Mesmo com alto custo de investimento e riscos ambientais, Brasil insiste na energia nuclear. Entrevista especial com Célio Bermann

O pesquisador aponta que enquanto países começam a descontinuidade de geração de energia nuclear, o atual governo aposta em Angra 3 e em usina nas margens do rio São Francisco

Complexo nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro | Foto: Ministério do Planejamento

Por: João Vitor Santos | 18 Setembro 2020

Antes de se começar a discutir energia nuclear, é preciso desconstruir o mito de que essa é uma energia limpa porque não gera gases que contribuem para o efeito estufa. “Não existe ‘energia limpa’. Toda energia é obtida através de processos físico-químicos de conversão que sempre resultam em degradação do ambiente, em maior ou menor escala, dependendo da fonte de energia. A única energia que pode ser considerada limpa é a energia que não é consumida, a energia evitada”, esclarece o professor Célio Bermann. Ele ainda adverte que “o problema é que a questão ambiental não deve se restringir apenas à emissão dos gases de efeito estufa e às mudanças climáticas dela decorrentes”, pois pensando dessa forma os riscos de toda a cadeia, desde a mineração até a produção de energia propriamente dita, são ignorados. “Riscos severos ilustrados pelos acidentes das usinas de Three Mile Island (1979), Chernobyl (1986), Fukushima (2011), apenas para citar os mais conhecidos, passam a ser negligenciados ‘porque a energia não emite gases de efeito estufa’”, completa.

 

No entanto, como observa na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Célio Bermann aponta que, apesar dos riscos, o Brasil avança em projetos de novas usinas, mesmo diante dos muitos problemas que existem nas atuais. “Problemas na usina de Angra 1 são frequentes. Ela iniciou a operação comercial em 1985 e nos seus primeiros anos era conhecida pela denominação de ‘usina-vagalume’ em função das suas dificuldades em manter condições satisfatórias para a geração de energia”, exemplifica. Bermann ainda destaca que o custo de produção da eletricidade via usina nuclear é comparativamente muito maior que por outras fontes de energia. “Também não sei dizer o porquê de mantê-las. Pelo contrário, proponho descomissionar já as duas usinas em operação. E abandonar definitivamente a retomada de Angra 3”, dispara.

 

Enquanto isso, o governo brasileiro não só segue o projeto de Angra 3, como também desengaveta planos para outras usinas. “A intenção de construir uma central nuclear nas margens do rio São Francisco já é antiga, e foi retomada na época em que o falecido ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, era ministro de Ciência e Tecnologia no primeiro governo Lula”, recorda. Projeto que, além dos riscos do manejo de material radioativo, pode ainda aumentar os conflitos por água na Bacia do São Francisco. “Em situações de escassez hídrica cada vez mais frequentes, a disputa pela água poderá alcançar dimensões trágicas para assegurar a demanda hídrica da central nuclear e, ao mesmo tempo, garantir o abastecimento humano e dessedentação animal e a irrigação das culturas na região do médio São Francisco”, aponta.

 

Célio Bermann (Foto: USP)

Célio Bermann é doutor em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Ainda possui mestrado em Engenharia de Produção, na área de Planejamento Urbano e Regional, pela Coordenação de Programas de Pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - COPPE/UFRJ, e graduação pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP. É professor associado no Instituto de Energia e Ambiente da USP. Entre suas publicações, destacamos “Crise ambiental e as energias renováveis” (Ciência e Cultura, v. 60, p. 20-29, 2008), “The Brazilian social fuel stamp program: Few strikes, many bloopers and stumbles” (Renewable & Sustainable Energy Reviews, v. 102, p. 121-128, 2019) e o livro As novas energias no Brasil: Dilemas da inclusão social e programas de Governo (Rio de Janeiro: Fase, 2007), em que é um dos organizadores.

 

Confira a entrevista.



IHU On-Line – Qual é a atual situação das usinas nucleares brasileiras?

Célio Bermann – É preciso primeiro destacar que as informações sobre a situação das usinas nucleares no Brasil (duas concluídas e uma com a construção paralisada) sempre estiveram restritas ao que a empresa Eletronuclear disponibiliza em seu sítio na web, no link ‘Imprensa e Mídias’, limitadas ao que é noticiado na imprensa, com eventuais respostas a matérias que a empresa julga desfavoráveis à energia nuclear.

Por seu turno, o link ‘Acesso à informação’, também disponibilizado, se limita a trazer informações institucionais, embora apresente vários links (Receitas e Despesas; Licitações e Contratos) que poderiam ter informações de interesse público. Trata-se de uma forma de a empresa Eletronuclear se apresentar como “transparente” apenas nos títulos de seu sítio, sem fornecer nenhuma informação sobre o que se diz disponibilizar.

Portanto, é extremamente difícil para um pesquisador como eu, ou para o público em geral, ter informações acerca da situação das usinas nucleares em nosso país. Tanto a respeito das usinas concluídas Angra 1 e Angra 2, como a paralisada Angra 3. A Eletronuclear, empresa de economia mista vinculada à Eletrobras, que constrói e opera as usinas, mantém em sigilo acidentes de diversas ordens, vazamentos, interrupções não previstas, suas causas e consequências, trazendo insegurança às populações que vivem nas proximidades das usinas.

 

 

Contextos de sigilo

Este contexto de sigilo e desinformação é corroborado por outra empresa do setor nuclear, a Indústrias Nucleares do Brasil - INB, sediada em Resende (RJ), que processa o enriquecimento do urânio extraído em Caetité (BA) e faz a montagem na unidade denominada FCN - Fábrica de Combustível Nuclear, do elemento combustível – conjunto de varetas e tubos onde o urânio enriquecido é introduzido na forma de pastilhas – para alimentar os reatores das usinas no processo de fissão nuclear para a produção de calor e, com isso, aquecer a água que sob pressão faz girar uma turbina acoplada a um gerador de eletricidade. Para completar esse quadro, a Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN é o órgão que ao mesmo tempo pesquisa, produz, regula e licencia as usinas e as atividades nucleares no país.

 

Abrindo a ‘caixa-preta’

Apesar dessa ‘caixa-preta” que caracteriza o contexto da energia nuclear no Brasil, e aí não vai nenhuma referência ao sentido racista de se associar algo negativo à cor preta, algumas informações vieram à tona recentemente.

Sabe-se, por exemplo, que Angra 1 sofreu um desligamento automático em fevereiro de 2020, horas depois de ser reconectada ao Sistema Interligado Nacional - SIN, devido a problemas no gerador elétrico. Os trabalhos de reparo exigiram a importação de peças da empresa americana Siemens, fabricante do gerador. Problema semelhante já havia ocorrido em setembro de 2017, quando foi identificado um vazamento no gerador principal. Mais recentemente, no dia 10 de julho, a usina desligou automaticamente devido à falha em uma bomba de água do circuito secundário (não nuclear) da usina. E no dia 03 de agosto, foi preciso desligar a usina para reparar uma bomba do sistema de água que alimenta o gerador de vapor.

Muito embora nenhuma dessas ocorrências resultaram em exposição de radiação no meio ambiente, problemas na usina de Angra 1 são frequentes. Ela iniciou a operação comercial em 1985 e nos seus primeiros anos era conhecida pela denominação de “usina-vagalume” em função das suas dificuldades em manter condições satisfatórias para a geração de energia.

 

 

Problemas que o Brasil enfrenta em usinas nucleares

Entretanto, o episódio mais recente envolvendo a usina de Angra 2 demonstra de forma mais evidente os problemas que as usinas nucleares enfrentam no Brasil. Conforme noticiado pelo blog da jornalista Tania Malheiros, que há anos acompanha as atividades nucleares no país, Angra 2 foi desligada no dia 22 de junho de 2020 para troca de um terço dos elementos combustíveis. Porém, durante a inspeção no combustível nuclear, foi identificada uma oxidação nos elementos combustíveis, mais especificamente no “revestimento dos tubos que contêm as pastilhas de urânio”.

Para viabilizar o retorno da unidade à operação no menor tempo possível, a Eletronuclear decidiu trocar todos os 52 elementos combustíveis que apresentaram oxidação acima do normal. A substituição foi feita por 24 elementos novos, que já estavam prontos para uso em Angra 3, cujas obras estão paralisadas, mais 28 usados, que estavam armazenados na piscina de combustível de Angra 2. Nestas condições, a usina foi reconectada ao sistema elétrico em 17 de agosto, sendo aprovado pela CNEN o Relatório do Projeto Nuclear e Termo-hidráulico - RPNT, permitindo o retorno da unidade à operação e autorizando o seu funcionamento por um ciclo aproximado de nove meses.

É preciso ressaltar que tal problema da oxidação já tinha sido identificado na Alemanha em 2017, em função de erro de fabricação da liga zircônio-nióbio. Ao que tudo indica, a INB adquiriu, aparentemente sem ter conhecimento, estes mesmos tubos defeituosos.

Área em que se projeto a Usina de Angra 3 (Foto: Ministério do Planejamento)

Na usina de Angra 2, os tubos de ligas de zircônio (zircaloy) que contêm as pastilhas de urânio enriquecido sofreram um processo de oxidação que criou uma espécie de escamas (resíduos radioativos) que passaram a circular na água do circuito primário. Essa água a altíssima temperatura e altíssima pressão estava chegando no gerador de vapor do circuito secundário. O risco presente é que a corrosão do gerador de vapor pelos resíduos radioativos contidos nas escamas pode contaminar a água que vai para as turbinas, geradores e depois o ambiente externo da usina.

 

 

Minhas dúvidas, que imagino devam ser também do público leitor do IHU:

1) Ninguém na Eletronuclear teve conhecimento do que já tinha ocorrido em 2017 numa usina nuclear na Alemanha, similar à Angra 2?

2) A reutilização de 28 elementos que estavam na piscina foi feita em quais condições, no que se refere ao descarte ou reaproveitamento do urânio “queimado” e à exposição à radiação dos funcionários da usina envolvidos nos procedimentos de reutilização?

3) Os 24 elementos novos que seriam utilizados em Angra 3 e que foram utilizados na substituição, já estavam carregados com as pastilhas de urânio? Em caso afirmativo, em quais condições eles estavam sendo mantidos?

4) Com base em quais fundamentos foi definido pela CNEN o prazo de nove meses para a operação da usina nessas “novas” condições?

São essas as perguntas que precisam ser respondidas!

 

IHU On-Line – Quanto custa, financeiramente, para o Brasil manter essas usinas? Por que mantê-las?

Célio Bermann – Não sei avaliar quanto custa para o país manter as usinas nucleares. O que sei é que o custo de produção da eletricidade pela energia nuclear é comparativamente muito maior que por outras fontes de energia. Também não sei dizer o porquê de mantê-las. Pelo contrário, proponho descomissionar já as duas usinas em operação. E abandonar definitivamente a retomada de Angra 3.

 

 

IHU On-Line – Dentro desses projetos da Eletronuclear, está a construção de uma central nuclear no rio São Francisco. Em que consiste esse projeto e quais os seus riscos?

Célio Bermann – A intenção de construir uma central nuclear nas margens do rio São Francisco já é antiga, e foi retomada na época em que o falecido ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, era ministro de Ciência e Tecnologia no primeiro governo Lula. Em 2010, quando Eduardo Campos estava no seu primeiro mandato como governador de Pernambuco, a Eletronuclear anunciou que a localidade para a construção da central nuclear estaria definida: Itacuruba, um pequeno município no Semiárido nordestino, com cerca de 4.800 habitantes (IBGE/2015).

Cartografia social elaborada pelos povos tradicionais de Itacuruba (Mapa: Projeto Nova Cartografia Social em Pernambuco/Divulgação)

A notícia provocou uma reação muito grande na população daquela região, que já tinha sofrido um processo de expulsão de suas terras para dar lugar à formação do reservatório da usina hidrelétrica de Itaparica, inaugurada em 1988. Esse processo, que na terminologia técnica recebe o nome de “deslocamento compulsório”, está na memória recente desta população ribeirinha constituída por etnias indígenas (Pankará; Tuxá; Pajeú) e quilombolas, que juntamente com o restante da população sofreram com o descaso e desconsideração de seus direitos, o que é comum nas empresas proponentes de projetos de energia, seja ela da fonte que for.

Sob o ponto de vista político, a intenção da construção de uma central nuclear em terras pernambucanas esbarra no artigo 216 da Constituição do Estado de Pernambuco que proíbe “a instalação de usinas nucleares no território do Estado de Pernambuco enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia hidrelétrica e oriunda de outras fontes”. O deputado Alberto Feitosa (PSC) entrou em setembro de 2019 com uma proposta de emenda constitucional (PEC 09/2019) para alterar o texto do artigo 216, tornando possível a instalação de usinas nucleares naquele estado. É evidente que a intenção de alterar a lei vem junto com toda a conhecida retórica do “progresso”, do “desenvolvimento”, da “criação de empregos”, que busca sensibilizar a população local.

 

O projeto

Mas, em que consiste esse projeto? Trata-se de uma central com seis reatores, cada um com potência de 1.100 MW (megawatts), perfazendo 6.600 MW, ou metade da Usina Hidrelétrica de Belo Monte em capacidade instalada, não em energia gerada.

No parco material de informação sobre o projeto que a Eletronuclear disponibiliza, é mencionado o reator AP1000 da empresa americana Westinghouse. A tecnologia utilizada neste modelo de reator à água pressurizada é apresentada como sendo de 3ª geração (as usinas de Angra são de 2ª geração), que tem como principal característica um sistema passivo de resfriamento através de um tanque de água situado acima do reator. Quando esse sistema é ativado, a água flui por gravidade para o topo do reator, onde se evapora para remover o calor.

É interessante observar que a concepção desse reator, com um sistema de resfriamento que independe do bombeamento de água, foi desenvolvida pelos técnicos da Westinghouse em 2005, bem antes do acidente nuclear da usina de Fukushima no Japão, que ocorreu em 2011. Esse acidente teve como principal causa as dificuldades de resfriamento dos seus reatores com a interrupção do fornecimento de energia para o acionamento das bombas, que foram danificadas pelo tsunami que atingiu as instalações da usina. Ou seja, a necessidade de resfriamento do reator nuclear já era uma preocupação da indústria nuclear internacional antes de Fukushima.

Dessa forma, a Eletronuclear procura apresentar a central nuclear de Itacuruba como “segura”. Mas o maior problema é que o resfriamento dos seis reatores exige uma quantidade de água muito grande. Eu fiz os cálculos da demanda hídrica do projeto da central nuclear projetada para o médio São Francisco, baseado nos dados disponíveis no site da Westinghouse para um reator AP1000 . O sistema de refrigeração irá exigir o equivalente à metade da vazão mínima registrada em novembro de 2017 na região do médio São Francisco (581 m3/s). Esse volume de água deverá estar disponível o tempo todo, considerando que a central irá operar com um fator de capacidade de 90% (ou cerca de 328 dias do ano).

É certo que 70 a 85% desse enorme volume de água será devolvido ao São Francisco, dependendo do tipo de torre de resfriamento utilizada – úmida ou seca. Mas em situações de escassez hídrica cada vez mais frequentes, a disputa pela água poderá alcançar dimensões trágicas para assegurar a demanda hídrica da central nuclear e, ao mesmo tempo, garantir o abastecimento humano e dessedentação animal e a irrigação das culturas na região do médio São Francisco. Isso sem contar que a água devolvida deverá atingir 33ºC, o que comprometerá os ecossistemas das margens do São Francisco.

 

 

Necessidade de frear o projeto

Em função desses aspectos, penso que a resistência ao projeto da central nuclear em Itacuruba não se limita à população local. As consequências da sua instalação abrangem toda a população que vive no rio São Francisco. Por isso, acredito ser de fundamental importância que o Comitê da Bacia do Rio São Francisco se articule na defesa do rio e seus membros manifestem com vigor seu desacordo ao projeto da central nuclear nas margens do São Francisco.

E veja que não falamos ainda dos riscos da radiação num eventual acidente, cuja ocorrência nunca deve ser descartada, apesar das sempre presentes alegações de segurança. Por fim, a destinação final dos rejeitos radioativos de alta intensidade continua sendo o principal problema das usinas nucleares, não só no Brasil mas no mundo inteiro.

 



IHU On-Line – Como analisa o atual contexto da energia nuclear no mundo? E como está o Brasil nesse contexto?

Célio Bermann – Conforme informações consolidadas para dezembro de 2018 da Agência Internacional de Energia Atômica, 450 reatores estavam em operação e 55 em construção. Vale observar que em 2000 o número de reatores era de 435, ou seja, nos últimos 15 anos apenas 15 reatores foram instalados para operação. Quantos aos 55 reatores considerados “em construção” ao menos 2/3 deles estão nessa situação há mais de 20 anos. Os países que estão mais envolvidos na construção de novas usinas nucleares são China (11), Índia (7), Rússia (6), Coreia do Sul (5) e Emirados Árabes (4).

Muitos países têm desligado seus reatores por diversos fatores, mas se tomarmos o acidente da usina de Fukushima no Japão em 2011 como referência, após o acidente o Japão desligou 16, a Alemanha 10 e os Estados Unidos 7 reatores nucleares. Por outro lado, tomando como referência o reator modelo AP1000 da Westinghouse, já citado anteriormente como o modelo de reator da pretendida central nuclear de Itacuruba, é importante assinalar que o primeiro AP1000 iniciou suas operações somente em julho de 2018, na Sanmen Nuclear Power Station, na China. Um segundo reator iniciou operação em agosto de 2018, estando previstos ainda mais dois reatores nesta usina.

Por seu turno, dois reatores AP1000 estão sendo construídos nos Estados Unidos na central nuclear de Vögtle (unidades 3 e 4). A construção foi iniciada em março de 2013 (unidade 3) e novembro de 2013 (unidade 4) a um custo inicial de 6,1 bilhões de dólares, e previsão de entrada em operação em 2016 e 2017, respectivamente.

Com o pedido de falência da empresa Westinghouse em março de 2017, as obras foram interrompidas e retomadas depois da intervenção do governo americano para salvar a empresa. A previsão para a entrada em operação da unidade 3 era para novembro de 2021, e para novembro de 2022 da unidade 4, previsão definida antes da pandemia. O custo se elevou para 10,4 bilhões de dólares.

Se considerarmos o anúncio da Eletronuclear de um investimento total de R$ 42 bilhões para a central nuclear com seis reatores, a verdade é que cada reator exigirá 5,2 bilhões de dólares de investimento, ou seja, o custo da pretendida central nuclear de Itacuruba não será menor que R$ 166 bilhões.

 

 

IHU On-Line – Entre os defensores da energia nuclear está o argumento de que se trata de energia limpa, sem emissão de gases de efeito estufa. Podemos realmente considerar a nuclear uma energia limpa? Por quê?

Célio Bermann – Em primeiro lugar não existe “energia limpa”. Toda energia é obtida através de processos físico-químicos de conversão que sempre resultam em degradação do ambiente, em maior ou menor escala, dependendo da fonte de energia. A única energia que pode ser considerada limpa é a energia que não é consumida, a energia evitada.

O problema é que a questão ambiental não deve se restringir apenas à emissão dos gases de efeito estufa e às mudanças climáticas dela decorrentes. Essa visão equivocada levou cientistas como o inglês James Lovelock, formulador da Teoria de Gaia, a defenderem a energia nuclear como a única fonte capaz de garantir a expansão da oferta de eletricidade por não emitir dióxido de carbono, contribuindo dessa forma para a desejável descarbonização.

Ao pensar desta forma restrita, os riscos que envolvem o ciclo nuclear desde a mineração até a produção de energia são desconsiderados. Riscos severos ilustrados pelos acidentes das usinas de Three Mile Island (1979), Chernobyl (1986), Fukushima (2011), apenas para citar os mais conhecidos, passam a ser negligenciados “porque a energia não emite gases de efeito estufa”. Esta é uma falácia que precisa ser combatida, para o bem da ciência e da humanidade!

 

IHU On-Line – Ainda no primeiro ano de gestão, o governo Bolsonaro informou que a mineração de urânio, depois de cinco anos parada, seria retomada em 2020. Como está essa questão? Como é feita essa mineração e quais os desafios para se compreender as questões de fundo e jogos de interesses nesse tipo de atividade?

Célio Bermann – O Brasil teve o primeiro local de exploração de urânio em Caldas (MG), cuja mina se encontra atualmente esgotada embora a exploração do minério tenha deixado uma barragem com rejeitos que coloca em risco a região em caso de rompimento. Vários casos de câncer nos trabalhadores da mina foram notificados pelos serviços de saúde local, muito embora a relação causa-efeito com a exposição a material radioativo nunca tenha sido estabelecida.

Eletrobrtas Termonuclear - Eletronuclear (A Energia nuclear: história, princípios de funcionamento. Rio de Janeiro. 2001. Disponível aqui)

 

A partir do ano 2000, o local de exploração de urânio no país passou aos municípios de Lagoa Real e Caetité (BA), onde a Indústrias Nucleares do Brasil explorou o minério até 2014. Aqui também não faltaram problemas graves ligados à mineração do material radioativo, com casos de câncer na população local provocados pelo contato com a radiação e danos ao ambiente. Entre 2000 e 2009, houve pelo menos cinco acidentes que contaminaram parte dos rios e solo da região, de acordo com um relatório da Secretaria de Saúde da Bahia.

 

Localização de Caetité na Bahia (Foto: Wikipédia)

 

Em outubro de 2019, a CNEN emitiu licença autorizando operações na mina do Engenho, que é parte da usina de beneficiamento nuclear da INB em Caetité. Com isso, a exploração do urânio na região foi retomada.

 

De olho nas reservas brasileiras

O que parece explicar essa obsessão pela exploração do urânio é o fato de o Brasil possuir reservas estimadas em 309.200 toneladas, o que situa o país como a sexta maior reserva de urânio do mundo. Num país em que a exploração de bens primários de baixo valor agregado voltado para a exportação passou a ser a forma como o Brasil se insere na economia internacional, o que não é apenas a marca do atual (des)governo, mas a continuação do perfil econômico de governos anteriores, a mineração de urânio volta-se para a expectativa de um suposto crescimento da demanda alimentado por novas centrais nucleares cujos números que indiquei anteriormente estão longe de se confirmar. Talvez a intenção seja a de oferecer um minério que deverá ser posteriormente enriquecido para ser utilizado como combustível nas usinas nucleares a um preço “competitivo” por não incorporar os investimentos necessários na segurança de seus trabalhadores e das regiões onde se explora o minério.

O Brasil ainda tem outra região para exploração do urânioSanta Quitéria no interior do Ceará, onde o minério na mina de Itataia é encontrado associado ao fosfato, matéria-prima para a fabricação de fertilizante. A prospecção foi iniciada ainda nos anos 1980 e o projeto permaneceu parado por problemas de viabilidade econômica e com dificuldades para a obtenção do licenciamento ambiental. Ao que tudo indica, se a “boiada passar”, a exploração do urânio em Santa Quitéria poderá ser iniciada a partir de 2025.

 

 

IHU On-Line – Como avalia as políticas do atual governo no que diz respeito à energia nuclear?

Célio Bermann – O Ministério de Minas e Energia está sendo conduzido pelo almirante Bento Albuquerque, que antes exercia o cargo de diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, envolvido diretamente com o projeto do submarino nuclear brasileiro. Portanto, o programa nuclear encontra na sua pessoa todas as condições necessárias para prosseguir. É só examinar a primeira versão do Plano Nacional de Energia 2050 que indica a intenção de aumentar a capacidade instalada de usinas nucleares no Brasil em 10.000 MW nos próximos 30 anos.

Além de Itacuruba, o plano de expansão nuclear também identifica como locais para a construção de usinas nucleares a região do baixo São Francisco, entre a Usina Hidrelétrica de Xingó até a foz do rio São Francisco, além de mencionar de uma forma mais geral os estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Por sua vez, a conclusão de Angra 3 foi contemplada pela recente Medida Provisória nº. 998, que no seu artigo 9º possibilita que sua conclusão possa ser alcançada por agentes privados, através de uma autorização da exploração da usina por meio de outorga a ser dada pelo Conselho Nacional de Política Energética - CNPE.

O futuro controlador da usina de Angra 3 poderá operar a geradora por 50 anos, prorrogáveis por até mais 20 anos, e deverá apresentar um cronograma de entrada em operação do projeto. Após a contratação, o operador privado da usina nuclear de Angra deverá manter o suprimento de energia pelo mínimo de 40 anos.

 

 

Paralisação de obra e indícios de corrupção

As obras de Angra 3 estão paralisadas pelo Ministério Público do Paraná desde 2015, quando atos de corrupção foram revelados pela operação Lava Jato, envolvendo executivos da Eletronuclear e as empresas executoras das obras. Conforme o que tem sido divulgado pela imprensa, a obra iniciada em 1984 já custou em torno de R$ 11 bilhões e a Eletronuclear gasta cerca de R$ 10 milhões por mês com a manutenção do canteiro de obras e dos equipamentos já adquiridos.

O investimento previsto para a conclusão da obra era de R$ 18,7 bilhões, conforme relatório de fiscalização (TC n. 016.991/2015-0) elaborado pelo Tribunal de Contas da União - TCU em fevereiro de 2016. Entretanto, atualmente é apontado um custo que pode alcançar mais R$ 25 bilhões. Ao mesmo tempo, em recente estudo publicado pelo Instituto EscolhasAngra 3: vale quanto custa?” (Abril/2020) é indicado que os gastos que seriam necessários para abandonar a obra de Angra 3 são da ordem de R$ 11,92 bilhões. Para mim, a resposta é simples: gastaria a metade para abandonar a obra.

A pergunta que fica é esta: existirá um investidor privado disposto a correr o risco de retomar as obras? Ou será o combalido Tesouro Nacional que irá finalizar aquilo que nunca deveria ter sido iniciado?

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Celio Bermann – Apenas deixar este recado para o leitor do IHU:

Aproveite para assinar o abaixo-assinado contra a PEC que mudaria a Constituição de Pernambuco para autorizar a construção de usinas nucleares no Estado. Leia o texto da petição, assine e divulgue ao máximo! Acesse a petição aqui.

 

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