Uma prévia da próxima encíclica do papa sobre a fraternidade humana

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05 Setembro 2020

Durante uma coletiva de imprensa nos últimos dias sobre a próxima celebração do 800º aniversário da Regra de São Francisco, um bispo italiano mencionou casualmente, de passagem, que o Papa Francisco “em breve publicará uma encíclica sobre a fraternidade humana”.

O comentário é de Robert Mickens, publicado em La Croix International, 04-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O bispo era Domenico Pompili. Ele lidera a Diocese de Rieti, uma sé sufragânea de Roma.

Ele não deu mais pistas ou informações sobre a suposta nova encíclica, quando fez aquele breve comentário no dia 26 de agosto.

Mas, a menos que ele tenha tido um lapso e estivesse realmente se referindo a algum outro tipo de documento papal, é provável que a publicação de uma encíclica que trate da fraternidade humana – mesmo que esse não seja o nome ou tema principal – seja iminente.

Pompili, de 57 anos, é considerado uma espécie de estrela em ascensão da Igreja italiana.

Francisco o nomeou para Rieti em 2015, quando o teólogo moral formado em Roma pela Universidade Gregoriana atuava como padre subsecretário da Conferência Episcopal Italiana e chefe do seu escritório nacional para as comunicações sociais.

O papa aparentemente mantém contato regular com ele, especialmente depois que um terremoto devastador atingiu Rieti em agosto de 2016. Francisco visitou a diocese várias semanas após o terremoto e voltou em dezembro passado. Ele e Pompili parecem ter uma boa relação.

Desde que o bispo divulgou a notícia sobre a próxima encíclica, houve muitas especulações na última semana sobre a data real da sua publicação e sobre o que ela provavelmente ela dizer.

Muitos comentaristas apostam na festa de Francisco de Assis, no dia 4 de outubro, santo cujo nome Jorge Mario Bergoglio adotou ao ser eleito bispo de Roma em março de 2013.

Independentemente de quando o papa assinará o texto ou realmente o divulgará ao público, a encíclica estará intimamente ligada ao espírito e ao legado do santo mais amado do mundo.

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça

“Será uma encíclica social e econômica para o mundo pós-Covid, um texto de razão e de coração com o qual o pontífice falará ao mundo sobre as mudanças necessárias na organização social e produtiva, as necessidades de salvaguardar a criação e de se responsabilizar uns pelos outros, sobre a cada vez mais necessária fraternidade humana”, opinou Maria Antonietta Calabrò na edição italiana do Huffington Post.

Na verdade, Francisco já começou a apontar para isso em uma nova série de catequeses intituladas “Curar o mundo”.

Ele começou a série no início de agosto, quando retomou suas Audiências gerais das quartas-feiras após uma pausa de um mês.

“Nas próximas semanas”, disse ele no dia 5 de agosto, “exploraremos juntos como a nossa tradição social católica pode ajudar a família humana a curar este mundo que sofre de graves doenças.”

No comentário introdutório, Francisco deixou claro que a Igreja não toma decisões que sejam mais pertinentes a líderes políticos e sociais.

“No entanto, ao longo dos séculos, e à luz do Evangelho, a Igreja desenvolveu alguns princípios sociais que são fundamentais, princípios que podem nos ajudar a seguir em frente, para preparar o futuro de que precisamos”, afirmou, referindo-se à doutrina social católica.

Devemos cuidar uns dos outros

Na quarta-feira seguinte, o tema da catequese foi “Fé e dignidade humana”. O papa começou observando que “a pandemia evidenciou como todos somos vulneráveis e estamos interconectados”.

“Se não cuidarmos uns dos outros, começando pelos últimos, por aqueles que são mais atingidos, incluindo a criação, não podemos curar o mundo”, insistiu.

Francisco disse que é uma questão de viver em comunhão ou “harmonia” uns com os outros, ao invés de viver como “individualistas” que são “indiferentes” às necessidades dos outros.

“A harmonia criada por Deus nos pede que olhemos para os outros, para as necessidades dos outros, para os problemas dos outros, em comunhão”, reconhecendo “em cada pessoa, seja qual foi a sua raça, língua ou condição, a dignidade humana”, continuou o papa.

“A pandemia expôs a difícil situação dos pobres e a grande desigualdade que reina no mundo”, começou ele uma semana depois na Audiência geral do dia 19 de agosto, que se concentrou na “opção preferencial pelos pobres”.

“Essa não é uma opção política, nem uma opção ideológica, uma opção partidária... não. A opção preferencial pelos pobres está no centro do Evangelho!”, exclamou o papa jesuíta.

A vacina não pode ser propriedade dos ricos

Depois, ele condenou o nosso atual sistema de injustiças sociais e econômicas que prejudicam os pobres e o ambiente.

“A pandemia é uma crise, e não saímos iguais de uma crise: ou saímos melhor ou saímos piores”, argumentou Francisco.

“Seria triste se, na vacina da Covid-19, se desse a prioridade aos mais ricos! Seria triste se essa vacina se tornasse propriedade desta ou daquela nação, e não fosse universal e para todos. E que escândalo seria se toda a ajuda econômica que estamos observando – a maior parte com dinheiro público – se concentrasse no resgate de indústrias que não contribuem para a inclusão dos excluídos, a promoção dos últimos, o bem comum ou o cuidado da criação”, enfatizou.

Ele reiterou com veemência que somente aquelas empresas e negócios “que contribuem para a inclusão dos excluídos, para a promoção dos últimos, para o bem comum e para o cuidado da criação” devem receber ajuda financeira. Ponto final.

Uma injustiça que clama ao céu

Nas últimas duas quartas-feiras, o papa falou mais especificamente sobre “a destinação universal dos bens” (incluindo uma distribuição mais justa da riqueza) e o princípio da “solidariedade”.

Ele vinculou a primeira questão à virtude da esperança, e a segunda, à virtude da fé.

Na Audiência do dia 26 de agosto, ele protestou contra a desigualdade econômica e social.

“Devemos dizer simplesmente: a economia está doente”, lamentou.

“No mundo de hoje, poucos riquíssimos possuem mais do que todo o resto da humanidade”, continuou.

“Vou repetir isso”, disse ele, “para que nos faça pensar: poucos riquíssimos, um grupinho, possuem mais do que todo o resto da humanidade. Isso é estatística pura. É uma injustiça que clama aos céus!”

Depois, na semana passada – sua primeira Audiência diante de uma grande multidão de pessoas desde o confinamento da Covid –, o Papa Francisco disse que, agora, mais do que nunca, é o momento de manifestar solidariedade.

Mas ele disse que esse é um conceito que muitas vezes é entendido apenas como atos esporádicos de caridade. Não, afirmou, é algo muito maior.

“Isso requer que se crie uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns”, afirmou, citando o seu primeiro grande documento, Evangelii gaudium.

De fato, é provável que haja uma série de citações dessa exortação apostólica de 2013 em sua próxima encíclica sobre a fraternidade humana. E com certeza também haverá muitas referências à encíclica Laudato si’, de 2015.

Isso não quer dizer que a encíclica será simplesmente uma reafirmação, ou “destaques”, ou “o melhor” desses documentos anteriores. Não, seja o que for que vier por aí terá como base esses textos e outras reflexões que Francisco, seus auxiliares e muitos outros produziram sobre essas questões nos últimos anos.

Como qualquer bom professor, o Papa Francisco sabe que é importante continuar voltando ao assunto de maneiras diferentes e mais aprofundadas. A próxima encíclica levará o ensino social da Igreja a um nível totalmente novo.

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