Karl Rahner sobre o que significa amar Jesus

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29 Outubro 2020

"O cristão do futuro será aquele que tiver um encontro transformador com o Jesus Cristo vivo. Como escreveu o Papa Bento XVI em sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: 'Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo'.", escreve Robert P. Imbelli, padre da Arquidiocese de Nova York, professor de teologia por muitos anos na Boston College e autor do livro Rekindling the Christic Imagination, em artigo publicado por America, 09-10-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O padre jesuíta Karl Rahner é, indubitavelmente, um dos teólogos católicos mais destacados e influentes do século XX. O seu longo ministério teológico cobre cerca de cinquenta anos, desde o começo da década de 1930 até sua morte, em 1984.

Um dos escritos seus que sempre me causou fascínio é o ensaio intitulado “Christian Living Formerly and Today” (Vida cristã, ontem e hoje). Esse ensaio apareceu no final do Concílio Vaticano II. Ele contém a frase profética e muitas vezes citada: “O cristão devoto do futuro ou será um ‘místico’ – alguém que ‘vivenciou algo’ – ou não será absolutamente nada”.

Esse ensaio se mostra profético porque, nos 55 anos desde que foi publicado, vemos um declínio catastrófico nos países ocidentais em se tratando de católicos ativos e comprometidos. Designar-se “sem religião” (pelo menos do ponto de vista religioso) pode, na verdade, equivaler a um “não ser absolutamente nada”.

A razões para este declínio são, evidentemente, muitas. São razões eclesiais (em primeiro lugar, os escândalos de abuso sexual) e culturais (a revolução sexual, o predomínio de uma mentalidade consumista e mais). Mas, guiados por Rahner, podemos nos perguntar: será que esse declínio indica também um déficit de “vivência”? De forma mais provocativa ainda: este declínio resulta do fracasso de não termos nos tornado, na realidade, “místicos”, não experimentando uma fé em certa profundidade e intensidade?

Em todo caso, o citado ensaio conta também com algumas perplexidades.

Por exemplo, sempre me perguntei por que Rahner diz “vivenciar algo”, ao invés de dizer “vivenciar Alguém”. Pois, no centro da fé e da vida cristã, antes e hoje, está Jesus Cristo. Como confessa a Carta aos Hebreus: Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente – uma profissão de fé notoriamente ecoada em Gaudium et Spes, documento do Concílio Vaticano II. No cerne da vocação apostólica de São Paulo reside a sua vivência de fé no Senhor Jesus “que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2,20). E, na Carta aos Efésios, reza S. Paulo com fervor para que todos os santos venham a “conhecer o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento” (Efésios 3,19).

Assim, feliz me senti quando um outro ensaio de Rahner apareceu alguns anos mais tarde. Em 1982, dois anos antes de morrer, ele escreveu um artigo intitulado “What Does It Mean to Love Jesus?” (O que significa amar Jesus?) Embora denso, na forma típica rahneriana, seu texto foca explicitamente na relação do cristão com o salvador. Rahner insiste: “Pode-se amar Jesus, amá-lo em si mesmo, com um amor verdadeiro, autêntico e imediato”. E o teólogo inclui estas palavras marcantes (proferidas, segundo ele, para a surpresa de um colega um tanto “racionalista”): “Só lidamos com Jesus realmente quando, na verdade, lançamos os nossos braços ao seu redor e percebemos, do fundo do nosso ser, que é algo que podemos ainda hoje fazer”.

Portanto, o cristão do futuro será aquele que tiver um encontro transformador com o Jesus Cristo vivo. Como escreveu o Papa Bento XVI em sua primeira encíclica, Deus Caritas Est: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

E este encontro faz surgir uma nova relação com Jesus que certamente admite um crescimento e um aprofundamento infinitos, e que agora está marcado também por um conhecimento e um amor estreito: vinculantes em Jesus, como ele próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.

Realmente, como esta relação, o dito vínculo amadurece, assume, cada vez mais, a forma de uma atenção sincera e um acolhida efetiva daquele a quem se ama. É um “lançar os nossos braços” ao Senhor da vida, como declara Rahner, com ousadia, para a consternação evidente de seu colega.

Certamente, aqui Rahner não tem em mente um abraço físico. Não obstante, o abraço de Jesus é singularmente “tangível”, envolvendo toda uma gama daquilo que a tradição mística chama de “sentidos espirituais”. Recordemos a exultação de Agostinho no magnífico Livro 10 das Confissões. Aqui, o autor se esforça para dar voz à experiência de seu amor por Deus e admite que ele transcende e muito a doçura e a fragrância físicas, o brilho e a beleza. E, no entanto, afirma: “E, no entanto, amo uma certa luz, e uma certa voz, e um certo perfume, e um certo alimento, e um certo abraço, quando amo o meu Deus (…) onde brilha para a minha alma o que não ocupa lugar, e onde ressoa o que o tempo não rouba, e onde exala perfume o que o vento não dissipa, e onde dá sabor o que a sofreguidão não diminui, e onde se une o que a saciedade não separa”.

Observemos como Agostinho conta com a experiência sensorial física – visão, audição, paladar, tato – para apontar na direção da experiência (vivência) dos sentidos transformados para que se perceba a presença oculta porém real de Deus em Cristo. Dessa forma, Agostinho confirma (ou melhor “inspira”) a convicção de que, no momento presente da fé, podemos abraçar o Senhor da vida. Pois Agostinho confessa que só pôde ele encontrar o caminho para o verdadeiro Deus quando abraçou “o mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, que é, acima de todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos”, o qual, no entanto, se humilhou para incorporar e tornar-se alimento e bebida espiritual do fiel.

Assim chegamos a um ponto final digno de nota. Dois dos primeiros ensaios teológicos de Rahner, do começo da década de 1930, estudaram a noção dos “sentidos espirituais” presentes nos escritos de Orígenes, um dos pais da Igreja primitiva, e na tradição agostiniana medieval. Seria de imaginar, então, que Rahner se voltasse, no final da vida, a estas primeiras explorações suas a respeito dos sentidos espirituais e da tradição mística cristã. Fazendo isso, ele se voltava à sabedoria da frase conclusiva em “East Coker”, de T.S. Eliot: “Em meu fim está o meu começo”.

Em sua caminhada teológica, Rahner buscou ampliar o nosso apreço do místico, não como “extracurricular” para o caminho cristão, reservado aos poucos privilegiados, mas como intrínseco à vida cristã, ontem e hoje. Ele nos desafia a ampliarmos a nossa imaginação além dos exemplos dos místicos clássicos que exibem dons espirituais extraordinários.

O teólogo procurou “democratizar” a experiência mística, considerando-a como o pleno florescimento da vida cristã: uma vida de relações transformadas em Cristo, a anunciar a nova criação. Embora empregando palavras diferentes, tenho certeza de que Rahner celebraria as ideias de seu companheiro, o padre jesuíta Gerard Manley Hopkins. Sentidos purificados nos capacitam a perceber que “Cristo atua em dez mil lugares, faz-se Formoso em membros, e olhos de outros” (tradução de Alípio Correia de Franca Neto).

Nas e através das complexidades do “método transcendental” característico de Rahner, a sua estrela polar continuou sendo o amor de Jesus, quem sozinho realiza o nosso desejo humano de amor incondicional e comunhão. Comunhão não só com o Senhor, mas também com todos os membros de seu corpo. Pois amar Jesus é sempre inseparável do amor àqueles a quem Jesus ama.

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