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Espiritualidade » Comentário do Evangelho

QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA Evangelho de João 10, 27- 30

Minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem. Eu dou a elas vida eterna, e elas nunca morrerão. Ninguém vai arrancá-las da minha mão. O Pai, que tudo entregou a mim, é maior do que todos. Ninguém pode arrancar coisa alguma da mão do Pai. O Pai e eu somos um.

(Correspondente ao 4ºDomingo de Páscoa, ciclo C do Ano Litúrgico).


 

 

Locutora: Luana Taís Nyland

O Ressuscitado é o Bom Pastor

A festa da Páscoa, sob cuja luz ainda vivemos, prolonga seus ecos para dentro deste domingo, conhecido como o domingo do Bom Pastor, figura na qual se apresenta o Ressuscitado.

Para compreender a riqueza do pequeno texto do evangelho de hoje, temos que situá-lo no contexto do capítulo 10 de João.

O evangelista apresenta Jesus passeando pelo templo (23), na festa de sua consagração, quando é abordado pelas autoridades dos judeus, querendo saber se ele é verdadeiramente o Messias.

Para responder a essa pergunta, o evangelista volta a usar a alegoria do Bom Pastor com a qual tinha iniciado o capítulo.

Esta vez o que ressalta é a estreita relação entre o Pastor e as ovelhas, entre Jesus e seus discípulos e discípulas: "Minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem".

O que está na origem é a palavra de Jesus, quem a acolhe, quem experimenta seu amor incondicional, se converte em seu amigo, amiga, seu seguidor/a.

Essa experiência de comunhão que os discípulos vivem com Jesus, desencadeia no seguimento dele, e é nesse seguimento que cresce a amizade e a intimidade com seu Mestre.

Como nós podemos viver essa relação com Jesus de Nazaré? O homem de carne e osso, com quem fisicamente se podia falar e a quem se podia escutar, a quem se podia ver e tocar, com quem se podia comer, já não existe; morreu há mais de dois mil anos!

No entanto, é possível viver uma relação real hoje, porque assim como é verdade que Jesus morreu, também é certo que ressuscitou. Está vivo!

O bom Pastor é o Ressuscitado: "O Deus da Paz, que ressuscitou a Jesus nosso Senhor, que é o pastor supremo das ovelhas..." (Hb 13, 20) continua fazendo ouvir sua voz, conhecendo por amor a cada um/a, através da ação do Espírito.

Como os primeiros amigos e amigas, cada cristão/ã de hoje e de todos os tempos pode viver uma relação direta, de intercâmbio pessoal, de conhecimento vivo de amor e amizade com Jesus (cfr.Jo 14, 13-15) .

O teólogo espanhol Queiruga expressa claramente esta igualdade de condição com os primeiros cristãos: "Como eles estamos privados da presença física de Jesus, morto na história, como eles, encontramo-nos situados na presença transcendente, mas real, do Ressuscitado... Como Cristo glorioso identificado com o Pai, o Nazareno tem agora um novo modo de existência; contudo, continua sendo o mesmo: com idêntico amor e idêntica ternura, com o mesmo cuidado e entrega".

Não vemos nem escutamos Cristo, mas na fé, sabemos que mais do que nunca está conosco! Iluminados pela sua ressurreição, somos convidados/as a viver como viveu Jesus antes de sua morte, sentindo-O como companhia viva, com quem convivemos e quem nos impulsiona a seguir seus passos no mundo de hoje.

Por isso, o seguimento de Jesus não é imitação, senão um estilo de vida que está interiormente impregnado dos sentimentos, pensamentos, atitudes de Jesus.

Essa é a obra do Espírito, que continua cobrindo com sua sombra a história para que homens e mulheres de todos os tempos façam presente, na sua fragilidade, o Emanuel, Deus conosco!

Essa é a vida eterna, que o Bom Pastor promete dar a seus amigos/as. É participar, já nesta terra, da comunhão com Ele e com seu Pai, porque aqueles que acolhem sua palavra serão morada do Pai, do Filho e do Espírito!

E essa vida de comunhão é mais forte que qualquer sofrimento, poder, e até da própria morte, como canta o apóstolo em sua carta aos romanos: "quem nos poderá separar do Amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada?" (Rom 8,35).

Cientes desta certeza, os seguidores de Jesus sabiam também, que assumir a causa do Mestre como própria, colocaria em risco sua vida, (Jo 15,18).

E assim, ao longo da história, surgiram diferentes "lobos" para roubar, matar, destruir, e foram milhões as ovelhas que se converteram em pastores porque deram livremente sua vida em fidelidade ao Pai e ao seu projeto, alcançando, assim, para sempre a vida eterna, da qual tinham recebido as primícias nesta terra!

Por isso, não deixa de chamar a atenção que uma das primeiras pinturas cristãs, de que se tem notícia, e que se encontra numa catacumba romana, representa Jesus como o Pastor que carrega sobre seus ombros a ovelha sã e salva. A imagem expressa uma segurança e é garantia de uma alegria que nada, nem as perseguições, nem as maiores calamidades podem afetar.

Cada um/a de nós somos convidados/as a viver esta experiência de comunhão de Jesus com o Pai, a vida eterna. Desse modo, elevemos nosso olhar para Jesus Bom Pastor e deixemos que ele nos carregue sobre seus ombros. Só assim teremos forças para oferecer nossos ombros, nossa vida aos nossos irmãos e irmãs. Só assim seremos pastores como Jesus.

Oração

Rezemos com renovada e terna confiança o salmo do Bom Pastor

Fonte: Patriarcat Latin de Jerusalém (www.lpj.org)

Salmo 23

O Senhor é o meu pastor. Nada me falta.
Em verdes pastagens me faz repousar;
para fontes tranqüilas me conduz,
e restaura minhas forças.

Ele me guia por bons caminhos,
por causa do seu nome.
Embora eu caminhe por um vale tenebroso,
nenhum mal temerei, pois junto a mim estás;
teu bastão e teu cajado me deixam tranqüilo.

Diante de mim preparas a mesa,
à frente dos meus opressores;
unges minha cabeça com óleo,
e minha taça transborda.

Sim, felicidade e amor me acompanham
todos os dias da minha vida.
Minha morada é a casa do Senhor,
por dias sem fim.


Referências

KONINGS, Johan. Espírito e Mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia, 1981.

QUEIRUGA, Andrés Torres Queiruga. Repensar a Ressurreição. São Paulo: Paulinas, 2004.

GIANI, María Cristina. Narrar a ressurreição na post-modernidade. Un estudo do pensamento de Andrés Queiruga. Cardernos de Teología Pública. IHU, ano VI, nº 45, 2009. Disponível em http://bit.ly/14o9mJx. Acesso em: 19 de março 2013.

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