Quer segui-lo? Por que se converter? (Lc 13,1-9)

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28 Fevereiro 2013

Deus não castiga... Se ele castigasse, ele seria um Deus perverso. Mas ele não castiga, mas também ele não pode recompensar. É somente nós que podemos fazê-lo e que temos essa responsabilidade. Eis aqui o porquê da conversão.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 3º Domingo de Quaresma. A tradução é de Susana Rocca.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
1a leitura: Ex 15,5-12.17-18
Salmo: 102,1-2.3-4.6-7.8.11
2a leitura: Fil 3,17-4,1
Evangelho: Lc 13,1-9

A cada ano, a partir do terceiro domingo de Quaresma, o tema se diversifica. No ano C, as passagens de Lucas se relacionam à conversão. Após o domingo da tentação e o da transfiguração, eis aqui o da conversão. À pergunta da quaresma deste ano: Quer segui-lo? Para respondê-la, é preciso responder às perguntas suscitadas pela primeira leitura e por este relato engraçado do evangelho que se vincula a dois fatos diferentes e que conta uma parábola: Quem é Deus? Será que Deus castiga? Por que se converter?

1. Quem é Deus?

Este trecho do livro do Êxodo que temos hoje é, sem dúvida, o texto central da revelação do Deus da Aliança. A experiência de Moisés no Sinai pode ter dado origem à lenda da sarça ardente, pois, em hebraico, sarça se escreve sênêh que estranhamente se parece com Sinai. Por outro lado, como diz o exegeta Alain Marchadour, esse trecho traz novidade sobre Deus: “Deus deixa de ser o Deus anônimo do sagrado, aquele que é venerado e temido. Ele deixa de ser o Deus arcaico dos começos que gera uma religião da nostalgia. Ele deixa mesmo de ser o Deus dos santuários, localizado e fechado nos lugares santos”. Deus define a si próprio pela palavra, pelo verbo ser que, em hebraico, implica a ideia de ação: ehyeh asher = ”Eu sou aquele que sou” ou “Eu sou aquele que serei” (Ex 3,14).

Perante o homem, Deus se deu a conhecer como alguém que tem um nome, que podemos chamar, com quem o diálogo é possível. Ao mesmo tempo, a sua presença deve, doravante, ser procurada na aventura humana, e na sua história quotidiana: ele é Deus com o ser humano; ele é presença atual e aberta ao futuro. Deus é relação; ele não pode ser sem nós e não pode fazer nada sem nós. Ele se apresenta a Moisés como o Deus fiel aos patriarcas do passado. Ele viu a desgraça do seu povo e ele quis intervir: “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos” (Ex 3,7). Também, ele pede a Moisés para lhe ajudar a liberar o seu povo: “Vai, eu te envio ao faraó para tirar do Egito os israelitas, meu povo“ (Ex 3,10).

Deus é, então, alguém que quer a vida, a liberdade, a justiça e a felicidade de todos. Como diz o Salmo 102 deste domingo: “ Ele perdoa suas culpas todas, e cura todos os seus males. Ele redime da cova a sua vida, e a coroa de amor e compaixão. Javé faz justiça e defende todos os oprimidos. Revelou seus caminhos a Moisés, e suas façanhas aos filhos de Israel. Javé é compaixão e piedade, lento para a cólera e cheio de amor” (S 102, 3-4.6-8).

2. Será que Deus castiga?

No tempo bíblico, acreditava-se que a desgraça que acontecia na vida de alguém, a doença e os acidentes do percurso eram castigos de Deus pelos pecados cometidos pelas pessoas ou ainda pelo entorno. No evangelho de São João, no episódio do cego de nascença, nós temos um belo exemplo desta triste realidade: “Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou seus pais?” (Jo 9,2). Eis a questão que os discípulos colocam para Jesus. Também, os dois exemplos trazidos por Lucas no evangelho de hoje trazem a mesma problemática: o assunto dos galileus que Pilatos fiz massacrar enquanto eles ofereciam um sacrifício (Lc 13,1) e a tragédia da queda da torre de Siloé que matou dezoito pessoas (Lc 13,4). No fundo, trata-se de punições divinas?

E então, ainda hoje, será que não se reage da mesma maneira quando acontecem certos dramas e tragédias no nosso mundo? Lembram da epidemia da Aids nos anos 1980? O terremoto no Haiti, três anos atrás? A pobreza de algumas pessoas? A doença de outras? Ouvimos, ainda hoje, algumas reflexões que nos fazem arrancar os cabelos da cabeça: como a Aids dizimou primeiro os homossexuais, eu ouvi pessoas dizendo que era Deus que enviava essa doença aos depravados sexuais para castigá-los. No Haiti, se a desgraça cai sobre eles é porque eles foram escravos, por causa de um pacto com o diabo que seus ancestres teriam feito. E quantas pessoas, ainda hoje, quando a desgraça lhes toca, falam para quem quiser ouvi-las: Que será que eu fiz ao Bom Deus para que me aconteça isto? Ou ainda: Deus aprova o que ele ama! É lamentável que se digam semelhantes coisas, mas esta é, ainda, infelizmente a realidade. E esse tipo de ideias é frequentemente dito por padres que interpretam literalmente alguns textos bíblicos. É evidente que se Deus recompensa as pessoas, ele deve necessariamente castigar também. É o que se chama a teologia da retribuição que é bem popular ainda hoje; ela é ainda contrária à fé cristã.

Na passagem de São João sobre o cego de nascença, Jesus responde aos discípulos: “Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele é cego para que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9,3). O que significa isso? Na Bíblia TOB (tradução francesa da bíblia ecumênica TEB), numa nota ao pé de página, diz-se que Jesus constata o fato da doença e quer agir, a fim de garantir a plena integridade para esse homem. No fundo, Deus é contra o sofrimento; ele quer aliviá-lo. E é através de nós que ele pode fazê-lo, daí a necessidade de nos convertermos. E no evangelho de hoje, Jesus fala em relação à massacre dos galileus: “Pensam vocês que esses galileus, por terem sofrido tal sorte, eram mais pecadores do que todos os outros galileus?" (Lc 13,2). A resposta é: Não! (Lc 13,3). E, em relação à queda da torre de Siloé, ele diz: “E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu em cima deles? Pensam vocês que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém?” (Lc 13,4). A resposta é ainda: Não! (Lc 13,5). Deus não castiga... Se ele castigasse, ele seria um Deus perverso. Mas ele não castiga, mas também ele não pode recompensar. É somente nós que podemos fazê-lo e que temos essa responsabilidade. Eis aqui o porquê da conversão.

3. Por que se converter?

Na massacre dos galileus, Jesus acrescenta: “Se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,3), e, no drama da torre de Siloé, ele diz: “Se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,5). Que quer dizer isso para um justo? O exegeta Jean Debruynne responde à questão. Ele escreve: “Por que Jesus lança essa frase terrível: ‘Se vocês não se converterem, perderão tudo!’ É que converter-se é mudar de vida, fazer uma mudança de vida. Será que isso não é verdade na realidade de hoje? Se vocês não se decidirem a mudar de vida, todos perecerão. Não porque Deus vai se vingar, mas porque se vocês continuarem a destruir a capa de ozônio, a poluir o mar, a envenenar os rios com o lixo, se vocês continuarem a desperdiçar a vida, a desrespeitar as pessoas, a desprezar o mundo... com certeza vocês vão gerar novos Pilatos e novos Hitleres que, de degradação em degradação, amanhã vão tratar os seres humanos como vocês tratam hoje as florestas e os rios. Se vocês continuam a pegar dinheiro para Deus, a economia para a religião e o proveito como única esperança, com certeza as torres de Siloé continuarão caindo porque se preferirá a rentabilidade à segurança, à proteção das pessoas”. (Lembrem do viaduto do Souvenir em Laval que colapsou e que matou um casal jovem que passava por baixo... A pesquisa determinou que o contratante quis economizar utilizando materiais menos caros e menos eficazes.)

Ainda hoje nós vivemos situações parecidas: em janeiro de 2010, o movimento de terra em Haiti, 7,5 na escala Richter, matou 200.000 pessoas. Um mês depois, em fevereiro de 2010, outro terremoto, esta vez no Chile: 8,8 na escala Richter, sendo cem vezes mais potente que o do Haiti, não causou mais que oitocentos mortos. No fundo, se os governos sucessivos do Haiti tivessem respeitado as regras das construções nas regiões sísmicas, não haveria tantas vítimas. Será que é Deus que castiga ou nós que nos castigamos a nós mesmos? Parece-me que a resposta a dar é fácil. É verdade que não é sempre tão claro: há, infelizmente, acidentes no percurso que não podemos evitar. Nestes eventos, alguns são mais desafortunados que outros e padecem as consequências, daí a importância de tomar consciência e de segurar essas pessoas nas suas provas... É isso a conversão!

No fundo, por que nos convertermos? Eu responderia bem simplesmente: para nos humanizarmos, isto é, colocar primeiro a pessoa humana antes do proveito ou dos interesses pessoais. É isso o evangelho e, além disso, o nosso Deus é paciente. Ele não castiga os responsáveis. Confia neles. Mesmo após três anos de esterilidade, isto é, do prazo do tempo da conversão, da mudança possível, quando os frutos tardam para chegar, ele continua a esperar que a figueira produza seu fruto: Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e pôr adubo. Quem sabe, no futuro ela dará fruto! Se não der, então a cortarás” (Lc 13,8-9)... Esperemo-lo! Pois Deus o espera!

Para terminar, conta-se que um mestre judaico espantava seus discípulos convidando-os a se converter na véspera da sua morte. Seus discípulos se opuseram dizendo: Mas como prevê-lo? Então, o mestre lhes respondeu: Convertam-se desde já, pois vocês não saberão jamais quando a morte virá vos surpreender...

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