A teologia de Armido: uma tradição a ser pensada “em primeira pessoa”. Artigo de Andrea Grillo

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20 Agosto 2020

"Somos gratos a Armido de todo o coração. E conservamos com meticulosa precisão a refinada composição de duas instâncias que parecem incompatíveis e que Armido, em suma, formulava da seguinte maneira: o amor só pode ser comandado; mas apenas o amor pode ser comandado. Dar palavras exigentes e convincentes a esse paradoxo do amor vinculado e libertador foi para Armido a sua tarefa, o seu ministério, a sua preocupação e a sua paixão. Se o seguirmos por esse caminho árduo, mas apaixonante, não o teremos perdido, mas o encontraremos sério e ativo, na luz das suas palavras e na energia da sua voz", escreve Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, em artigo publicado por Come Se Non, 19-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O que Armido nos ensinou com sua presença tão forte e tão viva na cultura católica dos últimos 50 anos? Ora, uma vez que a sua palavra nos deixou desde ontem à tarde, devemos nos perguntar isso com renovada e premente urgência. Muitos de nós aprendemos com ele uma retidão intelectual e um frescor de pensamento que sempre surpreendia. Vamos tentar evocá-la brevemente.

Em primeiro lugar, Armido Rizzi não era apenas uma das vozes da nascente teologia italiana – que se desenvolvia em torno e a partir do Concílio Vaticano II –, mas antes de tudo era a sua voz. Aqueles que nunca ouviram Armido falar não o encontrarão plenamente em seus livros. Que, como todos os livros, carecem de sua voz. Essa voz, aparentemente tão suave e quase frágil, fina, era na realidade um vulcão de energia, de força, de acuidade, de potência. Quanta admiração em ouvir sua voz, que tomava a palavra sempre de forma suave e circunstanciada, só para depois se inflamar, subir, acelerar, vibrar.

Em Fiesole, onde fixou a sua atividade durante muitos anos, estive algumas vezes para participar nas reuniões da revista Filosofia e Teologia, que também reunia a sua redação em Pisa, Bolonha ou Florença. Mas também nas conferências da ATI Armido era presente e atuante. Sempre com sua mistura vigilante de pensamento filosófico e teológico. E em ambos os campos trazia, com um frescor inimitável, uma instância que eu poderia definir da seguinte forma: com base na grande tradição judaica e cristã, era necessário renovar a possibilidade de uma "obediência da fé" que fosse autêntica, correlacionada na raiz com a liberdade do ser humano. Por essa razão, e eu me lembro com uma evidência realmente impressionante, suas intervenções tanto no campo filosófico quanto teológico muitas vezes colocavam em crise uma maneira de "pensar de acordo com a autoridade" que ele considerava completamente inadequada. Assumir as questões "em primeira mão" era o seu caminho. Não bastava apresentar as diferentes posições envolvidas: era preciso “pensar por si”. E isso foi um magistério salutar, para muitos filósofos e teólogos que puderam cruzar com ele.

Armido era de 1933. Com muitos outros da década de 1930 ele realmente construiu o espaço para uma cultura teológica italiana. Muitos como ele concluíram sua jornada histórica, enquanto outros permanecem ativos e bastante atuantes. O que caracterizou a sua contribuição específica, nesse desenho mais amplo, foi um "trabalho de base" em que a vocação inevitavelmente não acadêmica não tinha nada de menos apurado e menos elegante do que aquela: aliás, ele elaborou formas de reflexão original, ligando de forma mais estreita a tradição clássica e a cultura contemporânea. Por mais de 50 anos Armido trabalhou na "inculturação" e na "hermenêutica" nos mais diversos campos, tanto na cristologia como na ética, tanto na teologia fundamental como na espiritualidade. Ele era um homem de corpo esguio e mente poderosa, com uma sutileza e uma precisão verdadeiramente raras. Mas se você o encontrasse tomando café no bar, descobriria que ele enchia a xícara com um número quase infinito de colheres de açúcar. Se, por outro lado, à noite, durante um congresso teológico, acontecesse uma partida do Torino, você poderia vê-lo percorrer quilômetros para chegar a uma televisão e acompanhá-la com agitada paixão de torcedor.

Duas gerações de teólogos italianos aprenderam com Armido o gesto rigoroso e forte da tradição que deve caminhar, deve avançar, deve ouvir os sinais dos tempos, deve incluir e não excluir. E isso só pode ser feito se formos capazes de torná-la nossa por completo. Por isso, uma parte considerável de sua obra também foi de tradutor acurado. Muitos livros alemães ou franceses entraram na cultura italiana falando o belo italiano de Armido. Lembro-me, para citar apenas um exemplo, do grande livro “Símbolo e Sacramento” de L.- M. Chauvet.

Ao recordar esse seu magistério "de antigamente", que podia ir livremente da filosofia à teologia, da competência bíblica à sistemática, reconhecemos que Armido nos deu as palavras, o estilo, a força e o ímpeto para continuar a alimentar a grande tradição teológica. Somos gratos a ele de todo o coração. E conservamos com meticulosa precisão a refinada composição de duas instâncias que parecem incompatíveis e que Armido, em suma, formulava da seguinte maneira: o amor só pode ser comandado; mas apenas o amor pode ser comandado. Dar palavras exigentes e convincentes a esse paradoxo do amor vinculado e libertador foi para Armido a sua tarefa, o seu ministério, a sua preocupação e a sua paixão. Se o seguirmos por esse caminho árduo, mas apaixonante, não o teremos perdido, mas o encontraremos sério e ativo, na luz das suas palavras e na energia da sua voz.

 

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