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Espiritualidade » Comentário do Evangelho

DOMINGO 9 DE SETEMBRO Evangelho segundo São Marcos 7,31-37

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele.
Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abra-se!"
Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam.
Estavam muito impressionados e diziam: "Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar".

(Correspondente ao 23º domingo do tempo comum, ciclo B do Ano litúrgico).

Locução: André Langer

Uma nova criação

Para iniciar nossa reflexão, lembremos que o evangelho de Marcos foi o primeiro catecismo da comunidade primitiva. Ele procura responder quem é Jesus e mostrar o significado de ser seu discípulo e sua discípula.

No texto de hoje, encontramos Jesus caminhando por terras pagãs: Tiro, Sidônia e região da Decápole. É uma das poucas vezes que Jesus sai de seu país.

Peçamos ajuda à nossa imaginação para reconstruir a cena. Imaginemos Jesus numa terra estrangeira, com pessoas com outros costumes e religiões.

Pelo evangelho, constatamos que a fama de Jesus tinha cruzado fronteiras porque, quando ele está a caminho, levaram-lhe um homem surdo e que falava com dificuldade, pedindo-lhe que o curasse.

Podemos nos perguntar por que Marcos coloca um surdo-mudo, tendo presente que os evangelhos não são a biografia de Jesus, mas sim um o relato catequético de sua vida.

Dessa maneira, podemos concluir duas intenções do autor do texto. Unindo numa só pessoa duas limitações (que se complementam muitas vezes), a surdez e a mudez, faz referência ao texto de Isaias 35, onde a cura de surdos, mudos e cegos são sinais do tempo messiânico.

Por sua vez, participar do Reino de Deus é um dom! O ser humano precisa ser “aberto”, necessita que lhe abram os ouvidos para escutar a Palavra e que liberem sua língua para anunciá-la, e isso é obra do Messias.

Outra lembrança não menos importante para conhecer mais a Jesus é que, segundo os costumes judaicos, para manter a pureza não se podia falar com os estrangeiros e muito menos ter com eles contatos físicos.

O evangelho de hoje apresenta uma vez mais o nosso Mestre como transgressor dessa lei que se tinha convertido em fardo para o povo, não refletindo mais a Aliança de Deus com ele.

Continuando com o texto, chama a atenção o emprego de sete verbos para descrever a ação de Jesus com o surdo-mudo: “Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá!’, que quer dizer: ‘Abra-se!’”.

Por que tantos detalhes? Talvez para mostrar que a ação de Jesus, assim como a de sua comunidade, não é mágica, implicando um processo muitas vezes lento e difícil, porque é um árduo trabalho abrir o ser humano ao mistério de Deus e de si próprio.

Talvez cada um/a de nós estejamos surdos, incapazes de escutar a voz de Deus em nosso coração, seu apelo em nossos irmãos, seu grito na criação. E porque também não mudos para proclamar suas maravilhas, para denunciar as injustiças, cantar nossas lutas...

Por isso, como o homem do evangelho, deixemos que Jesus nos leve a um lugar à parte, porque é na intimidade e na solidão do coração humano que o Senhor trabalha.

O evangelho não descreve o olhar de Jesus para com esse homem nem o dele para com Jesus, mas podemos ter a ousadia de imaginá-los. Quanta ternura e compaixão descobrimos no olhar de Jesus! Quanta surpresa e esperança nos olhos do surdo-mudo!

E, enquanto esses olhares se cruzam, Jesus põe os dedos no ouvido do homem, toca a língua com sua saliva, é o próprio Deus que toca sua criatura para devolver-lhe sua identidade e dignidade plena.

Dessa maneira, Marcos proclama à sua comunidade que Jesus é o Messias, o Ungido de Deus que anuncia Isaias, abre os ouvidos e a boca das pessoas para serem seus discípulos/as e testemunhas (Is 50,4-6).

Mas não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo, e sim sua palavra: Depois olhou para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abra-se!”

Tanto no olhar para o céu como no gemido de Jesus transparecem seu apelo ao Pai. É dele que o Filho recebe o poder para curar, libertar, recriar.

O gemido pode também significar a indignidade de Jesus diante das diferentes situações, mentalidades, estruturas que deixam o ser humano surdo-mudo.

Cabe-nos perguntar: Quem cria surdos e mudos? O que (ou quem) mantém tantas pessoas nessa situação não humana? Gememos diante delas? Ou que fazemos?

Diante da ação de Jesus os mesmos pagãos são capazes de exclamar: “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”.

Essa proclamação lembra o projeto de Deus na criação, apresentado no livro do Gênesis: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (1,31).

Dessa forma, Jesus é apresentado como o artífice de uma nova criação, na qual os surdos ouvem, e os mudos falam! Ele cria um mundo novo, uma humanidade nova.

Deus, ao criar ao ser humano, o fez à sua imagem, capaz de viver em relação, em comunhão (cf. GS12). No entanto, sabemos que vivemos num mundo de relações quebradas, de poder, relações frágeis e até tremendamente destrutivas.

A tal ponto que, diante da pergunta sobre onde iremos parar, Noam Chomsky, uma das sumidades de nosso tempo, responde: “Uma questão que pode ser respondida é se o ser humano é uma espécie de mutação letal”, já que “obteve a capacidade de se destruir a si mesma (e muitas outras) por meios que vão de armas de destruição em massa a catástrofes ambientais”.

Por isso é necessária a nova criação que Jesus realiza, a vida nova que Ele nos oferece e que fica tão bem explicitada neste milagre da cura do surdo-mudo.

Ele nos capacita a viver relações novas nas quais o diálogo, livre, igualitário e tolerante é possível nas diferentes dimensões da vida humana. Recentemente lembramos o Cardeal Martini que soube com sua vida romper fronteiras rígidas e foi exemplo de profeta.

Este evangelho nos lança o desafio de viver e construir novas redes de relações humanas que sejam assim cocriadoras de outro mundo possível. De jeito que Deus e nós mesmos possamos olhar para nosso mundo e dizer: é tudo muito bom!

Oração

Senhor, Pai de grande bondade
alegra nossos corações
com o perfume de teu amor.
Faze brilhar os nosso olhos
com a luz que nos guia.
Encanta nossos ouvidos
com a melodia de tua Palavra,
e mantém-nos protegidos
pela fortaleza de tua Providência. Amém.

Referências

DELORME, J. Leitura do Evangelho segundo Marcos. São Paulo:  Paulinas, 1982.

KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.

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