“Reforma 2.0” das finanças vaticanas aposta em italianos para resolver um problema italiano

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06 Julho 2020

Quando se trata das finanças vaticanas, há muitas décadas há uma premissa informal amplamente compartilhada – ou, possivelmente, apenas um preconceito – que defende que qualquer pessoa que se preocupe com a reforma tem que começar por romper o monopólio italiano sobre os cofres.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 04-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dos últimos cinco papas, quatro tentaram mostrar que eram capazes de confiar em não italianos, e quem não o fez, João Paulo I, só reinou 33 dias.

Ainda em 1967, quando São Paulo VI criou a Prefeitura para os Assuntos Econômicos para tentar injetar racionalidade na administração do dinheiro vaticano, ele nomeou um italiano como seu primeiro prefeito por razões políticas, mas, como seu primeiro secretário – ou seja, a pessoa que realmente faz o trabalho –, ele nomeou um estadunidense de ascendência alemã, o então Pe. Raymond Philip Etteldorf, de Iowa.

Mais tarde, quando São João Paulo II quis limpar as coisas, ele se voltou para outro estadunidense - o cardeal Edmund Szoka, de Detroit, que tinha raízes polonesas e liderou a Prefeitura para os Assuntos Econômicos de 1990 a 1997.

Quando o Papa Emérito Bento XVI quis uma “purificação” no Instituto para as Obras de Religião, o chamado “banco do Vaticano”, ele se voltou para um colega alemão, Ernst von Freyberg, que trouxe uma legião de consultores alemães. Quando Bento decidiu criar uma agência de combate à lavagem de dinheiro, ele confiou o projeto ao advogado suíço René Brülhart.

Foi assim também com o Papa Francisco, que inicialmente nomeou o cardeal australiano George Pell como o primeiro secretário para a Economia e o cardeal alemão Reinhard Marx como chefe do seu novo Conselho para a Economia. Pell trouxe um exército de consultores externos, principalmente anglo-saxões e alemães.

Subjacente a tudo isso, está a crença não declarada, mas quase axiomática, de que a raiz dos problemas financeiros do Vaticano reside na imitação notoriamente obscuras e nepotistas das práticas comerciais italianas. Por inferência, a ideia é que, se você tem um problema italiano, você precisa de não italianos para assumir o controle.

Na nova “Reforma 2.0” de Francisco, que está no centro das atenções nos últimos quatro meses, a suposição é quase exatamente a oposta: se você tem um problema italiano, então você precisa de seus próprios italianos para consertá-lo.

O pensamento vem à mente à luz do lançamento na última sexta-feira do relatório anual da Autoridade de Informação Financeira (AIF), a unidade de combate à lavagem de dinheiro criada por Bento. Ele foi apresentado pelo novo presidente, Carmelo Barbagallo, empregado de longa data do Banco da Itália, nomeado por Francisco em novembro passado.

O vice de Barbagallo, escolhido por Francisco no dia 15 de abril, é Giuseppe Schlitzer, outro ex-empregado do Banco da Itália, o que significa que os dois primeiros lugares são ocupados por italianos.

Embora não tenha havido “trovoadas”, o relatório mostrou que a AIF sinalizou 15 transações suspeitas ao promotor de Justiça vaticano no ano passado, a maioria envolvendo entidades estrangeiras e transações em jurisdições estrangeiras.

Entre outras coisas, o relatório mostra que a suspensão da AIF em novembro passado do Egmont Group, o grupo global das unidades de inteligência financeira, teve vida curta. Foi o resultado de uma investigação vaticana sobre um acordo imobiliário de 380 milhões de dólares em Londres e levantou questões sobre se os acordos de confidencialidade da AIF com outras unidades de inteligência foram violados por investigadores vaticanos. Um acordo assinado entre a AIF e o promotor de Justiça abordou essas preocupações, e a AIF foi readmitida ao clube.

Mais amplamente, hoje existem nove dicastérios ou órgãos no Vaticano com influência sobre as operações financeiras:

- Conselho para a Economia;
- Secretaria para a Economia;
- Auditor Geral;
- Instituto para as Obras da Religião (“banco do Vaticano”)
- Autoridade de Informação Financeira;
- Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA);
- Governo do Estado da Cidade do Vaticano;
- Secretaria de Estado;
- Promotor de Justiça, responsável por processar crimes financeiros.

Se considerarmos as duas primeiras posições de cada órgão, esse é um total geral de 18 empregados. Atualmente, 12 dessas 18 posições-chave são ocupadas por italianos. Curiosamente, existem apenas dois anglo-saxões ou alemães, e ambos estão no Conselho para a Economia, sem dúvida o menos impactante de todos esses órgãos.

Se tirássemos o conselho da lista, chegaríamos a 16 posições com 12 italianos. Notavelmente, apenas um dos quatro restantes, Jean-Baptiste de Franssu, do banco do Vaticano, é um falante nativo de um idioma que não seja o espanhol ou o italiano, os únicos dois idiomas em que Francisco se sente verdadeiramente à vontade.

Como explicar essa aparente reitalianização da reforma?

Uma forma de pensar nisso é: Francisco sabia que em 2013 ele foi eleito com um mandato em parte para limpar as finanças vaticanas e, no início, ele fez o que todos antes de ele haviam feito, ou seja, trazer não italianos. Mas ele não se sentia em casa nos mundos deles, e por isso acabou não sabendo em quem podia confiar e, mais ou menos, apertou o botão de “pausar”.

No entanto, o duplo golpe de novos escândalos e déficits crescentes o obrigaram a assumir a reforma financeira com seriedade novamente, e ele decidiu não cometer o mesmo erro duas vezes. Desta vez, ele optou por estar com pessoas que ele pode examinar pessoalmente e com quem ele pode se comunicar sem filtros.

Até hoje, os primeiros capítulos dessa “Reforma 2.0” fizeram relatórios razoavelmente bons, especialmente uma nova lei sobre aquisições que visa a eliminar conflitos de interesse e a racionalizar contratos. É muito cedo para dizer como isso vai acontecer, e vale lembrar que a história da Igreja está repleta de tentativas de reformas que pareciam promissoras no início, mas que, mais cedo ou mais tarde, foram subvertidas pela inércia e pelo hábito.

Mesmo assim, existe uma espécie de justiça poética no novo plano do papa: se é verdade que os italianos colocaram o Vaticano nessa confusão, talvez seja adequado que outros italianos, servindo a um papa cuja família provém do Piemonte italiano, tirem-no dessa situação.

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