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02 Setembro 2015

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele.

Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abra-se!"

Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam.

Estavam muito impressionados e diziam: "Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar".

(Correspondente ao 23º domingo do tempo comum, ciclo B do Ano litúrgico).

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Locução: André Langer

Uma nova sensibilidade

Para iniciar nossa reflexão, lembremos que o evangelho de Marcos foi o primeiro catecismo da comunidade primitiva. Ele procura responder quem é Jesus e mostrar o significado de ser seu discípulo e sua discípula.

No texto de hoje, encontramos Jesus caminhando por terras pagãs: Tiro, Sidônia e região da Decápole.

Jesus encontra-se em terra estrangeira onde as pessoas têm outros costumes e religiões.

Ali também conheciam Jesus porque ele fazia milagres, porque curava as pessoas e por isso levam-lhe um homem surdo e que falava com dificuldade, pedindo-lhe que o curasse.

Nesta pessoa aparecem unidas duas limitações: a surdez e a mudez. Na primeira leitura hoje escutamos que o profeta Isaias animava o povo quando estava no Exílio com a esperança da liberdade que trazia seu Deus. “Ele vem para salvar”. “Então os olhos dos cegos vão se abrir, e se abrirão também os ouvidos dos surdos; os aleijados saltarão como cervo e a língua do mudo cantará, porque jorrarão águas no deserto e rios na terra seca.” (Is 35, 4-6)

Os cegos, os surdos, os coxos, são imagens daquelas pessoas que já não tinham nenhuma esperança nesta terra. A sociedade e a religião acreditavam que essa dor que eles sofriam era pelos seus pecados. Neste texto Isaias representa essa vida nova e abundante que Deus vai oferecer aos judeus

O amor de Deus é ilimitado e se preocupa para que ninguém fique excluído da sociedade ou na escravidão como estava o povo no Exílio. É um Deus que oferece uma vida nova cheia de liberdade; ele veio para realizar uma nova criação.  

No evangelho de Marcos, Jesus é esse Messias esperado. Ele está realizando essa nova criação. Preocupa-se por cada pessoa, pela sua dor, por aquela limitação que a sociedade naquela época considerava como um castigo divino. Essa pessoa ficava assim isolada da sociedade e fechada na sua própria surdez e incapacidade para se comunicar.

Nos capítulos anteriores o Evangelho apresentou-nos Jesus, que liberava das doenças várias pessoas em distintas situações. Lembremos algumas delas: a sogra de Simão, os doentes que estavam possuídos pelo demônio, um leproso, um homem com a mão seca, um paralítico, uma mulher que sofria de hemorragia fazia muitos anos e vários doentes.

A liberação das doenças demonstra que com Jesus iniciou-se o tempo messiânico, a época da salvação.

Aprofundando no texto podemos destacar cada uma das ações que Jesus faz com o surdo-mudo:
Jesus 1) toma o homem pela mão e 2)se afastou com ele para longe da multidão; 3) pôs os dedos no ouvido do homem; 4) cuspiu e com a sua saliva; 5) tocou a língua dele; 6) olhou para o céu; 7) suspirou e 8) disse: "Efatá!", que quer dizer: "Abra-se!"

Podemos perguntar-nos por que tantos detalhes se nas outras doenças era suficientes uma palavra e a pessoa ficava curada?

Nestas ações somente o uso da saliva tem para a medicina da época um poder curativo. Mas porque aparecem narrados todos os outros gestos? Um pouco mais adiante, no capitulo oito de Marcos, Jesus cura um cego de nascença realizando gestos similares.

Esta aparente coincidência fica esclarecida nas palavras que Jesus dirige a seus discípulos pouco antes da cura do cego repreendendo-lhes: “Vocês ainda não entendem e nem compreendem? Estão com o coração endurecido? Vocês têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem? (Mc 8, 17-18).

É a cegueira e surdez dos discípulos que explicitam o difícil que foi para os primeiros cristãos compreender a mensagem de Jesus, sua vida e caminhar junto com ele.
 
A atitude de Jesus, como a de sua comunidade, não é mágica, implicando um processo muitas vezes lento e difícil, porque é um árduo trabalho abrir o ser humano ao mistério de Deus e de si próprio.

Talvez cada um/a de nós estejamos surdos, incapazes de escutar a voz de Deus em nosso coração, seu apelo em nossos irmãos, seu grito na criação.

E possivelmente também mudos para proclamar suas maravilhas ou denunciar as injustiças, os desprezados e marginalizados na sociedade...

Por isso, como o homem do evangelho, é preciso estar com Jesus num lugar apartado para dialogar com ele. É na intimidade, no silêncio e na solidão que nossos ouvidos são capazes de escutar suas palavras e nossa língua desengasgar-se para proclamar suas maravilhas ou denunciar as injustiças que nos rodeiam.

Jesus olha para o céu e tanto seu olhar como seu gemido transparecem seu apelo ao Pai. É dele que o Filho recebe o poder para curar, libertar, recriar.

O gemido pode também significar a indignidade de Jesus diante das diferentes situações, mentalidades, estruturas que deixam o ser humano surdo-mudo.

Podemos perguntar-nos quais são as situações que mantêm tantas pessoas assim? Não são formas humanas de viver. Mas, qual é a nossa reação diante delas? Fazemos algo ou permanecemos indiferentes?

Diante da morte de todos os migrantes no Sul de Itália o Papa Francisco faz um chamado a humanidade para ter sensibilidade e não permanecer indiferentes diante de tantas injustiças humanas.

Lembremos suas palavras na mensagem que enviou aos fiéis, no Brasil, relativa à ocasião da Campanha da Fraternidade do ano 2014 que tinha como tema “Fraternidade e o Tráfico Humano”, e cujo lema é “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.

“Não é possível permanecer indiferente sabendo que há seres humanos comprados e vendidos como mercadorias! Levemos em conta as crianças que têm seus órgãos retirados, as mulheres enganadas e obrigadas a se prostituir, os trabalhadores explorados, sem direitos, sem voz, e assim por diante. Isto é tráfico humano!”

Diante da ação de Jesus os mesmos pagãos são capazes de exclamar: “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”.

Essa proclamação lembra o projeto de Deus na criação, apresentado no livro do Gênesis: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (1,31).

Dessa forma, Jesus é apresentado como o artífice de uma nova criação, na qual os surdos ouvem, e os mudos falam! Ele cria um mundo novo, uma humanidade nova.

Deus, ao criar o ser humano, o fez à sua imagem, capaz de viver em relação, em comunhão (cf. GS12). No entanto, sabemos que vivemos num mundo de relações quebradas, de poder, relações frágeis e até tremendamente destrutivas.

Por isso é necessária a nova criação que Jesus realiza, a vida nova que Ele nos oferece e que fica tão bem explicitada neste milagre da cura do surdo-mudo.

Ele nos capacita a viver relações novas nas quais o diálogo, livre, igualitário e tolerante é possível nas diferentes dimensões da vida humana.

Muitas são as pessoas que nos rodeiam que continuamente estão oferecendo sua vida para quebrar fronteiras rígidas, porque desejam manter sua fidelidade ao projeto do Pai construindo um mundo de liberdade, igualdade e verdadeira fraternidade. Não podemos ser surdos aos gemidos que ao nosso redor escutamos constantemente.

O Papa Francisco continuamente está nos desafiando para não ser surdos ao apelo do Pai expressado nos desprotegidos, em tantos refugiados e refugiadas, crianças, idosos que devem atravessar milhares de quilômetros para encontrar uma terra onde possam viver com dignidade.
 
Este evangelho nos lança o desafio de viver e construir novas redes de relações humanas que sejam assim co-criadoras de outro mundo possível. De jeito que Deus e nós mesmos possamos olhar para nosso mundo e dizer: é tudo muito bom!

 

Oração

Senhor, Pai de grande bondade
alegra nossos corações
com o perfume de teu amor.
Faze brilhar os nosso olhos
com a luz que nos guia.
Encanta nossos ouvidos
com a melodia de tua Palavra,
e mantém-nos protegidos
pela fortaleza de tua Providência. Amém.

Referências

DELORME, J. Leitura do Evangelho segundo Marcos. São Paulo:  Paulinas, 1982.

KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.