Do naufrágio da humanidade ao trem de Slavoj Žižek

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10 Mai 2019

“A vitória do capitalismo e a marcha do trem que passará por cima de nós foi antes uma vitória cultural. As forças anticapitalistas foram derrotadas culturalmente, quando não, colonizadas. Por isso, não acredito que seja possível atravessar o túnel para encontrar uma luz de esperança. A única luz após o naufrágio continua sendo a do trem de Žižek”, escreve Kintto Lucas, escritor equatoriano-uruguaio, ex-vice-chanceler do Equador e ex-embaixador do Uruguai para a Integração, em artigo publicado por ALAI, 08-05-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Sem dúvida, a humanidade já naufragou e não há espaço para a felicidade plena. Faço minhas as palavras de Slavoj Žižek no debate com Jordan Peterson. No mundo atual, no capitalismo, “se há uma luz no fim do túnel, é um trem que se direciona rumo a nós”.

Independente das visões otimistas, seja as dos que defendem a felicidade no capitalismo, como o próprio Peterson, ou as dos que assumem uma postura otimista a partir da esquerda, tentando demonstrar que há esperança para a humanidade, o rumo do mundo, nos últimos cinquenta anos, para não ir longe, demonstra que, inclusive melhorando algumas realidades sociais e econômicas em determinados lugares e para determinados setores, a humanidade como conjunto caminha rumo ao naufrágio.

É interessante levar em consideração o que disse o sociólogo alemão Wolfgang Streeck, argumentando um certo otimismo na queda do capitalismo por sua própria crise. “Não estou dizendo que o fim esteja ao virar da esquina. Estou dizendo que as cinco tendências de seu declive continuarão, já que nada pode detê-las. Também estou dizendo que não há uma nova sociedade esperando que caia do céu, que esta nova sociedade terá que ser construída pelas forças que se opõem ao capitalismo”, disse.

Também argumenta que viveremos um longo período de incerteza e desordem, “um interregno em que a antiga ordem morreu, enquanto uma nova ordem ainda não pôde nascer. Situações aterradoras podem acontecer neste período, conforme descreveu Antonio Gramsci em sua famosa passagem em Cadernos do Cárcere”.

Não acredito em uma crise terminal do capitalismo como uma tendência irreversível. Acredito, ao contrário, em uma crise perpétua do capitalismo com picos que a torna mais aguda. No entanto, as forças do capital têm a capacidade de se recompor após cada pico de crise aguda e seguir em meio à crise perpétua. Existe uma capacidade de viver com a crise, sem acabar com ela. Existe até, inclusive, uma retroalimentação com a crise. A crise no capitalismo é um sintoma de sua morte e um remédio para sua sobrevivência.

Além disso, o capitalismo tem a capacidade de absorver opções que supostamente buscam uma mudança de vida. Poderíamos mencionar desde as camisetas do Che aos hambúrgueres veganos. Há muitos exemplos ao longo da história, mas irei mencionar um dos últimos que me parece interessante: o caso da nova grande empresa de hambúrgueres veganos financiada por Bill Gates e Leonardo DiCaprio, entre outros. Esse é um pequeno exemplo de como o capital absorve as opções de jovens que propõem uma mudança de vida, às vezes por moda, mas muitas vezes honestamente, e o mesmo acontece com outras opções supostamente mais radicais.

No entanto, sem acreditar que já esteja determinado, concordo em parte com Streeck que a única esperança que nos resta é que o capitalismo caia por si mesmo. Para recorrer à figura de Žižek : que o trem exploda antes, que se autodestrua, porque, sim, é verdade que apesar de sua capacidade de readaptação da própria globalização, inclusive com as mudanças nas comunicações e com as novas relações de produção, o capitalismo pode se tornar autodestrutivo.

O capitalismo é em essência destrutivo e pode se tornar autodestrutivo. É em essência homicida e em potência pode ser suicida. Agora, em um sistema autodestrutivo e em meio às relações capitalistas, o único motor que pode ajudar nessa autodestruição é a própria luta de classes. E, nesse sentido, as forças capitalistas tiveram a capacidade de cooptar, não digamos financeiramente, mas culturalmente, muitos dirigentes sindicais e muitos setores para transformar a luta de classes em conciliação de classes, às vezes, e outras vezes em submissão de classes, como acontece hoje em alguns países, como o Equador, por exemplo.

Além de tudo, a vitória do capitalismo e a marcha do trem que passará por cima de nós foi antes uma vitória cultural. As forças anticapitalistas foram derrotadas culturalmente, quando não, colonizadas. Por isso, não acredito, ainda que queira me convencer, que seja possível atravessar o túnel para encontrar uma luz de esperança. A única luz após o naufrágio continua sendo a do trem de Žižek .

A propósito da menção de Streeck a Gramsci, concordo que quando uma ordem antiga morre e se tenta impor uma nova, há incerteza, porque o velho não quer morrer e o novo custa nascer. Contudo, isso não quer dizer que seja a substituição do capitalismo por outro modelo distinto, não digamos socialista.

Vejamos o que acontece agora: está ocorrendo uma mudança geopolítica mundial importante que irá redefinir o rumo do capitalismo. Estamos indo de um modelo unipolar para um modelo multipolar, então são gerados espaços de confronto, de incerteza, surgem novos atores, rompe-se a ordem. Porém, isso não quer dizer que esse modelo multipolar seja o fim do capitalismo. É como acreditar que a China possa ser exemplo de socialismo.

Não. Mas, é melhor um modelo multipolar porque são geradas relações um pouco mais equilibradas. E, portanto, há outras possibilidades para os “outros” países. A Venezuela é um exemplo. Quando existia a URSS, havia outros equilíbrios, havia outras possibilidades para o mundo, mas não se produziu uma mudança mundial de estruturas para evitar que o trem passe por cima de nós.

Concordo que “a nova sociedade” teria “que ser construída pelas forças que se opõem ao capitalismo”. Mas, as forças que se opõem ao capitalismo não têm a capacidade para isso porque o próprio capitalismo as devorou culturalmente. Caso seja analisado o caminho do mundo nos últimos cinquenta anos, podemos ver que as “forças” que se opõem ao capitalismo foram sendo reduzidas até se tornarem muito pouco ou quase nada.

Refiro-me às verdadeiras forças que se opõem ao capitalismo, que lutam contra o capitalismo. Há, além disso, as outras que se opõem ao capitalismo só no discurso. Há também outras que estão cômodas no capitalismo, mas não dizem isso porque sentem um pouquinho de vergonha.

Claro que há momentos interessantes em que surgem expectativas e se renova a esperança de que a humanidade pode se ajustar, mas são como flashes, como clarões, melhoram coisas, claro, porque a própria modernização do capitalismo faz com que sejam necessárias, para se sustentar, certas melhoras para uns, mesmo que ao lado haja o desastre para os outros.

No entanto, com essas melhoras (que inclusive podem ser revertidas facilmente: Brasil, Equador e Argentina são exemplos atuais), o caminho do naufrágio da humanidade não muda, porque é estrutural. Então, são bons esses clarões de luz, e é preciso lutar para que sejam maiores, para que durem mais tempo, para que durante esses clarões se aprofunde mais e haja mais conquistas. Contudo, se não há mudança na estrutura do sistema-mundo, não há derrota do capitalismo e não tem como a humanidade chegar a um bom porto. Não tem como, a humanidade continuará naufragando como as crianças do Mediterrâneo, que conseguem chegar à margem, mas mortas. As “forças” que se opõem ao capitalismo possuem a debilidade das balsas em que essas crianças viajam.

Para um pequeno exemplo do papel das “forças” que se opõem ao capitalismo, é necessário olhar ao redor da América Latina e ver quais são as forças verdadeiramente anticapitalistas. Analisar as pessoas, os seres humanos, os dirigentes. É possível encontrar poucas, muito poucas. Claro que existem, mas limitadas.

Quando falo do naufrágio irremediável e do trem praticamente impossível de se desviar, nem sequer me refiro aos pontos que nos levam a um desastre ecológico e que não irão mudar porque a dinâmica do capitalismo é construída para que não mudem. Até os ambientalistas de vitrine estão absorvidos culturalmente pelo capitalismo. Sem mencionar os setores burgueses que lucraram com o ambientalismo, ou aqueles que vivem para conseguir projetos financiados. Boa parte dos ambientalistas não conseguem avançar para uma visão estratégica de luta contra o capital, contra a estrutura do capitalismo, inclusive porque muitos, não todos claro, são marcados a fogo por sua condição de classe.

Lamentavelmente, há algumas supostas “forças anticapitalistas” que seu único interesse é defender um postinho burocrático, por exemplo. Outras mantêm uma postura elitista, quase aristocrática, a partir de uma verdade absoluta, então julgam os processos nos quais não possuem espaço, mas não mudam nada. Outras, acreditando ser donas de alguns processos, não tem capacidade de autocrítica, de ver erros e pensar estrategicamente, então quando perdem o chão, não sabem o que está acontecendo ao seu redor. E assim poderíamos continuar... Contudo, o centro do problema está em que as forças anticapitalistas foram derrotadas culturalmente e enquanto essa realidade não for assumida e revertida, o capitalismo seguirá vitorioso com sua crise perpétua.

É uma pequena reflexão a partir da frase contundente de Žižek no debate mencionado. De qualquer modo, por mais pessimista que seja, nunca deixarei de lutar para mudar as coisas, para fazer o capitalismo retroceder, para que o trem exploda antes que passe por cima de nós. Enfim...

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