“Devemos fazer nosso próprio balanço das experiências do passado”. Entrevista com Alain Badiou

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10 Julho 2017

O mundo caminha mal. A nova crise sistêmica do capitalismo depredador se transformou, agora, em uma crise de civilização que nos leva diretamente a nos dar contra a parede. As alternativas progressistas demoram a se afirmar no tabuleiro político, incapazes como são de engendrar verdadeiros movimentos emancipadores. Portanto, como enfrentar uma classe dominante organizada, decidida e que dispõe de todos os recursos?

Philippe Stroot e Raffaele Morgantini entrevistaram o filósofo militante Alain Badiou para que nos esclareça os novos desafios globais e os desafios futuros: a ideia do comunismo, a “crise” dos imigrantes, a esquerda e a direita, o papel dos meios de comunicação, a democracia...

A entrevista é de Philippe Stroot e Raffaele Morgantini, publicada por Rebelión, 01-07-2017. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Professor Badiou, os meios de comunicação gostam de lhe apresentar como o professor comunista francês, como se fosse uma espécie em vias de extinção. Em que ponto estão as ideias comunistas na França e no mundo, em 2017, cem anos após a Revolução de Outubro?

Acredito que a hipótese comunista e a experiência comunista estão em um estado de extrema debilidade em todo o mundo. E, como é natural, a França não é uma exceção. E estão mais ainda por ser objeto de confusões consideráveis. Por exemplo, o partido no poder na China segue se denominando “Partido Comunista”, embora claramente se trata de uma potência capitalista emergente, que se dispõe a disputar a hegemonia mundial com os Estados Unidos. Outro exemplo deste tipo de paradoxo: na França, temos um Partido Comunista que ainda subsiste, o PCF, mas que para além de seu nome nunca pronuncia a palavra “comunista”.

Pagamos o preço, inevitável historicamente, do fracasso dos grandes Estados comunistas. Mais concretamente, o fracasso do que se pode denominar o “comunismo de Estado”, ou seja, a hipótese segundo a qual é possível instalar o comunismo em uma figura cujo agente político principal (inclusive único, na lógica stalinista) é o Estado.

O comunismo de Estado se afundou em todo o mundo e, portanto, a hipótese comunista, no momento, está reduzida a si mesma, reduzida a seu status de hipótese política e histórica. Às vezes, afirmo que em virtude do desenvolvimento da história em espiral, como dizia Hegel, voltamos a uma situação que, de certo modo, assemelha-se com os anos 1840-1848, quando a hipótese comunista precisava ser formulada, argumentada e apoiada, antes até mesmo de que pudesse reivindicar ser uma grande força política e ter projetos estratégicos. Diante de um ceticismo muito forte, é preciso voltar a formular e trabalhar tudo o que diz respeito à palavra “comunismo”. Precisamos fazer o balanço dos fracassos, das debilidades e dos erros.

É possível compreender que muitas pessoas, inclusive com boa intenção, estejam tentadas a dizer que o mais simples seria abandonar qualquer uso, inclusive hipotético, da palavra “comunismo”. Mas, simplesmente, hoje, não vejo a que levaria abandoná-la, a não ser para, em definitivo, algumas formas diversas de adesão à ordem estabelecida. Não acredito ser cego ou teimoso ao afirmá-lo. Estou totalmente disposto a aceitar que outra hipótese possa ter uma virtude emancipatória superior, mas não a vejo. Desse modo, decidi conservar a palavra “comunismo”, dizendo-me que assumiria seu caráter escandaloso, desprezado e quase infame. Afinal de contas, não é totalmente natural que nossos amos, e a opinião dominante que eles controlam, declare infame aquilo que convoca a destruir as bases de seu poder?

Acaba de recordar que a China já não é comunista e tampouco a Rússia, apesar de a hostilidade do Ocidente para com eles ser pior, inclusive, que durante a Guerra Fria. Isto não demonstra que a luta contra o comunismo dissimulava, sobretudo, o ódio do Império e de seus vassalos a qualquer Estado que não se submeta a sua vontade?

Acredito que, com efeito, por trás do anticomunismo declarado há velhas rivalidades imperialistas. Eu mesmo fico muito surpreso com a atitude dos governos franceses, que são particularmente agressivos com uma Rússia que já não é em absoluto comunista. Sendo assim, fico bastante tentado a responder “sim” à sua pergunta, tento em conta, no entanto, que em razão de suas origens e sua argumentação, o anticomunismo desempenhou, apesar de tudo, um papel não desdenhável neste enfrentamento.

Durante décadas, entre 1917 e, digamos, 1989, houve um enfrentamento ideológico planetário que ao menos tinha a vantagem de manter com vida a existência de duas hipóteses concernentes ao futuro da humanidade: a capitalista imperialista e a comunista internacionalista. Atualmente, está absolutamente claro que a argumentação oficial do antagonismo com a Rússia de Putin é a oposição entre “democracias” e “ditadura”, em definitivo, entre capitalismo autoritário e capitalismo liberal, e já não é, em absoluto, a oposição ente capitalismo e comunismo. Portanto, retornou-se a esquemas que já eram clássicos no enfrentamento anti-imperialista no século XIX. Inclusive, durante a guerra de 1914, a propaganda anti-alemã era sobretudo uma propaganda segundo a qual nós éramos a República e os alemães eram Guilherme II, a velha monarquia, os bárbaros, etc.

Por último, acredito que o antagonismo entre capitalismo e comunismo, ou seja, a existência estratégica de duas vias a respeito do destino da humanidade, apesar de tudo, manteve-se vivo durante muito tempo, ainda que em parte tenha ficado sobredeterminado por alguns enfrentamentos anti-imperialistas que finalmente prevaleceram. No que se refere à situação atual, já não é possível justificar por meio do anticomunismo. Fica difícil pretender que Putin é um comunista convencido. Ao contrário, assistimos o retorno dessa antigualha que é a oposição entre, por uma parte, os Estados que se pretendem modernos, liberais e democráticos (ou seja, as cidadelas do imperialismo mundial) e, por outro, os países que, sem dúvida, estão totalmente envolvidos no jogo capitalista, mas que o Ocidente procura descrever como um tanto bárbaros. Assinalam assim os recém-chegados ao mercado mundial, que preocupam muito a um Ocidente cansado e que teme que sua hegemonia mundial se enfraqueça irremediavelmente.

Finalmente, o antagonismo com a Rússia de Putin e a China de Xi Jinping é, afinal de contas, o clássico antagonismo entre aqueles que estão bem situados na dominação global e aqueles que buscam conquistar um bom posto nela.

Foi assim (e não é muito tranquilizador, é preciso dizer) a relação da França e Inglaterra com Alemanha, no momento da guerra de 1914. A Alemanha desempenhava exatamente o papel de Putin hoje afirmando: “quero meu lugar, quero meu lugar em seus negócios e, sobretudo, em seus negócios coloniais”. E, então, o que se disse dos alemães é exatamente o que se diz, hoje, de Putin: horríveis, terríveis, bárbaros, etc. Hoje, a inquietação se apodera dos Estados do velho Ocidente imperial, sobretudo, dos mais fracos. A França faz parte destes Estados, já não é uma grande figura e a Inglaterra tampouco. Em duas guerras mundiais e dezenas de milhões de mortos, os Estados Unidos lhes roubaram o papel. Desse modo, estes Estados fragilizados estão particularmente preocupados, pois o que os recém-chegados ao mercado mundial e às operações guerreiras desejam é ocupar seu lugar, com a finalidade de se preparar para acabar ocupando o primeiro posto.

Evidentemente, toda esta cozinha neoimperialista está muito longe, é preciso dizer, da ideia da qual falávamos inicialmente, ou seja, da existência de duas vias estratégicas concernentes ao futuro da humanidade.

Os meios de comunicação dominantes equiparam a noção de soberania (que ressurge com vigor por todas as partes, tanto na esquerda como na direita) com o nacionalismo burguês e a xenofobia. Considera possível construir uma soberania a serviço dos povos? A soberania nacional é compatível com o internacionalismo? Cuba, por exemplo, não é ao mesmo tempo o país mais solidário do mundo e o mais independente politicamente?

Apresentam uma questão extremamente interessante e que é objeto de um grande debate atualmente. Em todas as partes, discute-se, sobretudo na extrema-direita e na extrema-esquerda, a respeito de um retorno à soberania nacional. O que quer dizer? No caso da França, seria o caso de já não depender nem da proteção militar e nuclear estadunidense, nem da solidez da economia alemã. As bandeiras são claras: sair da OTAN e sair tanto da União Europeia, como do euro. Não tenho uma opinião definida a esse respeito para saber quais serão, desse ponto de vista, os caminhos da hipótese comunista. Sem dúvida, sabemos que quando esta voltar a ganhar corpo e voltar a ser uma política desenvolvida, fará isto em alguma parte. Uma política nova não se estabelece logo como uma força mundial pré-constituída. Evidentemente, não se pode excluir que as novas orientações da política comunista estejam localizadas. Onde? Deixemos a pergunta em aberto.

Não obstante, o que afirmo sem a menor dúvida é que tudo se desdobra sobre uma soberania nacional que esteja totalmente separada da hipótese comunista e, inclusive, seja hostil a ela, só fazem o jogo de algumas forças nacionalistas reacionárias, inclusive, fascistas. Sendo assim, o posto-chave é o seguinte: sim, concordo, existe a possibilidade de uma localização transitória, inclusive nacional, de uma experiência de reativação das políticas de emancipação, mas com a condição expressa de que se inscreva explicitamente na hipótese comunista e, portanto, considere que seu futuro só está assegurado mundialmente. Vocês citam o exemplo de Cuba. Justamente, Cuba assumiu, à sua maneira, a hipótese comunista e a assumiu até o final. É, inclusive, o último Estado do mundo que a assumiu verdadeiramente até o final. Encontramo-nos assim diante de um caso, justamente de um país pequeno na boca do lobo, na boca do monstro, que apesar de tudo resistiu em sua independência e que segue resistindo, mas que agiu no elemento da hipótese comunista.

A respeito da crise dos imigrantes, é uma falta de solidariedade afirmar que é absolutamente necessário ajudá-los a viver corretamente em seus países, ao invés de fazê-los vir aos milhões para a Europa, reforçando este “proletariado nômade”, para retomar sua expressão, cujas condições de vida são cada vez mais precárias, inclusive nos países mais ricos?

É evidente que em longo prazo, estrategicamente, a grande questão é a da possibilidade de uma transformação libertadora dos países de origem. No segundo plano das migrações que denomino o proletariado nômade, esses milhões de pessoas que perambulam pelo mundo em busca de lugares para sobreviver, evidentemente, encontramos o fato de que um continente inteiro, África, está submetido à mais violenta depredação capitalista. Em última instância, sem dúvida, a verdadeira questão que estas imigrações delineiam é a do processo de emancipação e, consequentemente, o renascimento da hipótese comunista nos países concernidos.

A partir deste ponto de vista, eu esperava que a África do Sul pudesse desempenhar um papel dirigente em revolucionar a situação africana, mas não foi o caso. Na realidade, na África do Sul assistimos o advento de uma burguesia negra que compartilha o antigo poder dos coloniais brancos e que abandona as massas em sua pobreza e submissão forçada.

Sendo assim as coisas, outro aspecto da questão é que o capitalismo sempre se apoiou em um proletariado nômade. Conheci uma época, nas décadas de 1950, 1960 e 1970, em que se fazia vir aviões inteiros de operários de Marrocos e da Argélia. Atualmente, na França, provavelmente há entre 6 e 7 milhões, no mínimo, de operários, de filhos e filhas de operários, alguns dos quais, hoje, estão reduzidos ao estado de desempregados pela desindustrialização nacional, de quem é preciso afirmar que, efetivamente, são proletários e cuja origem nacional é tal ou qual país africano, do Oriente Próximo ou asiático... Estas pessoas, estas famílias, são proletários, existem e são daqui.

Portanto, penso que há dois aspectos em sua pergunta. Em primeiro lugar, é preciso apoiar e ajudar a tudo aquilo que possa significar empreender um processo político de emancipação e de libertação nos países dominados. É mais necessário que as libertações nacionais dos anos 1960, que com frequência foram mistificações. Em muitos países que foram colonizados, há governos “nacionais” que, na realidade, são agentes deste ou daquele imperialismo ou corruptos que se aproveitam das rivalidades anti-imperialistas. Contra tudo isto, é preciso levantar os movimentos progressistas aos quais apoiaremos.

Por outra parte, também devemos impedir as perseguições discriminatórias, racistas e de outro tipo a respeito das populações que estão aqui, às vezes, há muito tempo, às vezes, na terceira geração, e que não fizeram outra coisa a não ser realizar, em nível mundial, a clássica emigração do campo à cidade e do campesinato ao proletariado. Há dois aspectos concernentes a esta questão: um aspecto internacionalista e um aspecto nacional ou local, e é preciso levar em consideração ambos.

Sempre em relação à questão dos imigrantes, hoje, na Europa, é um desafio fundamental para os meios de comunicação de esquerda e progressistas. Em sua opinião, em que medida é importante articular a luta do “proletariado nômade”, abrigado na Europa, com as lutas sociais dos movimentos de esquerda? Quais são, em sua opinião, os desafios e obstáculos neste tema?

É preciso levar em consideração que, em certos aspectos, esta questão não é tão nova como parece. Vejamos, por exemplo, a história do proletariado francês no século XIX. Durante muito tempo, este proletariado foi constituído pelo que se pode denominar “migrantes nacionais”, que vinham de Auvérnia, da Bretanha ou do mais recôndito dos Pireneus, mas que os habitantes das grandes cidades consideravam imigrantes. A melhor prova é que tinham uma carteira de operário. Desde aquela época, existiu a questão dos documentos e dos operários sem documentos. Caso não possuísse essa carteira, a polícia podia enviar você de volta para o campo. Não se deve esquecer que esta questão foi a motivação direta da grande insurreição de junho de 1848, como consequência do fechamento das Oficinas Nacionais, fábricas nas quais estas pessoas trabalhavam. Tiveram que expulsar todas elas. Rebelaram-se e com a repressão do exército, tivemos um dos maiores massacres operários nas ruas de Paris.

As questões políticas são, muitas vezes, menos novas do que se acredita. A questão dos imigrantes não é outra coisa a não ser a ampliação, em nível mundial, do problema geral da procedência da força de trabalho operária. As pessoas já não vêm somente de Auvérnia ou da Bretanha, mas vêm da África, Oriente Próximo, Ásia, Europa central... Fogem, assim, das mortíferas guerras civis e procuram se proteger. A consideração progressista (nem sequer comunista, mas, sim, progressista) supõe, naturalmente, que se integrem nestas circunstâncias, ainda que sem abandonar o fato de que há em seus países problemas políticos da maior importância e que é necessário tratar. Neste ponto, concordo com vocês.

É preciso ser solidário em duas frentes. É uma máxima em minha opinião fundamental, a via pela qual o proletariado (incluído e inclusive, sobretudo, seu componente nômade) se constitui como força política em nossos países. Eu mesmo me ocupei muito das fábricas nos anos 1960 e 1970. Tratava com muitas pessoas marroquinas, argelinas, malineses, senegaleses, mauritanas... Nesse sentido, inclusive a criação de núcleos comunistas dentro das fábricas era, a seu modo, uma atividade internacionalista. E, além disso, também é preciso se mostrar solidário com estas pessoas no que concerne às lutas que ocorrem em seus países e nas quais poderiam participar.

Insisto no fato de que o proletariado sempre foi nômade em um sentido, porque a propaganda procura apresentar tudo isto (os refugiados, os velhos aposentados argelinos, os jovens desempregados de origem africana) como um fenômeno completamente novo, uma invasão do país por parte de pessoas às quais não se conhece, etc.

Passei minha infância em Toulouse, que era uma cidade povoada de proletários espanhóis que haviam fugido da guerra civil, quando os republicanos vencidos se acuaram no sul da França. Posso lhes afirmar que se dizia destes refugiados espanhóis, em sua maioria cristãos, exatamente o mesmo que se diz hoje dos marroquinos, dos sírios ou dos malineses, em sua maioria muçulmanos. Assim, por meio da opinião pública, em minha infância aprendi que os espanhóis não eram como nós, que eram uns bárbaros. O que mais se apresentava como prova do fato de que não eram verdadeiramente civilizados é que não sabiam o que era uma banheira e que acreditavam que era onde se colocava o carvão. São histórias significativas a respeito do racismo social. Hoje, afirma-se de bom grado que a prova de que os árabes são uns bárbaros é que suas mulheres e filhas utilizam um lenço na cabeça. Talvez estas mulheres desconheçam o que é uma boina ou um guarda-chuva?

Na realidade, a constituição do proletariado sempre foi problemática do ponto de vista da estupidez nacionalista, a mentalidade torpe e violenta das “identidades” que se acreditam superiores. Na Inglaterra do século XIX, outro exemplo, foram adotadas algumas leis extremamente ferozes a respeito do que se pode denominar os “migrantes interiores”. Qualquer pessoa que não pudesse dizer de onde vinha, para onde ia e por quê, podia ser aprendida pelo crime de vadiagem. Como mencionei, em nosso país existia a carteira de operário. Quando a situação econômica exigia, as pessoas eram devolvidas à sua pobre província.

Pois bem, isto é exatamente o que ocorre na França. Há décadas meu país sofre os efeitos no povo de uma desindustrialização amarga. Em uma vintena de anos, não mais, desmantelou-se o sistema geral das grandes fábricas que rodeavam Paris. Evidentemente, isto criou um desemprego generalizado, incluídos os jovens. Quando se tem uma pessoa cujos avós foram operários aqui e que ela própria nasceu na França, assim como seus pais, se a enviará ao sul de Marrocos? É completamente aberrante!

Todas estas velhas questões continuam sendo questões fundamentais do progressismo moderno e, é claro, da reconstrução de uma política comunista.

Em uma entrevista recente da jornalista Aude Lancelin, você afirmava em essência que as promessas não cumpridas eram consubstanciais à política. A solução não é o referendo revogatório, proposto por Jean-Luc Mélenchon e já aplicado em alguns países da América Latina, que permite questionar, por meio de um referendo, o mandato dos cargos eleitos que façam o contrário do que prometeram, como François Hollande, por exemplo?

Sim, seria interessante. No entanto, pode ser que apesar de tudo continue sendo um tanto intraparlamentar, um pouco demasiado ligado ao sistema eleitoral dominante. Seria apenas uma espécie de julgamento público das promessas não cumpridas. Além disso, é possível imaginar que seria organizado pela oposição. Por exemplo, seria muito estranho ver a direita francesa provocar uma votação com o tema “Hollande não cumpriu suas promessas”.

Mas, afinal de contas, o povo é quem decide se é ou não o caso...

Sim, mas o povo eleitoral é uma noção bastante confusa. Entre o povo eleitoral e o povo político há uma diferença capital. O povo eleitoral também é composto de muitas pessoas indiferentes ou submissas. Inclusive, são a maioria.

Estou totalmente de acordo em realizar uma campanha sobre o fato de que a promessa não cumprida é uma figura absolutamente constitutiva da vida política atual, e que se existe quem padece particularmente desta enfermidade, é a esquerda. Ao longo de minha história pessoal, tive contato de maneira quase sistêmica com as promessas não cumpridas do Partido Socialista. Entrei na política quando tinha 18 anos, porque em inícios de 1956 o Partido Socialista havia assumido o poder com o lema “Paz na Argélia”. Três meses depois, enviava para lá um contingente, realizava a guerra sem piedade, autorizava a tortura, etc., etc. Aquilo começou assim. Hollande pertence a esta família.

Justamente, quando pessoas como Hollande e Valls se pretendem de esquerda, ainda que não o sejam em absoluto, e não digamos já Macron, que afirma não ser nem de direita e nem de esquerda, não surge agora uma nova divisão entre os partidários do Estado e da propriedade coletiva (a verdadeira esquerda), e aqueles que querem privatizar tudo?

Evidentemente é o debate central e a razão pela qual, como dizia, de certo modo voltamos a uma época arcaica da existência da “esquerda” (caso se deva manter esta batida categoria eleitoral), posto que a questão da manutenção ou não da ditadura da propriedade privada volta a ser absolutamente central. É um critério imponente do que constitui uma orientação nova, ou seja, comunista.

É necessário reconhecer que a última existência formalmente aceitável da “esquerda” na França foi a eleição de Mitterrand, em 1981, porque o programa comum que unia os socialistas com os comunistas “ortodoxos” ainda era um programa muito crítico à propriedade privada. Continha algumas medidas bastante radicais como, por exemplo, a quase nacionalização da totalidade do crédito e dos bancos. É necessário enxergar nisso o efeito de uma última arrancada programática do Partido “Comunista”, antes de entrar em uma prolongada agonia.

Esta arrancada só durou dois anos, depois acabou. Isto ocorreu há quarenta anos. Depois, ninguém no espaço parlamentar propôs atacar o capital. Recordo que o próprio Jospin, primeiro-ministro socialista, havia respondido em um tom absolutamente altivo quando algumas delegações operárias vieram da fábrica Michelin, em vias de desindustrialização, para lhe pedir que nacionalizasse esta fábrica: “De todos modos, não voltaremos à produção administrada!”. Havia acrescentado que nem sequer era necessário falar disso. Desse modo, voltamos à época na qual finalmente esta ideia elementar, que estruturou a esperança comunista durante dois séculos e que consistia em afirmar que a tarefa prioritária era atacar a ditadura do capital e a propriedade privada, está completamente desaparecida do espaço parlamentar, há uns quarenta anos. Com efeito, qualquer política comunista deve voltar a situá-la no centro das discussões e dos processos organizados.

Gostaríamos de abordar agora a questão dos meios de comunicação. No momento em que a imprensa ocidental, controlada quase toda ela por bilionários, denuncia a desinformação que praticam todas aquelas pessoas que pensam de outra maneira e se dedica a fazer uma propaganda sem precedentes, tanto sobre questões internacionais como quando há eleições nacionais, como acabamos de ver na França. O que pensa você daqueles que dizem, agora, que os meios de comunicação são o segundo poder, depois das finanças, mas à frente dos poderes executivo, legislativo e judiciário?

Não é falso. No entanto, gostaria de especificar que entre os meios de comunicação e o poder político há mais uma relação de horizontalidade do que uma relação hierárquica, que subordine os políticos aos caciques da informação. Em definitivo, é evidente que apesar de tudo, os meios de comunicação sempre estão mais ou menos obrigados a assinalar sua clientela política favorita. Na França, por exemplo, jornais como Le Monde e Libération são obrigados a manter um verniz de centro-esquerda, no sentido parlamentar, não necessariamente no mesmo que você e eu lhe damos. Centro-esquerda quer dizer algo que se pareça com Macron ou, em todo caso, algo que vai de Macron a Hollande, passando por Ségolène Royal.

O poder midiático é um poder tão determinante que na França, singularmente, o grande capital comprou o conjunto de jornais de grande tiragem, a partir do que não podemos esperar deles a não ser que sejam favoráveis ao grande capital. Mas, no mesmo seio deste grande capital há divisões, porque o velho capitalismo mais familiar, mais provinciano, está vinculado à direita tradicional, aqueles que apoiavam Fillon e que estão muito vinculadas a esta orientação política. Por outro lado, é surpreendente ver que os grandes provedores de fundos de Macron são, ao contrário, pessoas como Niel, que pertence ao mundo do grande capital informático.

Sempre houve uma projeção política do fato de que diante de um capital arcaico, se configure um capital “moderno”, cujos paladinos consideram que seria arriscado para o próprio capital confiar cegamente em algumas tendências extremamente de direita, sobretudo no plano social, no plano da evolução dos costumes. De modo que a divisão midiática das opções políticas e, por trás delas, dos grandes capitalistas, não se refere em absoluto às questões gerais da gestão econômica, a propósito das quais evidentemente estão de acordo, mas sobre as questões sociais.

É absolutamente evidente que pessoas como Macron ou Hollande não veem inconveniente algum em que exista o casamento homossexual ou em que as mulheres sejam ministras. Consideram que vale mais ir nesta direção, que isso não supõe perigo algum para a ditadura do capital e que, inclusive, cria uma pequena clientela suplementar. Na minha opinião, é uma das razões da grave crise do partido de direita dominante na França. No fundo, Juppé representava uma saída semi-liberal, ao passo que Fillon deu um golpe de Estado no seio da direita, mobilizando, durante as primárias, o pessoal militante da manifestação anti-homossexual, o mais profundo da reação tradicional, do velho ‘petainismo’ burguês. Deu um golpe de Estado no interior do partido republicano e isso provocou a catástrofe geral e a necessidade de fazer surgir a Macron como boneco político “novo”.

Concordo que, atualmente, os meios de comunicação, os políticos e as finanças se encontram todos em um sistema de conexões extremamente estreito. Mas, acredito que também há capitalistas que consideram importante que a ditadura capitalista possa se apresentar como moderna e que não esteja muito estreitamente ligada às forças sociais exageradamente conservadoras, católicas, racistas, etc. Sendo assim, existe um conflito interno dentro da direita entre modernidade e tradição. Macron será eleito como “moderno”.

A propaganda midiática procura desacreditar aqueles a quem não gostam, utilizando indiscriminadamente termos negativos como “populismo”, mas também “ditadura”, “totalitarismo” e, inclusive, “terrorismo”. Você não acredita que atualmente vivemos em um regime caracterizado pelo totalitarismo do dinheiro, a ditadura dos mercados e, inclusive, o terrorismo das agências de qualificação contra certos Estados?

Sim, é claro, acredito que todas estas palavras depreciativas poderiam se voltar contra seus autores, sem a menor dúvida. Por exemplo, nota-se que alguns governos socialistas ordenam graves ações de discriminação policial. Eu mesmo, que desde minha mais terna infância luto contra os social-democratas, fiquei estupefato ao ver que as funções de Valls consistiram em nos explicar que um problema muito grave da França era o das pessoas nômades de origem romena! Era inimaginável! E que tivesse dado instruções para que destruíssem os acampamentos destas pessoas. Era essa a questão fundamental do novo primeiro-ministro socialista da França? Sem dúvida se pode aplicar a este Valls uma das palavras que vocês acabam de mencionar e muitas outras.

A logomaquia depreciativa utilizada pelos meios de comunicação poderia se voltar perfeitamente contra eles próprios e contra aqueles que são seus servidores. Seria necessário fazer com que a opinião pública deixasse de admitir este tipo de linguagem e vocabulário. Inclusive, critiquei o uso desenfreado da palavra “atentado”, porque na realidade o atentado dos anarquistas russos contra o czar, por exemplo, não tem nada a ver com os assassinatos em massa de alguns loucos. Acredito que a retidão da linguagem política, sua precisão, é algo que é necessário conquistar e salvar.

Ouvimos dizer que você não vota desde 1968, desenganado pela onda reacionária que seguiu aos acontecimentos de maio. Isto quer dizer que não acredita na possibilidade de uma verdadeira mudança por meio das urnas e qual solução alternativa preconiza, então, para buscar mudar o mundo?

Na França, o parlamentarismo se estabeleceu progressivamente no século XIX e sua vitória definitiva data da Terceira República, ou seja, de 1875. Desta data ao dia de hoje, que valor progressista ou que possibilidade de mudança efetiva o parlamentarismo pôs à ordem do dia? Baseou-se na repressão da Comuna de Paris em 1871. Foi aí onde os primeiros republicanos afiaram os dentes, por assim dizer, com 30.000 operários mortos nas ruas de Paris. Depois, realizaram as expedições coloniais mais ferozes de nosso país e comprometeram a França na guerra de 1914, gigantesco massacre onde se adotou o costume de contar os mortos por milhões, mas que não serviu de nada, uma vez que precisaram recomeçar vez vinte anos depois. Uma câmara republicana, eleita regularmente, é a que deu plenos poderes a Pétain. E minha juventude foi uma câmara socialista a que empreendeu a guerra da Argélia. Poderiam ser citadas muitas outras “façanhas” deste tipo, das quais a culpada foi nossa famosa República, seja já a da Terceira, da Quarta ou da Quinta. Por isso, não vejo interesse algum em estudar os projetos da Sexta República, propostos por Lordon ou Mélenchon.

Finalmente, no total, só vejo três aparentes exceções no um século e meio que puderam fazer acreditar, por um instante, que as eleições eram capazes de outra coisa.

A primeira é a Frente Popular, em 1936. Sua eleição suscitou algo de natureza muito diferente: a primeira grande greve geral de operários franceses. É necessário acrescentar que isso não é puramente eleitoral. E Blum, primeiro-ministro eleito, escreveu preto sobre o branco, que havia recebido esta greve “como uma bofetada”, ou seja, como algo que, com efeito, não obedecia às regras do jogo. A Frente Popular suscitou grandes esperanças, foram votadas leis sociais, mas aquilo terminou em 1937, ao final de um ano, havia acabado! Terminou em razão de algumas decisões deploráveis, como a de não intervir na guerra da Espanha ou coisas do estilo, ao passo que Blum anunciava, exatamente, como fará mais tarde Mitterrand, que era “a pausa”. E a pausa queria dizer o final. E esta mesma câmara, que havia votado as reformas de 1936, é a que em 1940 votou para conferir plenos poderes a Pétain. Esta é a primeira exceção.

A segunda exceção foi a câmara constituída após a Libertação, em 1944-1945. Então, tivemos um governo no qual participavam comunistas e uma burguesia francesa totalmente desacreditada por ter apoiado Pétain e a colaboração durante toda a guerra. Mais uma vez, foram aprovadas leis sociais, algumas das quais continuam em vigor ainda hoje, mesmo que questionem e, inclusive, estão em vias de ser eliminadas. Foram nacionalizados alguns setores cujos patrões haviam trabalhado com os nazistas, mas se começou a privatizá-los nos anos 1980. Esta experiência de 1945 se encerrou em 1947. Nessa data, os comunistas abandonaram o governo e acabaram ou enterraram as reformas.

O terceiro episódio se refere à eleição de Mitterand, em 1981, com um programa que, como disse, comportava, pela primeira vez, várias coisas importantes concernentes à propriedade dos capitais. Mas, apenas dois anos depois havia encerrado essa passagem anticapitalista. O governo Balladur desmantelou totalmente todo o programa da “esquerda unida”. E, que eu saiba, Miterrand em absoluto viu um possível motivo de demissão, por jogar abaixo tudo o que havia anunciado e começado a construir. E mais, posteriormente, não fez nada nessa direção, não voltou a nacionalizar nada, apesar de ainda ter permanecido onze anos no poder!

Desse modo, em primeiro lugar, constato que o regime eleitoral francês foi o autor, já foi com a esquerda ou com direita no poder, de uma sucessão ininterrupta de coisas espantosas. E, em segundo lugar, que no total houve três exceções, que duraram no máximo dois anos e cuja herança foi aniquilada totalmente. Portanto, não tenho razão alguma para acreditar que as eleições possam propor algo de positivo a um verdadeiro militante comunista. Não posso acreditar que um movimento eleitoral possa encarnar a existência de outra possibilidade, de outra estratégia. O parlamentarismo não é senão a fórmula política ajustada à dominação capitalista.

Sendo assim, retorno às minhas considerações iniciais: em primeiro lugar, é preciso formular claramente uma hipótese alternativa e, na sequência, é necessário organizar diretamente as pessoas em torno desta. Se em um determinado momento se considera útil entrar no jogo eleitoral, é uma questão de oportunidade, mas, claramente, só pode ser uma decisão tática, não pode ser uma decisão estratégica. Não se pode fazer com a esperança de que, como foram eleitas algumas pessoas, venceu-se a partida ou é possível vencer agora. Isto dependerá exclusivamente tanto do movimento de massas, e de seu nível de consciência e de pensamento, como da força de suas organizações. Pode-se utilizar a palavra “revolução”, caso se queira.

De qualquer modo, dependerá da política coletiva, da política organizada e das grandes revoltas operárias e populares, em uma escala cada vez mais internacional, porque o próprio capitalismo é internacional e, nesse aspecto, estamos atrasados em relação a ele. Ainda continuamos muito presos no nacional. Os grandes capitalistas estão cômodos em Shangai, San Francisco ou Buenos Aires, mas nós não o estamos tanto politicamente. E, em todo caso, acredito que é necessário acabar com o mito da democracia eleitoral, incluído na opinião pública e, sobretudo, nela.

Em seu último artigo, afirma que um dos elementos sem o qual nunca se poderá colocar fim a nossa atual servidão frente ao sistema capitalista é uma organização sólida, tendo como objetivo estabelecer os elementos constitutivos da via comunista. Afirma que isso representa um ponto vital na constituição de uma alternativa progressista válida em longo prazo. Em sua opinião, qual é o elemento central que falta às organizações da esquerda radical, dos comunistas, para garantir esta solidez organizativa de base?

É um problema complicado porque me parece que a maioria das organizações que mantém viva a hipótese comunista no mundo, fazem isto sem ter estabelecido completamente um balanço do fato no passado. Como se, de certo modo, elas garantissem uma continuidade. Esta continuidade pode ser uma continuidade stalinista, trotskista, maoísta, mas me parece que aquilo que falta (e faço esta repreensão para mim mesmo) é um balanço da experiência comunista do século XX, que seja um balanço progressista, ou seja, que não seja o mesmo balanço que o do inimigo, mas que também não seja a ideia de que podemos, pura e simplesmente, continuar.

Os Estados socialistas do século anterior não conseguiram estabelecer completamente a hipótese comunista e a tornar irreversível historicamente. Nós mesmos devemos tirar os ensinamentos deste fracasso, retendo também o que foi bem feito, inclusive o que foi notável. Pessoalmente, acredito que a Revolução de Outubro foi um acontecimento sem precedentes na história. É a primeira vez que se empreende a construção de uma sociedade que não esteja sob a ditadura da propriedade privada. Não se havia empreendido desde o Neolítico! Falo sério, é um projeto que não havia existido desde o Neolítico, porque a propriedade privada não é simplesmente o capital, a propriedade privada existe desde sempre, desde o surgimento dos Estados.

Sendo assim, é necessário continuar nesse sentido, extraindo do que ocorreu seu caráter criador e inovador. Mas, ao mesmo tempo, é necessário que prestemos contas a nós mesmos, e que prestemos contas às pessoas, das razões internas do fracasso. É claro, houve pressão externa, pressão capitalista, o que não impede que tudo tenha se desmoronado e temos que saber o porquê. É necessário que aqueles que continuam saibam o porquê e que, portanto, encontrem suas próprias razões para continuar sabendo o que ocorreu realmente, propondo-o e o explicando às pessoas. Pois bem, é evidente que tudo isto gravita em torno da questão do Estado. Acredito que, em certo sentido, estas empresas foram contrárias à hipótese geral marxista que era a de uma decadência do Estado. Foram empresas violentamente estatais que compreenderam a ditadura do proletariado como a ditadura do próprio comunismo, o que em absoluto é o mesmo. Sendo assim, acredito que devemos ter nossa própria consciência histórica.

Sobre esse ponto, o segundo episódio sem precedentes na história é a Revolução Cultural na China. Por quê? Porque, justamente, colocou na ordem do dia a questão do comunismo em sua difícil relação com a do poder do Estado. Durante anos, a juventude estudantil e milhões de operários atuaram, pensaram e escreveram em uma desordem extrema, mas extremamente mobilizadora para retificar o curso das coisas e animar o futuro comunista. Finalmente, fracassaram, mas é imperativamente necessário partir de sua experiência.

Hoje em dia, o que domina a opinião pública e, de fato, uma opinião submissa ao tempo que inquieta, é que interiorizou um “balanço” do comunismo feito por aqueles que sempre foram inimigos jurados do comunismo. Este suposto balanço se resume em uma máxima: “Não existe uma política comunista, não existiu e nunca existirá”.

Pois bem, veremos.

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“Devemos fazer nosso próprio balanço das experiências do passado”. Entrevista com Alain Badiou - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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