A crise brasileira e a dimensão de sombra

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31 Maio 2018

"A escravidão é a nossa maior sombra, pois durante séculos tratamos milhões de humanos trazidos à força de África como "peças", compradas e vendidas. Uma vez libertos, nunca receberam qualquer compensação, nem terra, nem instrumentos de trabalho, nem casa; eles estão nas favelas das nossas cidades. Negros e mestiços constituem a maioria do povo. Como mostrou bem Jessé Souza, o desprezo e ódio jogado contra o escravo foi transferido aos seus descendentes de hoje", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. 

Eis o artigo.

A crise brasileira generalizada, afetando todos os setores, pode ser interpretada por diferentes chaves de leitura. Até agora prevaleceram as interpretações sociológicas, políticas e históricas. Pretendo apresentar uma derivada das categorias de C. G. Jung com sua psicologia analítica pois é esclarecedora.

Avanço já a hipótese de que o atual cenário não representa uma tragédia, por mais perversas que continuam sendo as consequências para as maiorias pobres e para o futuro do país com o estabelecimento do teto de gastos (PEC 55). É mais que o congelamento de gastos, significa a impossibilidade de se criar um Estado Social e com isso jogar no lixo o bem comum que inclui a todos.

A tragédia, como mostram as tragédias gregas, terminam sempre mal. Creio que não é o caso do Brasil. Estimo que estamos no centro de uma incomensurável crise dos fundamentos de nossa sociedade. A crise acrisola, purifica e permite um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de nosso devir histórico. Sairemos da crise melhores e com nossa identidade mais integrada.

Cada pessoa e também os povos revelam em sua história, entre outras, duas dimensões: a de sombra e a de luz. Outros falam de demens (demente) e sapiens (sapiente) ou da força do positivo e a força do negativo, da ordem do dia e da ordem da noite ou do thanatos (morte) e de eros (vida) ou do reprimido e do conscientizado. Todas estas dimensões sempre vêm juntas e coexistem em cada um.

A atual crise fez aparecer as sombras e o reprimido por séculos em nossa sociedade. Como observava Jung o "reconhecimento da sombra é indispensável para qualquer tipo de auto-realização e, por isso, em geral, se confronta com considerável resistência" (Aion &14). A sombra é um arquétipo (imagem orientadora do inconsciente coletivo) de nossas nódoas e chagas e fatos repugnantes que procuramos ocultar porque nos causam vergonha e até despertam culpa. É o lado “sombrio da força vital”que atinge pessoas e inteiras nações, observa o psicólogo de Zurique.(&19).

Assim existem nódoas e chagas que constituem o nosso recalcado e a nossa sombra como o genocídio indígena em todo tempo de nossa história até hoje; a colonização que fez o Brasil não uma nação mas uma grande empresa internacionalizada de exportação e que, na verdade, continua até os dias atuais. Nunca pudemos criar um projeto próprio e autônomo porque sempre aceitamos ser dependentes ou fomos refreados. Quando começou a se formar, como nos últimos governos progressistas, logo foi atacado, caluniado e barrado por mais um golpe das classes endinheiradas, descendentes da Casa Grande, golpe sempre ocultado e reprimido como o de 1964 e o de 2016.

A escravidão é a nossa maior sombra, pois durante séculos tratamos milhões de humanos trazidos à força de África como "peças", compradas e vendidas. Uma vez libertos, nunca receberam qualquer compensação, nem terra, nem instrumentos de trabalho, nem casa; eles estão nas favelas das nossas cidades. Negros e mestiços constituem a maioria do povo. Como mostrou bem Jessé Souza, o desprezo e ódio jogado contra o escravo foi transferido aos seus descendentes de hoje.

O povo em geral segundo Darcy Ribeiro e José Honório Rodrigo, são os que nos deram o melhor de nossa cultura, a língua e as artes mas, como Capistrano de Abreu bem sublinhava, foi "capado e recapado, sangrado e ressangrado", considerado um jeca-tatu, um ignorante e por isso colocado à margem de onde nunca deveria sair.

Paulo Prado em seu Retrato do Brasil (ensaio sobre a tristeza brasileira, 1928) de forma exagerada mas, em parte, verdadeira, anota esta situação obscura de nossa história e conclui: “Vivemos tristes numa terra radiosa”(em Intérpretes do Brasil, vol.2 p.85). Isso me faz lembrar a frase de Celso Furtado que levou ao túmulo sem resposta: “Por que há tantos pobres num país tão rico?” Hoje sabemos o porquê: fomos sempre dominados por elites que jamais tiveram um projeto de Brasil para todos, apenas para si e sua riqueza. Como é possível que 6 milhardários tenham mais riqueza que 100 milhões de brasileiros?

A atual crise fez irromper a nossa sombra. Descobrimos que somos racistas, preconceituosos, de uma injustiça social de clamar aos céus e que ainda não nos foi possível refundar um outro Brasil sobre outras bases, princípios e valores. Daí a difusão da raiva e da violência. Ela não vem das maiorias pobres. Vêm difundidas pelas elites dominantes, apoiadas por meios de comunicação que conformam o imaginário dos brasileiros com suas novelas e a desinformação. Para Jung "a totalidade que queremos não é uma perfeição, mas sim um ser completo" (Ab-reação, análise dos sonhos e transferência & 452) que integra e não recalca, a sombra numa dimensão maior de luz. É o que desejamos como saída da atual crise: não reprimir a sombra mas incluí-la, conscientizada, no nosso devir, superando os antagonismos e as exclusões, para vivemos juntos no mesmo Brasil que Darcy Ribeiro costumava dizer ser: "a mais bela e ridente província da Terra".

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