Apka'i: “A gente conhece onde a gente pertence”, diz cacique Damiana Guarani e Kaiowá

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31 Maio 2016

Uma inabalável convicção marca o olhar e cada gesto desta mulher miúda. Miúda mesmo. A cacica Damiana Calvanhe tem menos de 1,40m de altura. No entanto, é fácil perceber que ela ocupa um espaço muito maior que o de seu corpo físico. Ela explica, em entrevista ao jornal Porantim, que seu nome indígena Ckunha Apyka Rendy’i significa “menina do banquinho iluminado”, sendo que o banquinho era o lugar onde o antigo Ñanderu sentava para conversar com os indígenas. Rezadeira e líder espiritual, ela também é a liderança política do povo Guarani-Kaiowá na comunidade de Apyka’i, localizada em Dourados, no Mato Grosso do Sul, e que sofre um dos ataques mais intensos do Estado brasileiro e de interesses privados para que não exista. Na 15ª Sessão do Fórum Permanente da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Questões Indígenas, ocorrida em Nova Iorque durante o mês de maio, Elizeu Guarani e Kaiowá (na foto ao lado) levou formalmente o caso Apyka'i e pediu ajuda do Fórum da ONU para que recomende ao Brasil a demarcação.

Cravada no sudoeste do estado brasileiro mais violento com os povos indígenas, Apyka’i fica às margens da BR 463 e, sem eletricidade e acesso à água, é uma das comunidades mais vulneráveis de todo o país. Depois do assassinato de seu pai, quando tinha 11 anos, ela presenciou a expulsão de seu povo do território tradicional. Entre retomadas e expulsões, Damiana convive com as permanentes ordens de despejo. Ao Apyka'i está sobreposta uma fazenda arrendada para a Usina São Fernando, de propriedade de um réu da Operação Lava Jato, o pecuarista e usineiro José Carlos Bumlai, cuja dívida com o BNDES e o Banco do Brasil chega a R$ 1,2 bilhão mesmo depois de decretada a recuperação judicial da usina em abril de 2013.

A mata foi destruída para dar lugar à expansão da criação de gado e da monocultura de cana e grãos. Liderando a resistência para retomar a terra à qual pertencem, dona Damiana testemunhou a morte de vários parentes: três filhos, um neto e o marido atropelados, e uma tia, também rezadeira, vítima da intoxicação por agrotóxicos, pulverizados maldosamente de um avião sobre o acampamento indígena. Agitando levemente o maracá feito por ela, dona Damiana mostrou, dentre outras revelações, que entende os limites da sociedade não indígena de compreender valores fundamentais da cultura de seu povo: “A gente sente a terra de outro jeito... A gente pertence àquela terra... não pode ir pra outro lugar. Como é que a gente vai pra um lugar que não é nosso?”.

Bastante ágil, do alto dos seus inacreditáveis 74 anos (idade totalmente desconsiderada por ela, que precisou recorrer a um documento para lembrar-se), a mirrada senhora torna-se uma gigante guerreira ao descrever como o seu povo tem resistido às desumanas condições de vida nas últimas décadas, entre a beira da rodovia e as plantações de cana, e os motivos que os fazem seguir, resilientes, na luta pela terra sagrada.

A entrevista é publicada pelo jornal Porantim e reproduzida por Conselho Ingigenista Missionário - CIMI, 27-05-2016. A tradução do Guarani é de Élson Canateiro Gomes, do povo Guarani-Kaiowá, da Terra Indígena Teyi'kue

Eis a entrevista.

Qual é a situação atual da Terra Indígena Apyka’i?

Antes tinha muito mato, rio, bicho de caça, pesca. Mas foram derrubando a mata para fazer lavoura, envenenando a terra e a água. Não tem mais bicho nenhum. Depois da morte do meu pai chegaram os fazendeiros dizendo que a terra era deles. Antes do pai morrer não tinha violência. A gente morava onde hoje é a fazenda. Tinha a ongu´su [casa de reza]. Meu pai era o grande líder do Apyka’i, cacique e rezador. Hoje eu sigo esses conhecimentos dele. Naquela época moravam umas 150 pessoas aqui e as casas eram de sapé. Os fazendeiros chegaram queimando as casas. A comunidade foi obrigada a sair depois da morte dos parentes e das muitas ameaças. Fomos para a beira da estrada, mas sempre voltamos para nossa terra, para Apyka’i. Estamos há mais de 20 anos na beira da estrada, esperando a demarcação.

Hoje a comunidade vive em uma retomada de parte do território tradicional?

Retomamos uma pequena área de mata, entre a cana e a estrada, mas estamos novamente ameaçados. Antes de vir pra cá teve mais uma ordem de reintegração de posse a favor do fazendeiro. Eu nasci e fiquei velha ali mesmo. Nunca saí. Fomos despejados cinco vezes e sempre voltamos. Agora é a sexta tentativa de tirar a gente de lá.

Como foram esses processos de despejo?

Sempre usam violência contra a gente. Já fomos despejados à força pelos seguranças da usina, quando queimaram tudo, nossos barracos, roupas... Naquela época não tinha o Cimi [Conselho Indigenista Missionário]. Às vezes, chegam atirando. Já veio jagunço disfarçado de polícia. Teve uma vez, na quinta, que foram expulsar a gente e nos recusamos a sair do local. Os produtores já jogaram veneno de avião, depois envenenaram o córrego de onde a gente bebe a água. Uma tia minha, que era rezadeira, idosa, morreu por causa do veneno do agrotóxico. Muitas crianças ficaram doentes, com coceira no corpo. Nossos animais domésticos, gatos, e de criação, galinhas, morreram. Fazem muitas ameaças, a perseguição é constante. 

Quantas pessoas da comunidade morreram atropeladas?

Até hoje foram oito. Eu perdi três filhos, um neto de 4 anos e o marido. Todos foram atropelados.

Esses atropelamentos sistemáticos são acidentais?

Não são acidentes. A gente sabe que é de propósito porque os funcionários que trabalham na usina conhecem toda a comunidade. Quando vamos para a cidade para vender os produtos da lavoura é que acontecem os acidentes. A polícia chega, faz o boletim de ocorrência, a gente conta tudo o que aconteceu, dá a descrição do carro, de como foi, tudo, mas até agora, nunca prenderam os assassinos. Os motoristas nunca prestam socorro. Sempre fogem. Uma vez foi o próprio ônibus da usina que atropelou o meu filho, Sidney. Na época, ele tinha 26 anos. Eles estão enterrados no cemitério na mata, dentro da fazenda, perto do acampamento. As cruzes estão lá.

Quantas pessoas moram no Apyka’i hoje?

Hoje no Apika’i tem quase umas 50 casas.

A comunidade continua sem eletricidade e acesso à água?

Os barracos são todos de lona. Só tem uma casa de sapé porque é difícil conseguir sapé hoje. Quando não chove a gente toma água limpa do córrego. Fica longe assim [aponta para um prédio a uns 300 metros]... Quando chove tomamos água suja. Muita gente fica doente, principalmente as crianças. Na cabeceira do córrego tem um pasto que quando o gado ou um cavalo morre eles são jogados mortos na água. Apodrece a água. Mesmo assim é esta água que temos que beber porque não tem outra. É a mesma água para cozinhar, lavar roupa tomar banho, higiene pessoal, pra tudo.

Ocorrem muitos casos de doenças? Vocês recebem algum tipo de atendimento à saúde?

As principais doenças são diarréia, devido ao consumo de água suja, e coceiras no corpo das crianças. A Funasa vai a cada 15 dias. Logo que alguém fica doente eu ligo para virem buscar, pra atender. Não tem agente de saúde em Apyka’i.

Como conseguem garantir alimentação para a comunidade?

Alguns de nós plantam, outros não. A gente tem muita rama (mandioca), feijão cantador, feijão comprido, feijão chopeu, macucu (batata). Quem não tem comida, a gente procura dar um jeito de conseguir. A Funai [Fundação Nacional do Índio] deveria entregar cestas básicas a cada 15 dias, mas há dois meses ela não leva. A gente tenta não deixar ninguém passar fome, mesmo que eu passe discriminação, preconceito, sempre acabo conseguindo. Se precisa, eu vou pra Dourados e peço doação em uma igreja lá.

Foram feitas investigações para descobrir os responsáveis pelos incêndios aos acampamentos?

Foram dois grandes incêndios. Um foi em 2009, quando os pistoleiros armados atacaram o acampamento, atirando em direção às casas. Um indígena [de 62 anos] foi ferido pelos tiro, outros foram feridos. Eles colocaram fogo no acampamento e nos nossos pertences. Foi tudo a mando dos fazendeiros. Era por volta de 1h da madrugada. A gente tava dormindo. Tinha acabado de construir o acampamento. Queimou barraco, roupa, queimou celular, bicicleta, tudo. Logo depois do despejo. Fizeram isso porque a gente queria pegar água, a gente pediu licença. Mas os seguranças [da fazenda] não deixam não. Teve outros ataques e ameaças e depois [em agosto de 2013], outro incêndio destruiu de novo tudo, os barracos, colchões, alimentos e nossas coisas. Começou de propósito no canavial da usina e foi pro acampamento. Ameaçaram matar a gente de novo. A polícia nunca prendeu ninguém.

Vocês continuam recebendo muitas ameaças?

Eles estão sempre tentando tirar a gente, de um jeito ou do outro. Não vamos sair mais, nem morrendo, porque queremos ser enterrados ali. Antes de vir pra cá quase aconteceu mais um acidente. Uma moto vindo da usina quase atropelou meu primo, quase passou por cima dele. Era um trabalhador da usina. Mesmo a gente andando no acostamento, eles vão pra cima quando vêem que é um índio que tá vindo. Às vezes, eles ficam de longe, rodeando o acampamento, observando o local. A gente liga pra Força Nacional, eles vão lá, dão uma volta, entram na aldeia e vão embora. A polícia vai para lá e faz o que interessa para usina. Agora a comunidade não tá querendo liberar para colher a cana porque já mataram muitos de nós e nada foi feito.

Para a senhora, qual é a principal diferença entre os indígenas e os não indígenas?

A gente não vive do jeito deles. Os brancos não gostam dos índios porque a gente não vive do jeito deles. E porque a terra sempre foi nossa. Em cima na nossa terra é que eles estão enriquecendo, construindo várias coisas na nossa terra. Antigamente tinha Ñanderu, nós somos geração depois dele. O Ñanderu Chiru Akandire, grande rezador, desapareceu embaixo de uma pedra, importante no Apyka’i. Aquela pedra se tornou um grande lago, daqui até aquele prédio [aponta para uma distância de uns 500 metros). A gente escuta ele fazendo reza, se movimentando. A gente sente a terra de um jeito diferente.

O que é mais importante na vida dos indígenas?

A união, a harmonia, o amor um pelo outro, plantar, colher, a reza, sempre, o canto, a dança, o Ñande reko [nosso jeito de viver]. Viver livre, com alimentação. Sempre vivemos assim. A reza em nós mesmos. O conhecimento está dentro de nós. A nossa reza que faz a gente chegar em todo lugar. A diferença é que nós, indígenas, temos respeito. Respeito por todo mundo. Não somos como os karaí [não indígena] que não respeitam nosso tekoha [lugar onde se é].

O que a senhora quer dizer quando afirma que o conhecimento está dentro de nós?

O conhecimento vem desde o princípio. Ñanderu transmitiu de geração para geração, através da linguagem, da reza, do canto, das histórias. A gente sabe. Ñanderu é aquele que canta, reza. Ele é um ser humano como nós, só que ele tem o poder de criar, fazer todas as coisas. Ele desapareceu, subiu pro céu. A ciência dos Guarani e dos Kaiowá é difícil de explicar. Precisa saber muito para entender. Ser profissional nessa área. Um caminho é o canto. Antigamente, todos os animais eram gente. Tem aldeias inteiras que somem. É difícil para entender com a cabeça. Mas o que temos hoje não é nosso mais. O branco tá passando muita coisa pra gente, mesmo nossos vestígios [pega na sua própria calça jeans e aponta para o seu tênis]. Antes não era assim. Nossos calçados eram feitos por nós, de plastilha. Uma espécie de borracha, toda cortada e atravessada. Meu pai usou uma até a morte dele. Ela continua lá, com ele, no cemitério.

Dinheiro é importante para vocês?

[balançando a cabeça, negativamente] Não.

Por que não? Vocês não precisam de dinheiro para viver?

Dinheiro acaba. A terra não. A terra dá tudo o que gente precisa. Ela tem toda a vida que a gente precisa. Terra é sangue do índio [ajoelhada, pega e esfrega a terra na mão]. Terra tem vida porque produz o alimento. A gente planta e colhe. Quem prejudica é o karaí, que estraga tudo, que faz adoecer a terra.

A senhora acha que um dia os brancos vão entender a relação dos indígenas com a terra, com a natureza, e vão agir de um modo diferente?

Tem pouca pessoa que se interessa sobre o nosso conhecimento. Para ensinar os brancos é importante que os nossos jovens aprendam português. É difícil o branco mudar porque é difícil ele aprender, porque ele não tem reza, não tem canto, continua prejudicando a terra. Ainda não entendeu. Nós temos rezas para as pragas. Os brancos têm veneno, veneno que fica na terra, na água, vai para os bichos e para as pessoas. Nunca vai entender.

Por que os fazendeiros agem com tamanha violência contra vocês?

Os fazendeiros querem acabar com a gente pra tomar nossas terras. Falam que a terra é deles, mas não é. Querem expulsar a gente. Querem tirar a comida, para plantar tudo com cana. Só querem dinheiro. Como nós respeitamos eles, não fazemos reza para prejudicar eles, como fazer fechar o sol, que vocês chamam eclipse. A gente ama todo mundo e por isso não faz o mal. Mas se não demarcar a terra e continuar morrendo... se fizer ritual para fechar o sol, morre muita gente. Podemos fazer tremer a terra. Fazer reza no rio, fazer vento forte.

O que o governo deveria fazer para o seu povo?

O governo não respeita, faz pouco caso com nós. E, por isso, tem culpa do que está acontecendo, as mortes, os tiros. Viemos aqui, de longe, pra tratar da homologação, da demarcação das nossas terras, mas não querem conversar. Governo tem que demarcar. Se tiver justiça, tem demarcação. Como nós vamos viver? Na rua? Pedindo comida para comer?

O que a senhora acha que vai acontecer com os povos indígenas no Brasil?

Corre o risco de morrer mais gente, a qualquer momento, de dia e de noite, até mesmo dormindo. Enquanto não demarcar as terras dos índios vai acontecer derramamento de sangue. A gente não tem segurança. A gente só vai conseguir o que é nosso de volta através desse movimento, de estar junto, de não desistir, e pelas nossas rezas. O branco se apodera pelo dinheiro, contrata pistoleiros pra nos matar. Nós temos nossos maracás, nossas bordunas. Esse é o nosso jeito de mostrar quem somos. A gente não pode desistir do nosso tekoha.

Por que, mesmo com tanta violência e sofrimento, sua comunidade continua lutando pela terra? De onde vocês tiram forças para seguir na resistência?

A gente pertence àquela terra. Meu pai morreu ali. O Ñanderu Akandire se escondeu lá, desapareceu lá. Meus filhos, meus parentes estão enterrados ali. Não é da usina. A terra é nossa moradia, da nossa família. A gente conhece onde a gente pertence, o que é nosso, verdadeiro. Por isso é que estamos lá. A gente não pode ir pra outro lugar. Como é que a gente vai pra um lugar que não é nosso? A maior dor que sinto nessa luta pela terra pras nossas comunidades e nossas crianças é saber que a qualquer hora podem nos matar e também no momento da morte do meu pai. A nossa força vem da nossa reza, do nosso canto, do maracá, do chiru (cruz que representa o Ñanderu, o corpo e a vida). Assim que ganhamos a força que precisamos para lutar pela nossa terra. Todos têm que seguir este caminho da espiritualidade. Hoje muitos não estão lutando. Comunidade está enfraquecendo por conta de algumas religiões que não dão força, que não querem mais as nossas rezas. Vamos retomar as terras com as nossas rezas. E com a nossa força. Ser indígena é viver nossa cultura.

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