Argentina. “Desde a sua origem, o peronismo foi um e muitos ao mesmo tempo”. Entrevista com Gustavo Nicolás Contreras

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28 Mai 2019

Em chave política: o peronismo é um e é trino. Em chave guevarista: há dois, três... muitos peronismos. O desafio de indagar sobre um movimento político e social tão complexo não amedronta o historiador Gustavo Nicolás Contreras, que há vários anos optou em focar suas pesquisas no “primeiro peronismo”, aquela etapa fundacional de uma doutrina que até hoje inquieta a direita em todas as suas expressões e gera desconfiança em alguns setores da esquerda.

Diretor e autor da coletânea de livros “La Argentina Peronista: política, sindicalismo, cultura”, coeditada pelo Grupo Editor Universitario (GEU) e com o selo da Universidade Nacional de Mar del Plata (Eudem), Contreras analisa essa etapa mítica dos dois primeiros governos de Juan Domingo Perón e relaciona o passado com o presente. Uma prova irrefutável – casualidade – dessa ponte histórica: no mesmo dia – quinta-feira, 9 de maio – e no mesmo lugar – na Feira Internacional do Livro – escolhidos para a apresentação portenha da coletânea, a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner lançava “Sinceramente”.

A entrevista é de Germán Ferrari, publicada por Página|12, 27-05-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

A ideia de que “os males da Argentina” começaram há 70 anos – ou seja, com o nascimento do peronismo – se tornou um lugar comum para a direita liberal. É um debate que parece não encerrado. Por que esse “primeiro peronismo” continua causando mal-estar em alguns setores da sociedade?

Com o passar dos anos, o primeiro peronismo foi ocupando um lugar cada vez mais central na história argentina e, poderíamos dizer também, cada vez mais mítico. Para todos, inevitavelmente, se tornou uma referência obrigatória, inescapável. Para a direita liberal argentina, em particular, é o momento em que o país se “desvia” da via “normal” que seguia, essa via que a mesma deseja apresentar como “natural”, mas que não era mais que o traço de uma rota que tinha sido projetada pela oligarquia agroexportadora em função de seus interesses, necessidades e desejos.

É possível destacar vários aspectos importantes de como a direita liberal percebe aquele “desvio”, aquele “equívoco” histórico, que lhe provoca um profundo mal-estar. Mas, talvez, o mais persistente e imponente, em seu imaginário político, sejam as ideias que postulam que por meio da demagogia fizeram os trabalhadores e o povo acreditar que podiam viver melhor do que “realmente” era possível viver, que gozaram de certos direitos que “realmente” eram sustentados de forma artificial e, portanto, não podem ter sustentação, que tiveram um lugar de enunciação como um dos setores mais relevantes do país, quando “realmente” eram vítimas da manipulação e do populismo.

É óbvio que estas convicções ideológicas da direita liberal são mais que discutíveis. Mas, seguindo esta ponderação, poderíamos nos perguntar para quem e por qual razão os males da Argentina começaram há 70 anos. Sobretudo, se aqueles que enunciam esta ideia são os mesmos setores que criticam as políticas do primeiro peronismo, ao mesmo tempo em que defendem a última ditadura civil-militar do país e as privatizações do menemismo.

Nos últimos anos, como a historiografia interveio diante dessa visão antiperonista?

A historiografia não adotou como tal uma intervenção unívoca. Poderíamos dizer que ela própria é um dos principais campos de batalha onde são disputados os sentidos e as interpretações da história, e como tal possui uma dinâmica própria, com múltiplas perspectivas e uma diversidade de correntes analíticas. O debate é parte fundamental do mundo acadêmico, ainda que seja inescapável que possua um fundo que sempre é político. Esta relação se torna mais evidente no âmbito da divulgação histórica, onde se vê com maior clareza a projeção interpretativa e política dos resultados das investigações.

Poderíamos dizer que, nos últimos anos, as intervenções mais fortes que se confrontaram com uma visão antiperonista própria da direita liberal foram aquelas que desnaturalizaram e refletiram criticamente sobre certas ideias subjacentes – mais ou menos explícitas – desta visão, como a existência de “um país normal”, de um estado intervencionista “em excesso” no econômico e social, de um protótipo ser nacional preponderante branco e produto de uma descendência eminentemente europeia e de uma sociedade contemporânea na qual os trabalhadores e o povo têm “muitos” direitos.

Quanto a chegada de Macri à Casa Rosada influenciou na revitalização desse discurso?

Acredito que a chegada de Macri à presidência influenciou mais na revitalização desse discurso nos meios de comunicação que no âmbito acadêmico, onde, não obstante, é inegável que mantém um espaço. Neste sentido, o crescimento e a ampliação do discurso da direita neoliberal parece mais uma operação midiática apoiada pelo poder econômico concentrado.

De fato, o grupo de “intelectuais” e acadêmicos que o macrismo conseguiu reunir não foi amplo e, em seu interior, muito poucos têm reconhecimento para além de alguns de seus pares. Nesse sentido inverso, penso que no contexto de uma crescente crise econômica e social – que tem seu correlato em um corte feroz nos organismos de ciência e nas universidades nacionais –, os discursos acadêmicos críticos à direita neoliberal não só foram potencializados, como também uma porção considerável de pesquisadores e docentes que votaram na aliança Cambiemos foram modificando seu parecer nestes últimos três anos. Neste ponto, essa incipiente revitalização do discurso da direita liberal não prosperou como desejariam nos espaços acadêmicos.

Em seu último livro, “El peronismo obrero” (2018), aprofunda o mundo dos trabalhadores dos frigoríficos durante o 'primeiro peronismo' para desarmar outro lugar comum em certa historiografia e em setores da sociedade antiperonista: “a burocratização e o verticalismo” do movimento operário frente à figura de Perón. Como é possível mudar aquela visão simplista em prol de uma nova apreciação de nosso passado?

O livro almeja oferecer contribuições para a construção de uma visão mais complexa, ou seja, mais precisa em termos históricos, sobre a participação operária durante o primeiro peronismo. Não pretende negar os elementos que podem ser lidos em chave da burocratização e verticalismo, mas, ao contrário, procura ponderar outros aspectos geralmente relegados ou invisibilizados que também estiveram presentes na ação das e dos trabalhadores, seus dirigentes e suas organizações durante todo o primeiro governo de Perón.

Sendo assim, o livro resgata espaços de autonomia, diversas iniciativas tanto das bases como das cúpulas, diferentes tendências internas, perspectivas próprias das e dos trabalhadores, conflitos e inclusive posicionamentos particulares do movimento operário peronista que, em certas ocasiões, colidiram com o que o governo e o próprio Perón dispunham. Agora, isto não apenas acresce novos elementos àquela história, mas também, do meu ponto de vista, afeta significativamente as interpretações herdadas sobre o assunto.

Como esse enfoque pode iluminar a análise do sindicalismo atual?

O sindicalismo de hoje não pode ser resumido à burocratização e ao verticalismo, nem à ação de suas cúpulas e seus vínculos com o poder político e econômico. Menos ainda deveria ser apreciado a partir de uma visão muito atual que, estimulada pelas classes dominantes, demoniza o sindicalismo em sua aposta em aumentar a flexibilidade trabalhista e a autoridade patronal nos âmbitos trabalhistas.

Para deslegitimar a luta e a organização sindical, resumem tudo ao verticalismo, a burocracia, a corrupção, a condescendência, as negociações, os valentões, etc. Obviamente que isto existe, mas claramente há muitas outras realidades no associativismo argentino, e de uma importância substantiva que não querem colocar em evidência, nem ponderar no debate.

Como não reconhecer que há tendências internas muito variadas, disputas sindicais e políticas, mobilização das bases, milhares e milhares de trabalhadores e trabalhadoras que de forma generosa e solidária militam todos os dias por seus companheiros e companheiras, diferentes tipos de dirigentes, anseios por um mundo melhor e mais humano, resistências anticapitalistas, iniciativas e coordenações múltiplas, direitos novos que são conquistados, reivindicações que se sustentam no tempo, políticas culturais, etc.[?].

Não reconhecer esta complexidade e amplidão do sindicalismo não é apenas um erro interpretativo. Também alimenta as visões das classes dominantes que querem, sem muita dissimulação, destruir os sindicatos. E querem um país sem sindicatos não para acabar com a corrupção e a burocratização, mas para investir contra os direitos adquiridos e o poder conquistado pelos trabalhadores e as trabalhadoras, por meio de suas organizações associativas.

O certo é que quando os governos neoliberais querem acabar com os vícios das cúpulas sindicais, podemos suspeitar com fundamentos que não estão projetando melhorar a vida das e dos trabalhadores. Pretendem gerar melhores condições para o investimento e a reprodução do capital. Talvez o mais interessante seja pensar que as ações e as medidas necessárias para melhorar o sindicalismo serão obra das e dos próprios trabalhadores. A história nos mostra que esta suposição tem fundamento.

“O peronismo é um e é muitos ao mesmo tempo”, afirma na introdução a “El peronismo obrero”, para marcar a complexidade que já existia na formação inicial do movimento. Podemos prolongar esse mesmo enfoque no tempo até a atualidade...

Não são necessários muitos esforços para demonstrar a diversidade do peronismo de hoje, como também para visualizá-la nos anos 1960 e 1970. O mais difícil é compreender como setores tão diferentes se propõem – e se propuseram – a se articularem dentro de um mesmo espaço político.

Compreendo que o momento em que, retrospectivamente, esta diversidade interna esteve menos assumida foi no primeiro governo de Perón, sobretudo nos anos que transcorreram entre 1946 e 1955. O apogeu de sua figura, sua ascendência sobre as e os trabalhadores e o avanço de certa arregimentação institucional fizeram com que se perdesse de vista a heterogeneidade daqueles que se reconheciam peronistas e se coordenavam de modo conflituoso dentro de um mesmo movimento social e político.

Desde as suas origens e ainda em sua primeira etapa de governo, o peronismo foi um e muitos ao mesmo tempo, suportando uma ampla diferenciação interna e alto grau de conflitos, que em certas ocasiões levaram a cisões, mas onde, em definitivo, primou uma perspectiva de unidade para além da diversidade que o habitava, mesmo quando Perón já não estava.

Portanto, o peronismo combina uma notável diferenciação intestina com uma tendência predominante na maioria de seus fracionamentos a coordenar dentro de um mesmo movimento político. Esta matriz inicial nos permite entender alguns aspectos da dinâmica do peronismo atual, na qual chama a atenção sua heterogeneidade, mas também o constante interesse de seus multifacetados setores em prol de construir a unidade enquanto peronistas.

Por que o yrigoyenismo, que também é considerado como outro movimento nacional e popular de importância, não provoca um debate similar ao do “primeiro peronismo”?

Não tenho isso totalmente claro, mas o certo é que quando pensamos em um movimento nacional e popular na Argentina, recorremos rapidamente à experiência do primeiro peronismo. Foi o que fizeram os trabalhos clássicos que, em meados do século XX, se ocuparam em analisar tais tipos de movimentos, como por exemplo Gino Germani em suas tão reconhecidas como criticadas pesquisas.

Este sociólogo pensou os regimes nacional-populares em chave continental e como consequência de mudanças estruturais, principalmente associados à crise de 1930 e as migrações internas que dela foram derivadas. A partir deste enfoque, portanto, o yrigoyenismo só podia ser um antecedente, uma referência prévia. Por outro lado, outros estudos não se prenderam tanto a seu perfil nacional e popular, mas na ampliação de direitos políticos – por exemplo, o sufrágio – e de reivindicações econômicas e corporativas para certos setores dos trabalhadores e da classe média.

Nesta visão mais institucionalista, que também admitia comparações sincrônicas com situações similares que estavam sendo vividas no Chile e Uruguai, o yrigoyenismo emergia como um momento importante, mas dentro de um processo ascendente de democratização política, econômica e social que encontraria no primeiro peronismo um aprofundamento.

Talvez o revisionismo histórico, em especial aquele mais relacionado ao radicalismo - ao estilo de Arturo Jauretche -, foi o que buscou recuperar com maior força o yrigoyenismo, partindo de uma genealogia nacional e popular que se construiu com as figuras de Rosas, Yrigoyen e Perón. Contudo, mesmo nesta aposta, Yrigoyen era a antessala, o passo anterior, a estação anterior ao regime nacional e popular mais acabado.

Parece que isto se dispôs deste modo, inclusive para além da pretensão de Jauretche de que as águas não voltassem a sua fonte e buscassem um novo canal, após o golpe militar de 1955, para que o movimento nacional e popular encontrasse um novo condutor que o levasse a um momento de superação. Neste entendimento, a construção do “nacional e popular” tem um sentido ascendente, e novamente o yrigoyenismo ficava atrás do peronismo.

O certo é que nas interpretações mais difundidas o primeiro peronismo é percebido na história argentina como a época de consagração do nacional e popular. É justamente com este período que são comparados os governos que se projetaram com este mesmo perfil, como o terceiro peronismo, o menemismo e/ou kirchnerismo.

Há trabalhos, e muito bons, sobre o yrigoyenismo, mas em uma visão panorâmica, o primeiro peronismo sempre emerge como o ponto central da consideração, tanto em termos positivos como negativos, ou na perspectiva de balanço. Entendo que a historiografia não é alheia a esta apreciação que poderíamos conceber como mais estendida.

Em seus trabalhos, que importância atribui à história oral?

A história oral não é o sustentáculo principal de minhas pesquisas, mas considero que é de uma grande riqueza e importância. De fato, desfrutei muito as entrevistas que pude realizar com diferentes protagonistas da história argentina. Aprendi muito com eles, para além das questões específicas que pude aproveitar pontualmente para meus trabalhos.

A prática da história oral é formativa e estimulante para o historiador. Por um lado, é um recurso interessante e imprescindível para chegar a vários lugares que de outro modo seriam inacessíveis. Certos acontecimentos que não foram registrados em fontes de informação só podem ser contados por aqueles que os viveram. Por outro lado, é nutritivo para as nossas pesquisas que alguns protagonistas da história, ao mesmo tempo que nos narram acontecimentos, também nos adiantam uma interpretação do que ocorreu, e esse adiantamento sobre o que estudamos é, em si, atrativo.

Do mesmo modo, permite que recuperemos a subjetividade das e dos partícipes de certos episódios e processos, dando voz, desta maneira, àqueles que por diferentes motivos não deixaram rastro em fontes de informação. E mais, inclusive quando conversamos com protagonistas que já testemunharam em outras ocasiões, podemos aproveitar a oportunidade para lhes fazer novas perguntas a partir de renovadas preocupações de época. Este ponto é relevante, já que muitas vezes o que se conta tem a ver com onde, quando e a quem é dito.

Neste sentido, cada entrevista é uma peça artesanal única. Ao fazer história oral, você precisa conquistar alguém que o receba, que conte algumas coisas e que faça isso da melhor maneira que possa. Você precisa conquistar a sua confiança e sua predisposição, e tudo isso se torna um extraordinário desafio.

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