“A visibilidade que o Papa deu à guerra foi impressionante”. Entrevista com Dom Luiz Fernando, bispo de Pemba, Moçambique

Foto: UNHCR

03 Março 2021

Dom Luiz Fernando Lisboa nasceu em Marques de Valença, Rio de Janeiro, em 1955. Com nove anos de idade mudou-se, com a sua família, para Osasco, São Paulo, onde passou parte de sua infância, adolescência e juventude.

 

Em agosto de 1975, aos 19 anos, ingressou no seminário dos missionários Passionistas; cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba; estudou Teologia no Instituto Teológico São Paulo. Foi ordenado sacerdote em 1983. Especializou-se em Liturgia e Missiologia na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e é mestre em Teologia Pastoral pela Pontifícia Universidade Católica de Curitiba, onde também foi um dos coordenadores do Curso de especialização em Missiologia.

 

Em 2001, Dom Luiz Fernando foi como missionário Ad Gentes para a diocese de Pemba, Moçambique, onde trabalhou por oito anos; retornou ao Brasil e trabalhou por quatro anos como pároco na arquidiocese de Curitiba.

 

Em 2013, o Papa Francisco o nomeou como Bispo de Pemba. Na Conferência Episcopal de Moçambique exerceu o serviço de secretário-geral e coordenador do Departamento Social. Em Cabo Delgado, Dom Luiz Lisboa esteve diretamente envolvido no apoio e assistência social às vítimas do terrorismo.

 

Os ataques à região de Pemba provocaram mais de meio milhão de deslocados, pelo menos cerca de dois mil mortos e uma população cansada da guerra e da pobreza. Na região há imensos recursos naturais, explorados por multinacionais, o que faz com que a questão económica seja a “primeiríssima razão” dos ataques.

 

Em fevereiro de 2021, dom Luis Fernando foi nomeado bispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES).

 

Dom Luiz Fernando Lisboa (Foto: Vatican Media)

 

A entrevista foi realizada por Pe. Dário Bossi, missionário comboniano, e Patrícia Texeira Santos, professora do Departamento de História e coordenadora do Núcleo sobre história da África Contemporânea da Universidade Federal de São Paulo. A transcrição foi realizada pela profa. Tamires Sodré de Paula.

 

Eis a entrevista.

 

Com que sentimentos o senhor encerra este período de oito anos como bispo em Moçambique? Qual o maior legado recebido deste povo irmão?

 

Em primeiro lugar, muita alegria: desde a minha juventude, no início da minha formação, eu tive esse sonho de ser missionário Ad Gentes no continente africano. Quando pedimos muito alguma coisa a Deus, a gente tem que tomar cuidado porque ele atende! Eu pedi e, para minha felicidade, ele me enviou para essa missão. O sentimento é de muita gratidão por tudo o que aprendi na África e por todas as pessoas que eu conheci. Deus permitiu-me fazer essa experiência por quase vinte anos.

 

Se você me perguntar se estou feliz de sair de lá, eu digo que não estou; ao mesmo tempo, estou tranquilo: a missão é de Deus, ela não é nossa; somos instrumentos e em qualquer lugar que estejamos podemos realizar a missão de Deus.

 

A região de Cabo Delgado é conhecida pela história de convivência e pluralismo religioso. Na sua experiência, como o conflito que tomou dimensões trágicas foi sendo tecido no cotidiano das populações da região?

 

 

Desde o tempo em que cheguei a Cabo Delgado, em Moçambique, no início de 2001, nunca ouvi falar que tivesse havido algum problema entre as religiões, seja ele desentendimento, guerra ou litígio. Pude experimentar na minha própria vivência do dia a dia quanto respeito há entre as religiões, não só entre os líderes maiores, mas também nas aldeias, com o povo.

 


Mapa de Moçambique, destaque para Cabo Delgado e Pemba. Fonte: Wikicommons

 

É dever do bispo visitar toda a diocese, e eu sempre preferi visitar aquelas aldeias nunca antes visitadas pelos bispos anteriores, para ter contato com o povo, conhecê-los, e eles também a mim.

 

Em todos os lugares que fui, ao celebrar a missa, debaixo das árvores, sempre havia três, cinco ou dez muçulmanos que ficavam durante toda a missa, com todo respeito.

 

Normalmente, as pessoas oferecem presentes ao bispo, como por exemplo, galinha, cana, amendoim, cabrito, e sempre os muçulmanos levavam também seus presentes. Esta é uma prova que há respeito!

 

 

Inclusive, em alguns lugares eles diziam que estavam também a receber o bispo deles!

 

Nunca presenciei qualquer problema em Cabo Delgado. Claro que pode ter acontecido algum caso de desentendimento, mas sem qualquer expressão que comprometesse o bom relacionamento entre nós.

 

Nos últimos anos, tínhamos um encontro regular entre os líderes religiosos, que contava com a presença dos dois maiores líderes dos muçulmanos, o Congresso Islâmico e o Conselho Islâmico. Também houve boa colaboração entre a Igreja Católica e o Concelho Cristão de Moçambique: no tempo da guerra, lançamos documentos em conjunto pedindo a paz, fizemos caminhadas pela paz.

 

Desde o início, tanto os muçulmanos quanto nós, denunciamos que os reais motivos desta guerra são questões econômicas: os terroristas estão utilizando o nome de Alá e do Estado Islâmico para encobrir os verdadeiros motivos desta guerra, que não são religiosos.

 

Para o senhor, quais razões levam a este conflito tão grave não ter a visibilidade que mereceria ter?

 

Penso que não existe apenas uma motivação, para a guerra. O extremo norte de Moçambique foi sempre esquecido pelo Estado, é uma região muito pobre, a pobreza é um componente importante. As etnias são outra questão: naquela região há uma que prevalece sobre a outra, tendo, por exemplo, com maior acesso à educação. Outros componentes também lançaram combustível para a guerra: há um certo extremismo de grupos que vieram de fora e foram formadas em outros ambientes, não aceitaram o Islã praticado em Cabo Delgado e quiseram fazer algo diferente.

 

 

Com a soma de tudo, eclode-se a guerra que já leva três anos e quatro meses. O motivo principal para muitos, e para mim, continua sendo o econômico, por causa das riquezas naturais de Cabo Delgado.

 

São os mega projetos que são pensados para esta região que seriam a principal nervura desses conflitos?

 

Com certeza. Cabo Delgado é rica em gás e petróleo, rubi da melhor qualidade, mármore, pedras semi preciosas, ouro; duas empresas estrangeiras exploram o granito; a madeira já foi quase toda exportada pelos chineses. Há uma província rica em recursos, um povo muito pobre, e grandes multinacionais chegando para fazer a exploração.

 

Em todas as regiões de conflito, em África, encontra-se riqueza de recursos naturais e grandes empresas estrangeiras explorando-os. Estes elementos andam juntos: recursos naturais, empresas multinacionais e guerras.

 

Diversas universidades e institutos, como o IESE, têm feito reflexões sobre o que tem ocorrido na região. Que instituições e grupos regionais e internacionais têm ajudado a reverberar as notícias e o drama de Cabo Delgado?

 

No início da guerra, era proibido falar sobre ela, houve a tentativa de escondê-la.

 

Os jornalistas não tinham licença para ir a Cabo Delgado e, muito menos, para a região norte da província, onde a guerra acontecia.

 

 

Alguns foram presos, dois deles por mais de dois meses, e hoje estão respondendo a processos. Muitos não receberam licença para realizar a cobertura da guerra; há um jornalista de uma rádio comunitária, daquela região, que está desaparecido desde o dia 07 de abril de 2020 e não temos notícia se está vivo ou morto.

 

Com a censura aos jornalistas, a visibilidade sobre a guerra foi dada pela Igreja, denunciando e alertando no Moçambique e no mundo sobre o conflito. Isto é reconhecido pelos meios de comunicação, por várias fontes e autoridades em Moçambique.

 

O Papa visitou Moçambique, em 2019, e falou sobre a guerra; sua visita a Pemba precisou ser cancelada e um dos motivos foi a questão da segurança.

 

Com a intensificação da guerra em 2020, o Papa passou a rezar por Cabo Delgado; telefonou-me, também, em agosto, e esse telefonema repercutiu. No final do ano, fez uma doação para ser aplicada aos deslocados, que está sendo utilizada para a construção de dois hospitais nas regiões de assentamentos, e no fim do ano chamou-me até Roma para conversarmos, querendo saber de perto sobre a situação da guerra. A visibilidade que o Papa deu à guerra foi impressionante.

 

 

Uma vez que outras pessoas e organizações também começaram a se interessar, o parlamento da União Europeia quis fazer um encontro de duas comissões importantes do parlamento, onde fui convidado para falar sobre a guerra.

 

O apoio internacional apareceu em 2020 porque, até então, o governo não o pedia, uma vez que discursavam serem auto suficientes. Mas a situação de uma guerra de caráter internacional não se resolve facilmente somente dentro de um país.

 

Quando o parlamento da União Europeia ofereceu ajuda, o governo solicitou três tipos de colaboração econômica: para formação dos seus militares, para apoio logístico e para apoio humanitário.

 

 

A União Europeia, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral e a União Africana entraram no debate e estamos esperando que a ajuda concreta chegue, de forma mais eficaz.

 

No tempo do conflito entre Renamo e Frelimo, o conflito não era considerado uma guerra civil, e sim ‘banditismo social’. Parece que este tema está sendo utilizado também em Cabo Delgado. O Estado classificou o conflito como ‘banditismo social’ a fim de terceirizá-lo? Como têm sido percebidas e avaliadas, pelas autoridades do país e internacionalmente, as ações da Igreja, em auxílio às populações atingidas e na denúncia do conflito?

 

Houve uma negação no começo dos conflitos; as autoridades disseram tratá-lo como problema entre as religiões, esperando que a resolução ocorresse entre elas. Alguns grupos muçulmanos defendiam uma certa radicalização do islamismo praticado em Cabo Delgado e a população começou a alertar sobre a atuação destes indivíduos.

 

Em seguida, as autoridades governamentais passaram a interpretar o problema como banditismo; mas a situação cresceu ao ponto de ficar impossível escondê-la, e só então o governo reconheceu a situação de guerra, com infiltração externa e cooptação de muitos jovens nacionais. Sem estudo, dinheiro e emprego, os jovens são facilmente cooptados.

 

Inicialmente, houve a negação e a tentativa de terceirizar a guerra, porém hoje este tipo de negação já não é mais possível. É importante salientar que a divulgação realizada pelo Papa foi fundamental, para que as autoridades se dessem conta do problema real.

 

Na encíclica Fratelli Tutti, Papa Francisco comenta que a Igreja se encontra a viver e atuar, hoje, numa “terceira guerra mundial por pedaços”. Fala de partes da humanidade que seriam “sacrificáveis”, muitas vezes pelos interesses do lucro e de uma economia -como no caso do extrativismo predatório- que mata. Qual é a missão da Igreja neste cenário?

 

Mais do que nunca, a Igreja é chamada hoje a ser compassiva, misericordiosa e profética; essas são três palavras chaves. A Igreja teve sempre, na história, um papel muito importante, sobretudo nas regiões mais pobres do mundo. Sempre foi uma voz muito forte em defesa da população mais vulnerável.

 

O que o Papa diz na encíclica é verdade, a terceira guerra chegou como guerra fragmentada, que diz respeito ao abismo que há entre ricos e pobres, onde há exploração predatória do meio ambiente. A falta de cuidado com a Casa Comum tem provocado o sacrifício da maior parte da humanidade.

 

 

Moçambique, por exemplo, está entre os dez países mais pobres do mundo. Desde que cheguei lá, há vinte anos, vejo a população cada vez mais pobre, gradativamente empobrecida.

 

A invasão predatória tornou as terras improdutivas, uma vez que elas são oferecidas às grandes empresas. A corrupção é muito forte e a população, especialmente os pobres, pagam a conta.

 

Há um sacrifício claro de parte da população. No continente africano, os mais pobres estão ficando por últimos, como o exemplo da vacinação da COVID-21, que é também parte desta terceira guerra.

 

A África, como sabemos da história, foi dividida para a colonização; hoje estamos em uma nova colonização, que se mostra com a presença das multinacionais e, muitas vezes, com um desprezo em relação à África.

 

Eu acredito que a Fratelli Tutti, do Papa Francisco, traz isso de maneira muito clara. Por isso ele convida a sermos todos irmãos e irmãs: não é possível que uns fiquem relegados em terceiro plano, enquanto outros têm fartura; infelizmente, é isso que está ocorrendo.

 

Jesus de Nazaré buscou o encontro com os povos não hebreus, fora da Galileia; sempre, para a Igreja, a missão Ad Gentes foi uma experiência que converte em primeiro lugar a mente e o coração dos próprios missionários-as. Como pode a missão Ad Gentes enriquecer a prática e a perspectiva pastoral da Igreja do Brasil? Quais são os novos caminhos para a Igreja que o senhor intui, a partir de sua experiência missionária?

 

Eu costumo dizer que uma igreja particular, uma diocese, uma paróquia e uma comunidade só é madura quando missionária. Há líderes religiosos que não enviam ninguém para a missão, alegando haver muitas necessidades em sua comunidade. Temos que lembrar daquilo que era falado décadas atrás: “é preciso dar de nossa pobreza”, não podemos esperar ter ou sobrar, para repartir.

 

A missão Ad Gentes sempre foi um desafio e é cada vez mais necessária, atualmente. Quem faz uma experiência missionária, seja além das fronteiras geográficas ou, como diz o Papa, em situações especiais, nunca vai voltar a ser a mesma pessoa.

 

 

Fazer a experiência missionária é respeitar o outro, acolher a cultura do outro, do diferente, estar disposto a reaprender, não transportar valores e culturas para outros lugares, mas ter abertura para aprender e interagir com outros conhecimentos e aprendizados. Isso converte a mente e o coração.

 

O Brasil foi terra missionária, somos frutos de missão, já recebemos muitos missionários estrangeiros. Hoje, enviamos missionários para o mundo. Neste momento, por exemplo, em Moçambique, a maior equipe missionária vem do Brasil (em outra época era da Itália ou do Portugal). Isto mostra uma Igreja se abrindo para a missão e repartindo da sua pobreza; isso só enriquece a nossa Igreja.

 

Eu fiquei em Moçambique por 20 anos e agora volto para o Brasil; tenho que reaprender muita coisa, mas penso que posso partilhar a experiência que trago e posso animar muitos a realizarem essa mesma experiência: ir ao encontro das pessoas e daqueles que mais precisam.

 

Assim como tenho para aprender, também tenho para partilhar.

 

Depois de 20 anos de missão em Moçambique, o que lhe dá força para deixá-lo?

 

A única resposta possível é a força de Deus, porque não é fácil. Fui para África porque Deus me chamou, e também por muito empenho meu. Agora, deixar é um grande desafio. Porém, a proximidade com o Papa Francisco ajudou a tranquilizar-me: o Papa Francisco tem gestos muito grandiosos, tanto em Cabo Delgado quanto para o mundo.

 

 

 

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