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Espiritualidade » Comentário do Evangelho

DOMINGO 14 DE AGOSTO Evangelho de Mateus 15, 21-28

Jesus saiu daí, e foi para a região de Tiro e Sidônia. Nisso, uma mulher cananéia, que morava nessa região, gritou para Jesus: «Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio.»
Mas Jesus nem lhe deu resposta. Então os discípulos se aproximaram e pediram: «Manda embora essa mulher, porque ela vem gritando atrás de nós.» Jesus respondeu: «Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel.»
Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus, e começou a implorar: «Senhor, ajuda-me.» Jesus lhe disse: «Não está certo tirar o pão dos filhos, e jogá-lo aos cachorrinhos.»
A mulher disse: «Sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.»
Diante disso, Jesus lhe disse: «Mulher, é grande a sua fé! Seja feito como você quer.» E desde esse momento a filha dela ficou curada.

(Correspondente ao 20º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico).

 

 

 

Escutar Deus onde a vida clama

No domingo passado vimos como Jesus dominava as forças do mar. Porém, nas suas andanças pela sua terra natal, ele também fez uma coisa ainda mais difícil. Ele ultrapassou fronteiras humanas, fronteiras de raça, religião e preconceito.

A história de Cananéia, narrada no evangelho de hoje está cheia de detalhes que podemos refletir.

A região de Tiro

Tiro é uma cidade com ambição de domínio e com grande poder. Desde sua origem até o período romano, havia uma luta do povo fenício sobre as terras da Galileia. Tiro pode ser considerada uma cidade rica e economicamente estável. Mas, ao lado desta realidade, também há pobreza. O diálogo acontece entre os pagãos e os judeus.

Jesus anda em território pagão, perto de Tiro e Sidom. Nesse lugar é normal encontrar-se uma mulher "cananeia". Ela mora numa região de pagãos. Eles não são semitas, não são israelita nem seguem a religião judaica. Mas ela chama Jesus de "Filho de Davi", que é o título messiânico israelita por excelência. Podemos pensar que ela está tão profundamente angustiada que se humilha até invocar o Messias dos israelitas. "E partindo dali foi para a Região de Tiro..." (7,24a).

A mulher identificada é designada como Cananeia. Podemos pensar que ela esta tão profundamente angustiada que se humilha até invocar o Messias dos israelitas. Seu amor de mãe pela sua filha a leva a quebrar as possíveis fronteiras da sua tradição e das brigas dos povos na procura da saúde de sua filha.

A insistência da Mulher e as reações de Jesus e dos discípulos

Mateus descreve com muito mais detalhes o gradativo clamor da mulher e as diferentes reações de Jesus e dos discípulos. O grito da mulher pede a compaixão de Jesus reconhecido como Filho de Davi. Ao seu clamor que expressa a solidariedade entre mãe e filha, Jesus fica em silêncio e nada responde (Mt 15, 23). Será indiferença ou presença silenciosa e reflexiva? O silêncio também faz parte da aproximação para um verdadeiro encontro, quando as diferenças são muito grandes.

Os discípulos ficam bravos com a mulher. Querem afastar o grito porque ele incomoda: "Despede-a, porque vem gritando atrás de nós" (Mt 15,23). Eles querem que Jesus mande-a embora para que não os incomode mais. Jesus parece pensar em voz alta e Mateus coloca em sua boca a mentalidade dos judeus da época, através de uma compreensão exclusivista da missão: "Eu não fui enviado senão para as ovelhas perdidas de Israel" (Mt 15, 24). Diante da insistência do grito da mulher, a resposta de Jesus é muito dura e difícil de entender. Para isso, é preciso entrar em sua atitude pedagógica, destinada aos discípulos e também à mulher.

Ele insiste no seu messianismo israelita: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas de Israel" (Mt 15,24). E era verdade mesmo: Jesus foi mandado a um povo pequeno, para realizar uma esperança limitada nos seus termos – ele é o Messias de Israel.

Jesus não a rejeita, mas a provoca para uma maior confiança. Ele vai pedir que ela transgrida as fronteiras de suas próprias ideias. As fronteiras que tinham marcado dentro do seu coração e de seus conceitos.

A mulher volta a insistir. Seu grito agora é acompanhado por um gesto de aproximação maior. Prostrando-se de joelhos implora: "Senhor, ajuda-me" (v. 25). "Não fica bem tirar o pão dos filhos para atirá-lo aos cachorrinhos" (Mt 15, 26). Os judeus se consideravam filhos de Deus e diziam que os estrangeiros não eram dignos da bênção divina.

A mulher pagã ajudou Jesus a compreender que ele era enviado de Deus não só para os judeus, mas para toda pessoa humana de todas as culturas e tempos; o que é uma alusão à profecia do Servo de Javé (Is 49, 1-6). A mulher assumiu sua condição de "cachorrinho" com grande esperança; não aceitou as condições que a deixavam excluída da vida, mas quebrou as fronteiras que a discriminavam.

Jesus ficou admirado com os valores que encontrou nos pagãos e compreendeu que Deus já estava entre eles como Deus vivo e libertador: aquele que ouve o clamor e desce para libertar (cf. Ex 3, 7ss.). O evangelho de Mateus faz esse caminho progressivo e muito diferente do envio de discípulos apenas para as "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10, 6), e conclui: "Ide e fazei com que todos os povos sejam meus discípulos" (Mt 28, 19). O encontro de transformação e libertação só aconteceu quando Jesus "desce" ao nível humano, tornando-se aprendiz e discípulo da mulher estrangeira, excluída. E confirma sua cidadania teológica: "Mulher, grande é tua fé! Seja feito como queres!" (Mt 15, 28).

Como ela, nós somos convidados a ir lá onde a vida clama e sofre discriminação; ali onde as pessoas sofrem a separação da vida social e cultural.

Sendo a mensagem de hoje a universalidade da salvação, devemos perguntar:

– Não concebemos essa universalidade à maneira do Antigo Testamento, esperando os outros aderirem ao nosso sistema? Deixamos pelos menos algumas "migalhas" para aqueles e aquelas que não são cristãos?

– Somos capazes de reconhecer a realidade crítica fora do nosso ambiente católico institucional?

No seguimento de Jesus, que se deixou tocar pelo grito da mulher siro-fenícia, "escutar Deus onde a vida clama" é convocação do Espírito que sopra onde e como quer. Precisamos ter nossos corações abertos e atentos aos múltiples clamores da vida que aparece ao nosso redor.


Referências
KONINGS, Johan. Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1981.
WEILER, Lucia. Mulher siro-fenícia: um encontro transgressor e revelador.

Meditação à beira de um poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro

Adelia Prado

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