“A fraternidade não é um automatismo, precisa partir de uma decisão ética”, afirma José Tolentino Mendonça

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31 Janeiro 2020

Como atividade inserida na reflexão da exibição “Violências Silenciadas”, exposta atualmente em O_Lumen, os dominicanos convidaram o cardeal português José Tolentino Mendonça para uma conferência, ontem à tarde. Com o título “Sou eu o guardião de meu irmão?”, em referência à história bíblica de Caim e Abel, o também bibliotecário do Vaticano e autor de vários livros de poesia, ensaio e pensamento contemporâneo aproveitou a oportunidade para aprofundar a cultura pós-moderna e sua “necessidade radical de escuta”.

A reportagem é de Lucía López Alonso, publicada por Religión Digital, 30-01-2020. A tradução é do Cepat.

Toda a história da humanidade – disse – está marcada por essa necessidade de receber respostas, de ser escutados. “Está em nossa antropologia”, disse. “Da roda à palavra, da mesa às praças de nossos povoados, nossas invenções são o resultado de nosso desejo de escuta”, declarou. De fato, os antropólogos não justificam nossa posição amparada no entusiasmo de nos comunicar com o outro, de nos olharmos de frente e conversar? Para Tolentino Mendonça, o poder da escuta reside em “acolher a complexidade de uma vida. Inclinar-nos para o outro”.

Mesclando ética e estética, seguiu a conferência expressando que essa escuta não é apenas “um sentido, mas, sim, uma atitude”. E para destacar sua importância, recorreu ao argumento de autoridade eclesial (de São Bento ao “judaísmo e cristianismo, religiões da escuta”), mas também citou a filósofa Julia Kristeva e os escritores Milan Kundera e Clarice Lispector, expoente de uma prática literária completamente moderna, complexa e feminista.

Abrir-se aos “rumores do outro”

Demonstrando sua enorme cultura com surpreendente humildade, José Tolentino Mendonça fez referência à filosofia de Michel de Certeau para recomendar a abertura “a uma ética da escuta, aos rumores do outro”. Não só a suas palavras, mas a seus gestos, sons e silêncio. “Aproximarmo-nos de tudo o que comunica”, apontou, e nos perguntar o que estamos escutando hoje.

Ele, que foi secretário do Serviço Nacional de Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal de Portugal, afirmou que isso que vemos no mundo de hoje requer nossa compaixão. Migrações. Terra ferida. Tráfico de pessoas ... Que possamos dar uma resposta ética a tantas violações de direitos. “A fraternidade não é um automatismo, precisa partir de uma decisão ética”, refletiu, fazendo referência, na sequência, à história de Caim matando seu irmão.

Uma arte com “olhar atento”

Se “o bem e o mal não são inevitáveis, mas, ao contrário, são tomadas de posição”, refletiu o cardeal, a arte pode ser usada para seguir em frente e pacificar o mundo. As manifestações artísticas, sejam do tipo que for, sempre levaram as pessoas a se confessar, a oferecer o seu testemunho, mas, ao mesmo tempo, a questionar o que os outros sentem. Nas palavras de Tolentino Mendonça, a arte nos permite desenvolver um “olhar atento” aos nossos semelhantes, que nos dão “informação sobre o humano” em meio a um ambiente cheio de solidões urbanas.

Apresentando o exemplo da Pietà, de Michelangelo, que perdeu sua mãe quando tinha apenas 6 anos de idade, o bibliotecário do Vaticano defendeu que a arte imortaliza “o que é uma mãe, um filho, um vizinho” e nos torna mais empáticos. No entanto, os mármores renascentistas podem parecer uma imagem anacrônica, que não se ajusta à realidade de hoje e tampouco serve totalmente para assumir os desafios do futuro. Para isso, o cardeal recomendou enfrentar o que quer que venha com confiança. “Imaginamos um futuro distópico porque temos medo”, declarou. “E é verdade que assistimos diversos naufrágios, mas também muita solidariedade e busca de sentido”.

Aliando a inteligência de suas respostas com um sorriso calmo, José Tolentino, definido por muitos como uma das vozes mais originais da literatura portuguesa e do catolicismo contemporâneo, reconheceu que “não basta reduzir a presença de Deus ao culto, também deve estar na cultura”. Disposto, portanto, a estender pontes entre cultura e espiritualidade, defendeu, ao mesmo tempo, a cultura do encontro do Papa Francisco e a que nos envolvamos em “uma sabedoria polifônica”. Com essa expressão, que ecoa seu compatriota Fernando Pessoa (“Cada um é vários (···) na vasta colônia de nosso ser”), o cardeal afirmou que “nenhum discurso é autossuficiente”.

Contra qualquer traço de extremismo, manifestou esperança em uma Igreja que conta com mudanças previstas (definiu o pontificado de Francisco como o “papado da abertura de processos”), mas destacou a importância de ser pacientes “no discernimento” e madrugadores na conversão. “O primeiro chamado à conversão sou eu”, declarou, e encerrou sua intervenção realizando um elogio ao silêncio, que faz com que a oração respire e que “deveríamos declarar Patrimônio Imaterial da Humanidade”. Como que recordando a Saramago, outra das grandes referências de Portugal, quando escreveu que “o milagre é que os homens não se tornam loucos cada vez que abrem a boca para falar”.

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