado próprio de Dom Angelelli: "Um ouvido no Evangelho e outro no povo".

A figura de Enrique Angelelli certamente é uma das mais interessantes para compreender profundamente o que significa uma "Igreja em saída" à luz do Vaticano II. E a sua figura emblemática de bispo em escuta amorosa e em serviço total do povo de Deus, que sempre tenta ser profundamente "pastor com o cheiro das ovelhas", é mais do que nunca atual para toda a Igreja.

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