Papa Francisco e as palavras ao filho pródigo que irrita os bons filhos. Artigo de Adriano Sofri

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15 Mai 2020

O Papa Francisco e a esquerda antigamente de classe tiveram uma involução paralela, embora o primeiro se mova a partir do Evangelho e a segunda se movia a partir de premissas materialistas, mas imbuídas, por sua vez, de messianismo.

O comentário é de Adriano Sofri, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por Il Foglio, 13-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Eu gostaria de discutir o artigo de Ernesto Galli della Loggia (no Corriere della Sera de domingo) intitulado “Uma Igreja pouco política”. Resumo-o, desculpando-me desde já.

O discurso de Bergoglio, diz Galli della Loggia, mostra-se cada vez mais político e, na realidade, é cada vez mais ideológico, correndo o risco, assim, de perder a eficácia política. E, portanto, marca uma ruptura com a constante capacidade da Igreja de se medir com o mundo, com as grandes massas de homens e mulheres, com os “movimentos gerais dentro do sistema dos Estados, a fim de afirmar a sua própria presença peculiar”. O discurso público de Francisco, fora das cerimônias e dos ritos, torna-se um discurso social depurado do fundamento religioso.

Galli della Loggia indica dois motivos principais para esse desapego da tradição.

O primeiro é que o papa não se dirige aos “homens de boa vontade”, aos “governantes”, às “autoridades”, ao “mundo” ou a categorias profissionais particulares, mas sim “a sujeitos vítimas de situações negativas”. Ele fala aos povos, mas sempre “na parte menos favorecida da sociedade”. É esse dado que ele quer imprimir em seu próprio pontificado.

O segundo motivo é o abandono da doutrina social da Igreja, mediadora entre capitalismo e socialismo, e o abandono do “universalismo humanista conciliar”. O papa mostra um constante descuido com o Ocidente, uma hostilidade de fundo aos Estados Unidos, um desinteresse pela crescente divisão entre uma Europa do norte e outra católica, do sul, e uma distração, uma omissão em relação ao papel da China e da Rússia.

Em suma, Francisco segue uma ideologia “populista-comunitária-anticapitalista”, típica do Sul do mundo. No seu discurso social, Galli della Loggia denuncia a ausência da conversão e da transcendência, que são a essência da religião.

Chama a atenção uma primeira impressão. A limitação ou, melhor, a verdadeira mutilação que Galli della Loggia vê na dedicação quase exclusiva que o papa dirige às partes mais infelizes da sociedade é a mesma que foi denunciada há muito tempo como o desvio de uma esquerda desorientada que abandonou o seu enraizamento de classe e o tema do trabalho para buscar uma frágil renovação na representação dos “direitos”, reservados às partes desfavorecidas da sociedade.

A esquerda das diversidades sexuais, dos imigrantes, dos detentos, dos desviantes. A esquerda dos “últimos” às custas dos penúltimos. A esquerda, talvez, de Carola e de Greta.

Portanto, se poderia dizer o Papa Francisco e a esquerda antigamente de classe tiveram uma involução paralela; embora o primeiro se mova a partir do Evangelho e a segunda se movia a partir de premissas materialistas, mas imbuídas, por sua vez, de messianismo.

É uma questão singularmente estimulante, que Galli della Loggia encerra rapidamente, parece-me, em torno do “populismo anticapitalista” de Francisco, sinônimos do “peronismo de esquerda” com o qual ele se apresentou em São Pedro a partir do outro lado do mundo.

Muito sumariamente, porém, acho que a conversão e o arrependimento são uma conotação central na pregação do papa, aquela cotidiana e aquela solene da encíclica Laudato si’. Parece-me também que a insistência política e não ideológica na unidade europeia e na União Europeia é crucial hoje nas suas intervenções, no que diz respeito à reviravolta da redistribuição dos poderes no planeta.

Mas é outro ponto que me pressiona. Depois de apontar para a parcialidade característica da atenção de Francisco, aquela redução aos “ferrados” (desculpo-me), Galli della Loggia reconhece que são “todas coisas certamente mais do que compatíveis, em certo sentido conaturais, com a mensagem do Evangelho”: mas que o Evangelho “é posto em segundo plano até desaparecer”.

Não me sinto à vontade para criticar o papa por ser um mau fiel – eu não sou fiel – mas é precisamente a afabilidade sem carisma e a efetiva preocupação desse papa pelo diálogo com a sociedade que autoriza a discussão. Há uma famosa parábola no Evangelho de Lucas, sobre a qual eu me debato há anos, a do filho pródigo, porque me parece conter a questão sobre a qual se medem o papa suspeito de ideologismo e a esquerda depois de ter se tornado pós-ideológica.

Eu sei que a parábola tem inúmeras interpretações, e Maurizio Crippa a mencionou aqui, nessa terça-feira, mas como a parábola do “Pai misericordioso”.

Interessa-me o filho que ficou em casa, aquele com quem é mais difícil negociar. Com o outro, o mais novo, que tinha vontade de grandes espaços, aquele que foi embora e conheceu o mundo e desperdiçou a própria herança antecipada e a si mesmo, e se humilha na lama dos porcos e volta cheio de vergonha, é fácil de se identificar com ele. É um dos nossos, um do movimento.

O problema é o outro, o filho mais velho, que volta dos campos e ouve a música e as danças, e lhe dizem que o pai mandou matar o novilho gordo e, para ele, sequer um cabrito.

O pai lhe diz: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar- nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”.

O relato termina aqui: não diz se o primogênito que sempre obedecera deixou de ficar com raiva. Esse é, pode ser, um novo erro cometido ao filho bom, ao bom filho (a parábola nunca termina, releiam-na e coloquem-na perante o retorno de Silvia Romano da sua África e perante a raiva de muitas outras pessoas que ficaram em casa).

Agora, os milhões e milhões de mulheres e homens com quem a Igreja, segundo Galli della Loggia, não fala mais, não sabe mais falar, são como aquele irmão mais velho. Mas é difícil responsabilizar Francisco e é arriscado ver nisso uma traição ao Evangelho.

Peço desculpas por dizer levianamente coisas graves demais em termos de precedentes. O cristianismo, e certamente o Evangelho, tem uma inquietante e inquieta predileção pelo pecador. Pelo Grande Pecador, especialmente, pelo Inominado e não pelo medíocre Dom Rodrigo. Talvez o pecado original, a sua injustiça certa – para quem não lê aí uma metáfora da desproporção entre a audácia dos humanos e a sua vulnerabilidade – tenha servido para ressarcir as vidas comuns, os milhões que ficaram em casa ou que se separaram dela só porque alguém as desenraizou à força.

A Igreja se moveu muito bem, muitas vezes muito bem, com “os movimentos dos Estados, as autoridades, os governantes” dos quais Galli della Loggia fala: obteve poder, glória, eficácia, desastres e escândalos com isso.

Às vezes, ela tentou, em alguns de seus homens e mulheres, e até na cúpula, permanecer mais apegada ao Evangelho. Quando fez isso, ela arriscou, como agora, decepcionar os irmãos primogênitos (as irmãs não figuram aqui, é outra questão), deixar sem proteção todo o rebanho das 99 ovelhas cercadas.

A ferida daquela festa na alma do irmão mais velho, da grande maioria da sociedade que se sente ofendida, não foi ressarcida nem pelo papa nem, muito menos, pelos líderes de uma esquerda, literalmente, desorientada. Com resultados grotescos, aliás.

Grande parte da sociedade que era o nervo da esquerda está oscilando nos pontos mais impensáveis, com enjoo. E grande parte dos bons fiéis que não entendem mais o seu pastor e se sentem abandonados e ofendidos por ele, e o veem ser apontado quase como o antipapa, senão até como o Anticristo, não riem nem se escandalizam com um líder popular que manuseia terços e Nossas Senhoras gritando que é preciso jogar ao mar o irmão mal comportado.

Penso também que o Papa Francisco não encontrou as palavras e os gestos que digam às pessoas que se consideram normais, aos milhões de apedrejadores de supostas adúlteras e de efetivos náufragos e prisioneiros, aos milhões de pessoas que se consideram sem pecado, que elas estão igualmente no seu coração, e que realmente aquilo que é dele é delas. Sabe-se lá se isso é possível.

A parábola da adúltera também acaba sem acabar: os apedrejadores, interditados pelas palavras perturbadoras, largam as pedras e vão embora de cabeça baixa. Mas é provável que vão embora rangendo os dentes e se propondo, da próxima vez, a não se deixarem desarmar pelos despautérios daquele amigo das prostitutas, adúlteras e cobradores de impostos.

É provável que eles se digam: “Mas, no fundo, que pecado real eu cometi? É toda a vida que eu puxo a carreta!”. É provável que amanhã eles fiquem ainda mais irritados.

 

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