A mística e a heresia. Entrevista especial com Rodrigo Coppe Caldeira

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10 Janeiro 2011

Em nove edições, o Seminário de Mística, que ocorre anualmente na Universidade Federal de Juiz de Fora, tem abordado a mística e o diálogo inter-religioso. Idealizado pelo Prof. Dr. Faustino Teixeira, o mais recente evento, que se encerrou em dezembro do último ano, debateu a relação entre a mística e a heresia. Rodrigo Coppe, professor de Cultura Religiosa, acompanhou o seminário e conversou conosco sobre as principais discussões que aconteceram no evento. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Coppe fala da importância da mística para as religiões no momento atual.

Rodrigo Coppe Caldeira é graduado em História pela PUC Minas, onde é atualmente professor. Realizou mestrado e doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode nos contar um pouco sobre as principais discussões que ocorreram no seminário?

Rodrigo Coppe – O Seminário de Mística tem na pessoa do professor Faustino Teixeira (UFJF) o seu idealizador. É o nono ano que acontece e reúne no antigo seminário da Floresta, em Juiz de Fora, inúmeros estudiosos de mística comparada do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica São Paulo.

Bem. Nos três dias de discussões do seminário de 2010, a perspectiva que norteou a reflexão foi em torno da temática “mística e heresia”, ou seja, os antagonismos que sempre surgem na relação daquele que faz a experiência “fruitiva do Absoluto” ou de suas manifestações, como afirmava Jacques Maritain [1], e a instituição religiosa, com seus mecanismos que visam colocar o carisma da experiência sob seu controle exclusivo. Assim, rapidamente, Luiz Felipe Pondé [2], na sua conferência de abertura – intitulada de “Mística, heresia e aristocracia espiritual” – tratou a temática a partir da leitura de Esprit et liberté de Nikolai Berdiaev [3]. A fim de trabalhar com o conceito de “aristocracia espiritual” do pensador russo, Pondé visou abordar o discurso místico como impacto político. Para o filósofo, o místico desqualifica a instituição, na medida em que ela se mostra como uma herança patrimonial.

Destaco também mais dois momentos: a da comunicação do professor José Carlos Michelazzo [4] que

Shizuteru Ueda

refletiu sobre os impactos do discurso filosófico heideggeriano no estudo da mística comparada. Ele também fez alguns apontamentos sobre a chamada “Escola de Kyoto”, especialmente do filósofo Shizuteru Ueda [5], que faz uma aproximação do zen com o pensamento de Mestre Eckhart. A conferência de Faustino Teixeira – “Teilhard de Chardin e a diafania de Deus no universo” – trouxe aos participantes vários detalhes da perspectiva teológica teilhardiana e os inúmeros percalços que o jesuíta enfrentou devido às desconfianças e inúmeras barreiras levantadas pela instituição à sua atuação intelectual. Faustino apresentou toda a sua turbulenta história e destacou os momentos mais decisivos. Além desses momentos, cabe também destacar a comunicação do professor Dillip Loundo [6] – “Em torno da Bula ‘In agro Dominico’”, aquela que condenou algumas das premissas do pensamento de Eckhart.

IHU On-Line – Qual a importância da mística para as religiões hoje?

Rodrigo Coppe – Foi possível perceber nos debates que a mística se publiciza cada vez mais, seja no campo propriamente acadêmico, seja no campo das publicações não acadêmicas e também nos media.  De fato, a pergunta que se faz é se a mística tem uma validade no mundo contemporâneo, para as religiões desse mundo. O contexto religioso atual é marcado por fanatismos e radicalismos sangrentos, por interesse crescente por diversas formas de espiritualidade, sejam elas tradicionais ou até mesmo seculares (vide O espírito do ateísmo, de Comte-Sponville [7]), por trânsito religioso sem precedentes.


"Não existe diálogo sem uma noção do que se é e acredita"

Uma das necessidades prementes nesse contexto é o diálogo inter-religioso, campo em que a mística pode colaborar enormemente a partir das aproximações entre os inúmeros discursos místicos advindo das diferentes tradições. Fato é que a aproximação das tradições – mesmo pela via da mística – não pode se dar a partir de um “esquecimento” do que as diferencia. Não existe diálogo sem uma noção do que se é e acredita. Assim, por exemplo, para Faustino, partindo do pensamento do teólogo indiano Michael Amaladoss [8], a experiência mística, presente em inúmeras tradições religiosas, nunca deve ser compreendida como uma mesma experiência, o que não significa ipso facto a impossibilidade do encontro e da partilha. Além disso, podemos assinalar mais um ponto: o fato de que as experiências místicas representam, in totum, a limitação do ser humano diante dos mistérios insondáveis do ser.

Quando, por exemplo, lemos em um dos apotegmas de Evágrio Pôntico [9] que “a inteligência, acostumada a limitar-se a conceitos, é então facilmente subjugada; aquela que tendia à gnose imaterial e sem forma, deixa-se iludir e pensa que a fumaça é luz”, estamos diante de uma crítica – que pode ser – aos nossos apegos conceituais, que corriqueiramente não leva em conta que a realidade é muito maior e mais complexa do que nossas possibilidades cognitivas.

Assim, num mundo como o nosso, cheio de respostas prontas, de visibilidade, de aparências, que visa a todo tempo evacuar a dor, o sofrimento e a morte – como se isso fosse possível – talvez uma certa consciência da impossibilidade de abarcar o real e o silêncio que surge dessa experiência, possa ser um caminho de crítica a esta situação.

IHU On-Line – Quais os principais desafios que a mística comparada enfrenta hoje?

Rodrigo Coppe – Os desafios estão no olhar atento dos estudiosos sobre questões que sempre acompanham as perguntas fundamentais dos homens, como o grande mistério da alteridade e da proximidade, o que une e o que separa as diversas tradições místicas, e, consequentemente, quais os caminhos abertos pela mística comparada para a promoção do encontro entre as diferentes religiões. Além disso, pode ser vislumbrado também como um desafio, as novas interpretações das inúmeras experiências místicas através dos tempos, buscando nelas matéria para lermos o mundo sob novas maneiras.

Para o cristianismo, o desafio da mística comparada está na possibilidade de um aprofundamento de uma questão central, que no caso da Igreja Católica do século XX, especialmente em seu momento de auge, com o Concílio Vaticano II (1962-1965), já vinha sendo consubstanciada: a possibilidade de uma experiência autêntica do Absoluto nas diversas tradições religiosas e, de que forma, como se perguntou Maria Clara Bingemer [10] em um de seus textos, elas influenciaram, e continuam influenciando, nas configurações da experiência mística cristã.

IHU On-Line – Em que medida as grandes correntes místicas do islamismo contribuem para a pesquisa na área do diálogo inter-religioso e da mística comparada?

Rodrigo Coppe – A mística islâmica é uma grande fonte de estudos e de possibilidades de pesquisa. Porexemplo: as palavras do místico sufi Djalal-ud-din Rûmî [11] afirmando que “é impossível termos aqui uma única religião” e que se os caminhos são distintos, mas “o objetivo é um só” e as já conhecidas de Ibn ‘Arabi (1165-1240), que professava: “Meu coração tornou-se capaz de todas as formas:/É um pasto de gazelas, o convento do cristão,/Um templo para os ídolos, a Caaba do peregrino,/ As tábuas da Tora, o texto do Corão./ Sigo a religião do Amor./Para onde quer que avancem as caravanas do Amor,/Lá é meu credo e minha fé”, apresentam um islã muito diferente do que somos acostumados a ver no mundo ocidental, e, posteriormente, muito profícuo no caminho do encontro e partilha entre ele e as diversas tradições, sejam abraâmicas ou não.

"A pergunta tem um fundo epistemológico que se substancia na seguinte questão: existe algo que perpassa de forma horizontal e homogênea as experiências místicas?"

Para Faustino, uma das grandes contribuições da mística sufi, em suas diversas correntes e escolas, é a “afirmação da proximidade essencial das distintas experiências de fé” – como podemos ver nas palavras dos místicos acima citados – que “é um traço recorrente do sufismo”. Para o teólogo, o que Ibn ‘Arabi nos aponta é para a ideia de que “não se pode tomar o ‘Deus das crenças’ como o Deus transcendente e infinito. Este último manifesta-se em todo o lugar, inclusive nas crenças alheias”.  Podemos citar como um recente exemplo de estudo de mística comparada no Brasil a tese de doutorado de Carlos Frederico Barboza [12], “A mística do coração: a senda cordial de Ibn Arabi e João da Cruz”, editado pelas edições Paulinas.

IHU On-Line – Podemos dizer que as diversas tradições místicas são plurais em seus objetivos, práticas e discursos?

Rodrigo Coppe – A pergunta tem um fundo epistemológico que se substancia na seguinte questão: existe algo que perpassa de forma horizontal e homogênea as experiências místicas? Uma experiência de fundo que perpassa todas elas, nas mais diversas tradições? Pode-se falar, como Frithjof Schuon [13], em uma “unidade transcendente das religiões”?

Claro que esta é uma questão sem uma única resposta, na medida em que os estudiosos se questionam sobre as diversas perspectivas epistemológicas, como o perenialismo – com os nomes mais conhecidos são Aldous Huxley [14] e o já citado Frithjof Schuon – e a abordagem contextualista, que acentua não uma identidade entre as religiões, mas as suas diferenças. A experiência mística não é possível escapar da dinâmica da interpretação e das suas raízes culturais, tradicionais e históricas. Assim, se seguirmos mais de perto os contextualistas, podemos responder afirmativamente: sim, as tradições místicas são plurais em seus objetivos, práticas e discursos.

IHU On-Line – Que provocações a mística apresenta para as propostas de abertura inter-religiosa?

Rodrigo Coppe – É na mística e sua dimensão de gratuidade e de provocação permanente à abertura que se encontram as suas contribuições para o diálogo inter-religioso. O místico, a partir do momento que faz uma experiência profunda do mistério silencioso, mas sempre cheio de significado, da existência, move-se e comunga “para além das fronteiras de sua inserção particular”.

Notas:

[1] Jacques Maritain foi um filósofo francês de orientação católica. As obras deste filósofo influenciaram a ideologia da chamada democracia cristã.

[2] Luiz Felipe Pondé é mestre em História da Filosofia Contemporânea, pela Universidade de São Paulo (USP), e em Filosofia Contemporânea, pela Université de Paris VIII. É doutor em Filosofia Moderna, pela USP, e de pós-doutor, pela University Of Tel Aviv, em Israel. É autor, entre outros livros, de Conhecimento na desgraça. Ensaio de epistemologia pascaliana (São Paulo: EDUSP, 2004) e Crítica e profecia, filosofia da religião em Dostoiévski (São Paulo: Editora 34, 2003). É professor da USP, pesquisador Université Catholique de Louvain, na Bélgica, articulista do jornal Folha de S.Paulo, professor da PUC-SP e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo.

[3] Nikolai Berdiaev foi um filósofo russo cujas profundas convicções religiosas e sua oposição ao autoritarismo marcaram sua obra e sua vida.

[4] José Carlos Michelazzo é graduado em Filosofia pela Universidade de Mogi das Cruzes e em Psicologia pela Faculdades de Educação e Cultura do ABC. Realizou mestrado em filosofia na Pontifícia Universidade de São Paulo e o doutorado, na mesma área, na Universidade Estadual de Campinas. É pós-doutor pela PUC-SP. É professor no Centro de Psicoterapia Existencial.

[5] Shizuteru Ueda é um filósofo japonês especializado em filosofia da religião. É filho de um sacerdote budista. Estudou filosofia na Universidade de Kyoto, onde o seu mentor Keiji Nishitani orientou seus estudos para os místicos medievais. Sendo um praticante Zen, Ueda estudou o budismo Zen sob as categorias filosóficas da filosofia ocidental.

[6] Dillip Loundo é professor do Departamento de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora.

[7] André Comte-Sponville é um filósofo materialista francês. Por muito tempo foi professor assistente da Universidade de Paris I: Panthéon Sorbonne, da qual se demitiu em 1998 para dedicar-se completamente a escrever e proferir conferências fora do circuito universitário. Desde 2008 é membro do Comitê Consultivo Nacional de Ética do seu país. Ele utiliza o referencial de Jean Paul Sartre, que já havia dito que "todos somos responsáveis por todos" e de Dostoievsky, "somos todos responsáveis por tudo, diante de todos".

[8] Michael Amaladoss é diretor do Instituto para o Diálogo com Culturas e Religiões, em Chennai, na Índia. É doutor em Teologia Sistemática pelo Institut Catholique de Paris, na França, além de professor de Teologia no Vidyajyoti College of Theology, em Nova Déli, na Índia. É autor de diversos livros sobre espiritualidade e diálogo inter-religioso.

[9] Evágrio Pôntico foi um escritor, asceta e monge cristão. Dirigiu-se ao Egito, a "Pátria dos Monges", a fim de ver a experiência desses homens no deserto, e acabou por se juntar a uma comunidade monástica do Baixo Egito. Seguidor das doutrinas de Orígenes, foi por diversas vezes condenado – de fato, Evágrio teve importante papel na difusão do Origenismo entre os monges do deserto egípcio, tendo-se tornado líder de uma corrente monástica origenista. Apesar disso, Evágrio trouxe um aspecto positivo para a Igreja. Da sua vivência com os monges, traçou as principais doenças espirituais que os afligiam – os oito males do corpo; esta doutrina foi conhecida de João Cassiano, que a divulgou pelo Oriente; mais tarde, o Papa Gregório Magno também ouviu falar nela e adaptou-a para o Ocidente como os sete pecados capitais e reduzindo de 8 para 7.

[10] Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pesquisadora da vida e obra de Simone Weil tem, em sua obra, o livro Simone Weil: A força e a fraqueza do amor (Rio de Janeiro: Rocco, 2007). Organizou e publicou pelas editoras Paulinas e PUC-Rio, Simone Weil e o encontro entre as culturas (São Paulo/ Rio de Janeiro: Paulinas/Editora PUC-Rio, 2009).

[11] Mawlānā Jalāl ad-Dīn Muhammad Rûmî herdou de seu pai, um conhecido teólogo e mestre espiritual, o interesse pelas questões teológicas e místicas. Decisivo na sua vida foi o encontro com o dervixe errante, Shams al-Dîn Tabrîzî, no ano de 1244. Foi o encontro de dois oceanos espirituais. Shams foi para Rûmî uma real “manifestação teofânica”, inspirando profundamente toda a sua produção poética e mística posterior. Rûmî faleceu em 1273, em Konya, onde se encontra o seu mausoléu, que é ainda hoje lugar de intensa peregrinação. Dentre suas produções, encontram-se o grandioso Mathnawî, em seis volumes, e também o tratado em prosa Fihi-ma-fihi (o livro do interior), as Cartas (Makâteb), além da significativa produção poética: as odes místicas, conhecidas como Dîwân-i Shams, e as quadras de amor, Rubâ´iyât. A edição 222 da Revista IHU On-Line foi dedicada ao poeta e místico.

[12] Carlos Frederico Barboza é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É professor no Centro Loyola de Fé e Cultura e da PUC Minas.

[13] Frithjof Schuon foi um metafísico, filósofo das religiões, poeta e pintor, principal porta-voz da Filosofia Perene, juntamente com René Guénon.

[14] Aldous Huxley foi um escritor inglês. É considerado o pioneiro do "romance cerebral".

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