A crise de uma humanidade que não consegue se tornar humana, segundo Edgar Morin

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10 Julho 2020

O filósofo Edgar Morin, em um "encontro com David SassoliRoberto Saviano".

A reportagem foi publicada por L'Osservatore Romano, 07-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na construção de um mundo novo, a Europa deve afirmar sua liderança. Deve fazê-lo a partir de seu patrimônio do humanismo, de sua tradição política e cultural, de sua vocação originária. É, no fundo, a mesma Europa que nasce sem fronteiras, que olha naturalmente para o Mediterrâneo, que cuida do meio ambiente como ação essencial de uma ecologia integral enraizada em seu cristianismo. É a Europa que muitos gostariam de voltar a sonhar. Sobre o tema do futuro após o vírus, o Parlamento Europeu lançou uma série de encontros públicos pela Internet.

O primeiro, realizado ontem, contou com a presença do filósofo Edgar Morin, do escritor Roberto Saviano e do presidente do próprio Parlamento Europeu, David Sassoli. "Tenho a sensação - disse este último - de que a emergência nos fez vislumbrar os elementos de um mundo novo. Mas se a política não se livrar dos condicionamentos do passado, o impulso para trás será muito forte. Estamos saindo desta crise graças ao modelo social europeu. Ninguém na Europa ficou excluído de tratamento. Em outros lugares, não é assim. Fora a confusão inicial, a Europa forneceu uma resposta unitária. Obviamente, é preciso reconciliar as palavras com a vida. Partindo da definição de crescimento e solidariedade".

"Após a guerra, a reconstrução europeia foi feita com o dinheiro dos outros, mas a classe dominante já estava preocupada em chegar ao pleno emprego. Agora nos apresentamos com uma grande massa de trabalhadores precários. Precisamos de uma direção nesta fase, e essa direção é a dimensão pública, a ideia de que o interesse privado e coletivo possam estar juntos. Essa é a nossa vocação. Acabamos perdendo-a um pouco".

Segundo Saviano "as empresas dos países totalitários estão vencendo nesta crise. A ideia que está passando é que a democracia seja quase uma ideia para privilegiados, enquanto o que realmente importa é a segurança. A Europa, nisso, pode fazer a diferença, por cultura, tradição, identidade... A Europa desde o início não nasce confinada. Mas não pode existir democracia se não se fala de direitos. E falar sobre direitos também significa falar sobre como uma empresa produz e como paga seus trabalhadores. A política europeia deve ser refundada em nome de seus princípios e não segundo o princípio do dinheiro e a lógica dos offshore. A Europa é diferente: era diferente no pensamento de seus pais fundadores, pois representava uma via alternativa ao capitalismo e ao socialismo real. É um caminho ainda possível”. Durante o “encontro, Morin fez duas longas intervenções, que resumimos abaixo.

A crise de uma humanidade que não consegue ser humana

“De fato, experimentamos uma crise total e multidimensional. Isso nos mostrou que existe um destino comum e que a globalização e a interdependência não traziam consigo também a solidariedade. Percebemos que isso também afeta nossa saúde e nosso sistema de saúde: nossos países europeus se descobriram completamente dependentes, por exemplo, de países como China e Índia para o fornecimento de máscaras e aventais. Isso significa que devemos alimentar a cooperação dentro da globalização. Estamos em uma época extremamente perigosa. A consciência do destino comum é, eu diria, a missão europeia, sempre foi, a partir de Montaigne, que dizia que todo homem era seu concidadão e defendia os nativos pela forma como eram tratados. Esse humanismo deve ser recuperado, deve se regenerar, por assim dizer, em sua "terra pátria".

Falamos de crescimento. Obviamente hoje fingimos estar em um crescimento infinito: para acreditar nisso, só sendo loucos ou economistas... Naturalmente tudo o que é ilusório deve decrescer, como a agricultura industrializada, a economia de guerra... o que deve crescer, em vez disso, é a economia social, que elimina a igualdade e a disparidade. É certo que, como sempre na história, é preciso passar à resistência, à luta entre o poder e aquelas forças que no passado foram capazes de criar o estado de bem-estar. Hoje, o equilíbrio entre essas duas forças está despedaçado. É importante que uma nova voz política seja levantada, começando pela questão ecológica. Aqui há espaço para gigantescos investimentos. Isso dará o que comer aos homens e fará bem à sua saúde, porque não devemos esquecer que muitas pessoas morrem por causa de um ambiente intoxicado.

Na América Latina, fala-se de "buen vivir" ... trata-se disso. Era um fermento que já existia antes da crise. É claro que uma nova via está sendo buscada. O que havia antes não funcionava, graças a muitos, até às instituições europeias. Também graças às diretrizes europeias, foram sendo reduzidos os leitos, os hospitais foram comercializados. Antes da pandemia, havia uma recessão geral; o pensamento político havia se degradado e havia corrupção generalizada, especialmente nos sistemas que chamamos, um tanto estupidamente, de populistas, mas que deveriam ser chamados de totalitários. Os estados totalitários usaram as novas tecnologias para o controle. Isso também aconteceu na Europa. Já estávamos em um mundo em crise, crise do planeta, da biodiversidade. Agora somos dependentes dos perigos que nós mesmos criamos.

Mas acredito que possa nascer uma nova política capaz de unir ecologia e economia, uma política pela qual os nossos jovens já sentem grande entusiasmo. Até agora, a globalização foi impulsionada pela ciência, tecnologia e economia, forças que nos empurraram para o abismo. Agora há o ímpeto para um novo pensamento, porque aquele que nasceu no século XX mostrou todas as suas lacunas, do capitalismo ao marxismo. Marx não viu as contradições do ser humano, as suas emoções, as suas aspirações, não considerou que ao lado do homo sapiens também existe o homo demens...

Obviamente, em tudo isso a instrução, a educação desempenham um papel fundamental. Na crise, vimos que não podemos viver sem as caixas dos supermercados, os caminhoneiros que transportam os produtos, os enfermeiros, enquanto sentimos que podemos viver muito bem sem os acionistas das grandes empresas ...

Devemos nos abrir para a diversidade; somos todos povos multiculturais, na França, Alemanha, Itália. No entanto, temos nossa unidade republicana. Temos uma tarefa gigantesca: vamos evitar que a fertilidade ardente deste período seja perdida. Precisamos de um pensamento que concilie ecologia, economia e uma democracia participativa que se substitua àquela parlamentar representativa. Claro que as coisas são complexas. E a complexidade nasce da necessidade de uma contextualização histórica. Hoje estamos diante de uma crise da modernidade. Não quero falar de pós-modernidade. Trata-se de como sair dessa crise, que é a crise de uma humanidade que não consegue se tornar humana. Depois, há também os antagonismos internos. Nos Estados Unidos, há polaridades aos extremos. Mas também existem na França, na Itália. Devemos abraçar a polaridade da abertura, do eros contra tanatos. Fala-se em solidariedade: a vimos degradar-se no âmbito pequeno, nas divisões familiares, até no grande, na indiferença pelas pessoas que morriam na rua. Precisamos reunir responsabilidade e solidariedade, que não são apenas a fonte da ética pessoal, mas também da comunidade social. Caso contrário, a coesão só pode ser baseada em força e no autoritarismo. Nisso, o patriotismo é diferente do nacionalismo. Um fundamento que nós perdemos”.

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