Sem reformas, não somos mais Igreja. Entrevista com Martin Werlen

Foto: Vatican Media

27 Outubro 2020

Martin Werlen, ex-abade da abadia beneditina de Einsiedeln, acaba de publicar um novo livro, com a editora Herder, intitulado Raus aus dem Schneckenhaus! Nur wer draußen ist, kann drinnen sein – “Fora da casca. Só quem está fora pode estar dentro” – onde convida a Igreja a ser criativa e aberta e critica dos círculos farisaicos de hoje que têm medo do novo. De fato, escreveu na capa: "um livro para ser saboreado com cautela pelos fariseus". A entrevista foi realizada para Katholisch.de por Matthias Altmann (12 de outubro de 2020).

 

A entrevista é de Matthias Altmann, reproduzida por Settimana News, 22-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Raus aus dem Schneckenhaus! Nur wer draußen ist, kann drinnen sein

 

Eis a entrevista.

 

Padre Martin, bem no meio da pandemia do coronavírus, o senhor está convidando a Igreja a sair de sua "casca". Como vê a Igreja nesta crise?

Na crise do coronavírus, as diferentes imagens da Igreja puderam ser vistas claramente: passamos da afirmação “A vida da Igreja está sucumbindo” a uma criatividade muito grande. Uma experiência central de fé me acompanha e me provoca continuamente: Deus não está onde gostaríamos que ele estivesse, mas onde nós estamos. A Igreja deve enfrentar esta realidade e buscar a Deus nesta situação, nesta crise. Também se viu que a Igreja deve ser profundamente criativa porque Deus é criativo. Se queremos testemunhar a esse Deus vivo, não pode fazer nada além de ser criativa. Quando se fala de uma Igreja que "sucumbe" diante dessa situação, é uma imagem que nada tem de católica.

Em que sentido?

Desse ponto de vista, trata-se apenas de manter uma instituição em funcionamento. Mas a Igreja é testemunho da presença de Deus – em todos os tempos. Não se pode dizer que, quando a pandemia do coronavírus acabar, poderemos ser Igreja novamente. Mas nesta crise posso estar perto das pessoas no que elas precisam? Esta é a Igreja. Oscar Romero dizia que onde a Igreja está com as pessoas, com as suas alegrias e as suas dores, ali Cristo está presente. Devemos ter a coragem de dar esse passo. Enquanto a Igreja tinha o poder forte de indicar como as coisas deveriam ser e de recortar para si seu próprio espaço, não era necessário relembrá-lo. Muitos aspectos do evangelho não eram mais percebidos ou eram percebidos apenas vagamente. Mas hoje isso não é mais possível. Para citar Romero novamente: as pessoas se distanciaram da Igreja porque a Igreja se distanciou das pessoas.

No seu livro, o senhor propõe, por exemplo, olhar de forma diferente para as pessoas que saem, que abandonam a Igreja e defende que a Igreja não deveria se fixar demasiado nos números ...

Precisamente daqueles que partiram podemos aprender: como eles sentem a Igreja, o que aprendem dela? Se as pessoas não sentem mais o que a Igreja é, elas podem deixá-la sem que lhes falte algo. Se a Igreja é percebida apenas como uma instituição que diz que isso e aquilo não pode ser feito, que razão ainda têm para pertencer a ela? Mas a Igreja é uma vida profundamente compartilhada. Aquilo que a constituição pastoral Gaudium et spes afirma no início – partilhar ansiedades, alegrias, esperanças e dores (tudo isto é Igreja) – muitas pessoas dentro e fora não o sentem.

Como a Igreja pode compensar essa perda de autoridade de que o senhor fala?

Acima de tudo, os mais altos na hierarquia eclesiástica não devem se isolar em seu status, mas estar com as pessoas e realmente permanecer lá. A questão, portanto, é esta: existe autoridade na Igreja porque um status prevalece sobre os outros? Ou a autoridade cristã existe precisamente porque se está no meio das pessoas? Na abertura do Sínodo sobre a Amazônia, fiquei muito impressionado com o fato de o Papa Francisco ter caminhado entre os outros na procissão da Basílica de São Pedro para a sala sinodal. Isso vai direto ao coração e logo se percebe que esta é a Igreja: testemunhar um Deus que não fala lá de cima, mas que se faz homem.

O senhor escreve que seu livro é difícil de digerir para os fariseus. Quem entende na prática?

É claro que não se trata do grupo de 2.000 anos atrás, mas da tentação de todo crente de ser repentinamente bloqueado colocando a lei em primeiro lugar, em vez da pessoa em necessidade. Em se sentir melhor do que aqueles ao seu redor, em olhar os outros com desprezo, em insistir na observância das regras. Se olharmos para os fariseus no Novo Testamento, podemos entender melhor a situação atual da Igreja.

Percebe nesse sentido a Igreja oficial como farisaica?

Não pode ser dito de forma global. Na verdade, os mais altos na hierarquia são tentados a sê-lo como qualquer outra pessoa batizada. No entanto, vejo – e também constatei isso como membro da Conferência episcopal suíça – que os círculos farisaicos são muito dominantes na Igreja. Alguns bispos, embora percebam que a reforma é realmente urgente, não têm coragem de prosseguir porque têm medo das reações ou são bloqueados por pessoas para as quais tudo deve permanecer como estava.

Na Alemanha, isso pode ser visto muito claramente no caminho sinodal, onde se vê emergir o medo. E o medo é típico dos fariseus. Quando olhamos para os fariseus no evangelho, vemos que eles temem que a seja perdida se as normas não forem observadas. Tal atitude também reina na Igreja. Escrevo no livro: “Quem sofre um ataque cardíaco ao ouvir a palavra 'reforma' deveria se perguntar se muita gente não vai embora por isso mesmo, para não ficar doente do coração”. Se excluirmos as reformas, não somos mais Igreja.

Por quê?

Porque ser Igreja significa estar em caminho. O conceito usado nos Atos dos Apóstolos para dizer Igreja descreve-o perfeitamente: "caminho".

O senhor também enfatiza que o confronto com os fariseus no Novo Testamento pode ajudar a Igreja a encontrar uma saída para vários becos sem saída, por exemplo, a estagnação da reforma. O que quer dizer?

Se no Evangelho levarmos a sério as passagens a respeito dos fariseus, imediatamente percebemos como isso nos é familiar. Sempre percebi como essas disputas são atuais. Por exemplo, a pergunta: quem é meu próximo? Jesus a inverte: de quem posso ser o próximo? Da pessoa que está necessitada. Obviamente, isso não é uma questão de religião ou nacionalidade. Quantas vezes os fariseus propuseram seus dubia para armar uma armadilha para Jesus! Eles o acusaram de infringir a lei. E, quando alguém pede reforma hoje, alguns círculos se apressam em dizer: isso não é mais católico. Ou: isso é uma heresia. Essa é exatamente a situação em que Jesus se encontrava. Mas ele não desistiu. Ele nem mesmo tentou se justificar. Ele agiu. E justamente agora, na crise do coronavírus, fica claro que se não tivermos coragem de arriscar alguma coisa, é evidente que isso é o fim da instituição. Essa liberdade, esse risco da fé, é o que Deus nos pede hoje.

O que é a verdadeira catolicidade para o senhor?

É importante para mim nunca usar a palavra "catolicidade" de forma limitativa. Isso é exatamente o oposto de seu verdadeiro significado: amplitude. Essa amplitude do amor de Deus deve se tornar visível na catolicidade. Se um cardeal, com medo de que as reformas movam algo, diz que a Igreja deve permanecer católica, só posso balançar a cabeça. Eu diria que a Igreja deve se tornar mais católica. Torne-se mais católica? Esta é a pergunta que importa. Para mim esta é uma ideia grandiosa que nós, como os outros, transformamos em seu contrário. É claro: a Igreja – e não me refiro aqui a uma confissão – é católica, mas esse é um conceito aberto para o alto. Não posso dizer, agora sou católico e pronto. Ser católico é um caminho para entrar nessa amplitude de Deus ou, como diz São Bento: à medida que se progride na fé, o coração se dilata. Isso é catolicidade: ter um grande coração.

Como a Igreja pode tornar essa amplitude mais tangível?

Vivendo o que escuta na Palavra de Deus e o que professa nas orações. Não temos que inventar algo novo, mas sim viver nossa fé no hoje. Se realmente estamos no seguimento de Jesus e deixamos sua palavra e exemplo entrem em nossos corações, então só podemos nos tornar católicos, isto é, pessoas com um grande coração.

Qual a ideia de Igreja que o senhor deseja?

Se eu der uma resposta curta, explica muito pouco. Vamos tentar com uma imagem. Eu cresci nas montanhas, e St. Gerold, no grande vale Wals, onde agora trabalho como reitor, também fica nas montanhas. Esses lugares dão uma sensação de segurança, convidam a olhar para o alto. É assim que imagino a Igreja: segurança em uma comunidade onde caminhamos juntos com os olhos voltados para o alto. Os conceitos centrais da vida de fé são abertos para o alto: fé, esperança, amor, catolicidade. No momento em que entendermos isso, não estaremos mais fechados dentro de limites, mas também tornaremos essa abertura tangível. Gostaria que as pessoas se movessem para essa abertura, para descobrir o que significa a , que grande dom ela representa. Não devemos ter medo dela, mas podemos simplesmente vivê-la, nos dias bons e naqueles difíceis.

 

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