Pragna Patel: Deixe-me explicar por que o fascismo é uma questão feminista

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05 Outubro 2018

Racismo ou sexismo? ”Estão interligados e devem ser combatidos juntos". O avanço da extrema direita? "Os movimentos das mulheres devem se opor a todas as formas de poder reacionário". Quem fala é a fundadora da Southall Black Sisters, a organização inglesa de feministas negras e asiáticas.

"Os movimentos de mulheres que não conseguem reconhecer o racismo e o fascismo como uma questão feminista não podem ser chamados de progressistas. A extrema direita, a intolerância, a discriminação de gênero são baseadas em uma ideia de desigualdade e exclusão que tira a voz e os direitos de homens e mulheres. Em nosso mundo globalizado e interconectado, a comunidade feminista deve transcender todos os limites. Agora, mais do que nunca, devemos reconhecer que um feminismo inclusivo, intersetorial e global é crucial para derrotar todas as formas de fascismo". Pragna Patel é a feminista inglesa de origem indiana no topo da Southall Black Sisters, a organização de mulheres negras e asiáticas fundada em 1979 em Londres. Movimento socialista, antirracista e secular. Ao qual se deve inclusive a histórica sentença com a qual o Tribunal de Apelação de Londres, no ano passado, condenou por discriminação uma escola islâmica em Birmingham que praticava uma rígida separação entre meninos e meninas (a organização foi constituída como parte civil do processo). Considerada uma das ativistas e intelectuais mais influentes do Reino Unido - em 2001 The Guardian a incluiu na lista das 100 mulheres mais importantes do país -, Patel em 26 de outubro será hospede em Forlì no 900Festival, o evento cultural patrocinado pela Fundação Alfred Lewin, que este ano investiga a natureza do racismo e da xenofobia.

A entrevista é de Natascia Ronchetti, publicada por L'Espresso, 01-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Sra. Patel, você considera o racismo e as discriminações de gênero como duas faces da mesma moeda. Por quê?

Estamos falando de formas de discriminação que buscam esmagar homens e mulheres para um status inferior, por um fator de raça ou gênero. É um erro grave supor que uma é mais importante que a outra: cometê-lo significa deixar muitas batalhas pela igualdade inacabadas. Devemos enquadrar políticas antirracistas que levem em conta as desigualdades de gênero e políticas feministas que levam em conta o racismo. Esse é o verdadeiro significado do termo interseccionalidade (cunhado pela primeira vez pela feminista americana e especialista Kimberlè Crenshow, ndr). Não deve existir uma hierarquia. A intolerância racial e o sexismo estão interconectados e se sobrepõem e nós precisamos combatê-los simultaneamente. Principalmente, hoje, em uma Europa onde o racismo e o fascismo estão em marcha, com a rendição à violência retórica e à violência populista contra a imigração.

A esquerda quase sempre lidou com essas duas questões separadamente ...

Infelizmente, sim. O triste é que muitos chamados movimentos progressistas antirracistas e feministas estão cometendo o mesmo erro. Se não conseguirmos reconhecer ou tornar explícitas as conexões entre os diferentes sistemas de poder e opressão, não poderemos avançar na luta pela igualdade e justiça social, uma vez que uma grande proporção de ações de discriminação permanecerá invisível ou piorará. A opressão se manifesta através de uma pluralidade de fatores.

Então o feminismo deve estar envolvido na luta contra o avanço dos partidos populistas e racistas?

Feminismo e políticas antirracistas falharão se não enfrentarem esses temas ao mesmo tempo. Tudo o que eles conseguirão será fortalecer, em vez de transformar, relações de poder desequilibradas derivadas da exploração e da opressão. A ascensão de partidos populistas, ultranacionalistas e racistas, não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos, é preocupante. Mas a questão que as feministas devem se perguntar agora é: podemos alcançar nossa liberdade se os outros não são livres? Minha resposta é que o feminismo deve abranger tudo, deve estender a solidariedade a todos os homens e mulheres que resistem a várias formas de assédio e abuso em uma variedade de contextos diferentes.

Você considera que o fascismo tenha várias faces ...

Sim. Estamos entrando em uma nova era, não apenas na Europa: estamos vendo uma normalização de impulsos reacionários fragmentados. O feminismo deve lidar com esse fenômeno. Mas é claro que seria um erro grosseiro pensar que baste simplesmente ter uma presença feminina maior nas posições de poder.

Por quê?

Historicamente sempre houve uma participação ativa das mulheres nos movimentos e partidos da direita. E figuras importantes como Marine Le Pen podem se tornar mitos perigosos. A realidade é que até o feminismo pode ter um rosto fascista. As mulheres que apóiam a extrema direita são atraídas pelos valores da tradição, da lealdade e do patriotismo. Mas atenção, porque a participação das mulheres em tais movimentos confere ao fascismo uma face feminista aceitável que mascara uma política extremamente patriarcal, racista e antidemocrática.

Você está convencida que também o fundamentalismo religioso é uma forma de fascismo ...

O fundamentalismo e o fascismo são ideologias e movimentos autoritários que tiram proveito da alienação e do descontentamento para obter ou consolidar o poder sobre pessoas e recursos. Os partidários de movimentos de extrema-direita denunciam o multiculturalismo, os imigrantes e os muçulmanos, enquanto os fanáticos fundamentalistas denunciam os chamados valores ocidentais, o feminismo, as minorias religiosas e aqueles que não aderem à sua visão de mundo. Ambos rejeitam a modernidade. Mas ambos usam tecnologias muito modernas. E ambos buscam um retorno a um passado, religioso ou nacionalista, baseado na percepção de uma crise de moralidade. Eles negam nossa humanidade comum e os valores da diversidade, do pluralismo, da solidariedade, da compaixão e da liberdade individual.

O que deveria fazer a Europa para deter a onda da extrema direita?

Forças progressistas feministas, antirracistas e socialistas devem se encontrar. Temos de nos comprometer com uma Europa firmemente democrática e secular. A secularização é uma condição essencial para afirmar a democracia, mesmo que sozinha não seja suficiente para sustentá-la. E sua defesa deve ir de mãos dadas com a promoção dos valores dos direitos humanos e um forte desafio ao racismo, especialmente contra os migrantes, aos quais grande parte da Europa tem vergonhosamente virado as costas. Essa tarefa é agora mais urgente do que nunca. Devemos isso às gerações que nos precederam e que sacrificaram suas vidas pela igualdade e liberdade.

O feminismo, concretamente, que contribuição pode dar?

Deve construir uma política de solidariedade para combater as forças reacionárias. Deve formar alianças derrubando toda divisão de gênero, de classe, de religião ou de raça. Isso significa adotar uma análise interseccional e uma prática política que inclua a todos. Os tempos são difíceis, mas não vejo alternativas.

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