O fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt e a investigação do ex-Santo Ofício

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03 Julho 2020

 

A notícia bomba é que o padre alemão Josef Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, que morreu aos 83 anos em 1968 e cuja beatificação está em curso, nos anos 1950 foi reconhecido como culpado, pela Santa Sé, de abusos sexuais contra religiosas de seu movimento.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 02-07-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Quem nos dá a notícia com detalhes, na carta abaixo, é a pesquisadora Alexandra von Teuffenbach, ex-professora de teologia e história da Igreja na Pontifícia Universidade Lateranense e no Ateneu “Regina Apostolorum”, especialista na história dos Concílios e editora, entre outras, da publicação em vários volumes dos diários do Concílio Vaticano II, do teólogo jesuíta Sebastian Tromp.

Foi justamente Tromp o visitador apostólico enviado em 1951 pela Santa Sé à Alemanha, à localidade de Schoenstatt, para comprovar o que se temia estar ocorrendo no incipiente movimento. Com efeito imediato, desde Roma, um decreto do Santo Ofício ordenou ao padre Kentenich se separar da obra fundada por ele e, sobretudo, de suas religiosas.

Porém, nesse decreto não eram ditos todos os motivos. No entanto, foram encontrados por Alexandra von Teuffenbach, amplamente documentados nos relatórios de Tromp, que estão conservados nos arquivos da Congregação para a Doutrina da Fé.

Os arquivos, abertos há pouco para que os eruditos os consultem, junto a todas as cartas do pontificado de Pio XII, foram a mina escavada pela pesquisadora.

Em 1965, Paulo VI absolveu o então fundador e permitiu que voltasse à Alemanha, onde morreu três anos depois.

O Movimento Apostólico de Schoenstatt é ainda um dos mais renomados e difundidos em escala planetária. Um de seus últimos superiores gerais foi Francisco Javier Errázuriz Ossa, arcebispo de Santiago do Chile, de 1998 a 2010, chamado pelo papa Francisco em 2013 ao estreito círculo de seus cardeais conselheiros no governo da Cúria romana e da Igreja mundial.

Na Wikipedia, a biografia do padre Kentenich tem o estilo de uma hagiografia, em apoio a sua beatificação. Porém, naturalmente, depois desta descoberta, deverá ser reescrita totalmente desde o início.

*

Estimado Magister,

No decorrer de minhas pesquisas, desenvolvidas em vários arquivos sobre o jesuíta holandês Sebastian Tromp (1889-1975), professor na Gregoriana, conselheiro do Santo Ofício e secretário da Comissão Teológica do Concílio Vaticano II, recentemente me deparei com alguns documentos referentes a uma grande obra religiosa.

Nos anos 1951-1953, Tromp foi encarregado de ir a Schoenstatt, na diocese de Trier na Alemanha, onde se encontra ainda a sede principal do amplo e ramificado movimento, composto também pelas religiosas marianas. Quando foi fundado pelo padre palotino alemão nos anos imediatamente anteriores à primeira Guerra Mundial, não existia ainda a forma canônica do instituto secular, que a obra assumiria depois.

Essa obra pioneira, que encontrou imediatamente um alto número de seguidores, foi então objeto de uma visita apostólica de Roma. Por quê?

As atas – acessíveis agora graças à abertura dos arquivos do pontificado de Pio XII – relatam uma anterior visita às religiosas de Schoenstatt ordenada pelo bispo de Tréveris, que enviou ao lugar o seu auxiliar Bernhard Stein, de 19 a 28 de fevereiro de 1949. Em linhas gerais, este apreciou a obra, ainda que evidenciando alguns defeitos e irregularidades.

Em particular, escreveu:

“Apesar da clara visão do grande objetivo educativo e apesar do alto nível de cuidado espiritual, parece haver somente poucas personalidades seguras, com um pensamento verdadeiro e uma verdadeira liberdade interior, entre os chefes masculinos e as religiosas marianas”.

E, um pouco à frente, acrescentou ter encontrado uma “insatisfação interior não característica das religiosas marianas, assim como também insegurança e falta de autonomia”.

Baseando-se no relatório de seu auxiliar, o bispo de Trier escreveu ao padre Kentenich, que contestou, distorceu e manipulou as disposições do bispo, não agradando ao superior.

Por este ponto, a questão chegou a Roma, que dispôs uma nova visita apostólica, com a responsabilidade confiada ao padre Tromp.

Durante três anos este jesuíta foi muitas vezes à Alemanha e aprofundou vários aspectos da obra, como se deduz das centenas de páginas em alemão e em latim conservadas nos arquivos.

Porém, o que chamou a minha atenção não foram os estatutos da obra, que deveriam ser reelaborados, mas sim o grave abuso de poder por parte do fundador contra as religiosas, claramente determinado e posto em evidência pelo visitador romano, como por outro lado já havia feito o visitador local.

A obrigação imposta às religiosas de se confessar com o fundador – ao menos em algumas circunstâncias – é somente um dos aspectos. Tromp ouve testemunhas, recolhe cartas, faz colóquios, também com o próprio fundador. E aponta uma situação de dependência das religiosas, em alguma maneira ocultada por uma espécie de estrutura familiar aplicada à obra.

Kentenich era o “pai”, o fundador de poder absoluto, com frequência comparado a Deus, tanto que em muitas expressões e orações não se compreende com clareza se estas estão dirigidas a Deus Pai ou ao fundador mesmo. Porém, nesta “família”, a “madre/mãe” não tem nenhum poder e as filhas menos ainda, isto é, as religiosas. Um “pai-padre-patrão”, um exemplo deslumbrante daquilo que o papa Francisco se refere quando fala do clericalismo, um pai-fundador da obra que se alça como proprietário da alma e do corpo das irmãs.

Esta condição se explicitava também em atos concretos. As religiosas, mensalmente, deviam se ajoelhar diante do padre, estender suas mãos para ele e se dar totalmente a ele. O diálogo que se desenvolvia, frequentemente com a religiosa a sós e a portas fechadas, era o seguinte:

“De quem é a filha?”. Resposta: “Do pai!”.
“O que é a filha?”. Resposta: “Nada!”.
“O que é o padre para a filha?”. Resposta: “Tudo!”.
“A quem pertencem os olhos?”. Resposta: “Ao pai!”.
“A quem pertencem as orelhas?”. Resposta: “Ao pai!”.
“A quem pertence a boca?”. Resposta: “Ao pai!”.

Algumas religiosas referiram-se também a essa continuação do rito:

“A quem pertencem os seios?”. Resposta: “Ao pai!”.
“A quem pertencem os órgãos sexuais?”. Resposta: “Ao pai!”.

Deste rito chega-se o relato, feito em uma carta de 1948, transcrita pelo padre Tromp, de uma religiosa alemã, que na época se encontrava no Chile. O tema da carta é um abuso sexual. A religiosa conta que depois do que aconteceu na ocasião de um destes ritos não poderia ver mais nele o “pai” fundador, mas somente um “homem” dizendo que ela havia se rebelado. Sofreu durante um ano antes de poder falar com seu confessor a respeito.

Este não reagiu, como temia, reprovando a religiosa por sua “impureza”. Pelo contrário, disse que não daria a absolvição até que ela não desse a permissão de denunciar em Roma o comportamento do padre Kentenich, “porque não compreendia como religiosas inteligentes podiam participar destas coisas, porém menos ainda podia compreender o padre”.

A religiosa, em visível conflito interior, cheia de vergonha e de medo, escreveu à madre-geral na Alemanha uma carta que esta última enviou com uma cópia a Kentenich e teve como resposta da madre a acusação de estar possuída pelo demônio. Quando o visitador apostólico perguntou à madre-geral, já destituída, se havia recebido outras cartas desse cunho, ela disse que de seis a oito cartas, que lhe pareciam menos graves, mas disse que as tinha colocado no lixo.

Todo o clima, todo o ambiente descrito pelo visitador é muito sexualizado. Balés de religiosas em torno do padre-fundador, encontros noturnos e expressões ambíguas não são certamente o que se espera em uma casa religiosa. Porém, depois de ter negado inicialmente os fatos, os partidários da obra – em primeiro lugar o geral dos palotinos, Woicjech Turowski, porque Kentenich ainda era palotino – consideraram poder justificar tudo: o fundador somente teria ajudado as religiosas a se libertarem das tensões sexuais com um “remédio pastoral psicoterapêutico”.

Em agosto de 1951, um decreto do Santo Ofício – com confirmação pontifícia – distanciou o padre Kentenich de sua obra, exilando-o e proibindo-o de todo contato com as religiosas. A Igreja atuou rapidamente e sem fomentar um escândalo público, porque não queria prejudicar a obra, mas somente ajudar as religiosas. Porém, centenas de páginas de atas, nos anos seguintes, relatam como o fundador, que se encontrava em uma casa dos palotinos em Milwaukee (EUA), não se ateve em absoluto às disposições vaticanas, mantendo contatos com as religiosas, as quais – esta é talvez a coisa mais eloquente – não conseguiram encontrar a liberdade e a autonomia que os visitadores esperavam.

Não houve nenhum novo começo para Schoenstatt, porque muitas irmãs preferiram a fascinação do fundador às diretrizes da Igreja. Essas religiosas não deixaram jamais de escrever, de difamar e caluniar não somente os visitadores, como também as irmãs que colaboraram com eles e os padres que testemunharam contra Kentenich. O Santo Ofício precisou intervir durante muitos anos mais, ao menos durante todo o período cuja documentação é agora acessível.

Essa é a parte obscura da história, porém há uma parte edificante. É a cúria romana que atuava sob Pio XII e que – certamente neste caso – chegou a dar o melhor de si.

As atas narram uma investigação assídua e meticulosa da verdade. São escutados todos, também os amigos do padre Kentenich, que põem em destaque os méritos da obra, porém muito menos a pessoa do fundador. Pio XII, que segue e aprova cada passo, considera com muita atenção tudo que é escrito a ele por parte das religiosas.

Mais além do trabalho realizado como visitador, que parece impecável também a sessenta anos de distância, atinge muito o modo no qual o padre Tromp se refere ao encontro com a religiosa abusada, quando esta pode finalmente voltar à Alemanha. De um jesuíta holandês nos anos 1950, jamais esperaríamos este lúcido apontamento em latim, que se pode traduzir assim:

“Disse quase as mesmas coisas que estão na carta. Acrescenta-se a isso que depois não foi molestada jamais pelo padre Kentenich. Está sempre ansiosa, por medo de ter agido mal ao se manifestar. Eu disse-lhe que agiu corretamente e a proibi de ter contato com o padre Kentenich, pessoalmente ou por escrito, sobre esse assunto”.

A Igreja de hoje é tão frequentemente culpada por não saber como tratar os abusos sexuais, mas aqui, ao contrário, antecipa-se ao tempo. Estamos nos primeiros anos da década de 1950, muito longe das leis estatais que protegem as vítimas de abusos ou de uma consciência na sociedade a respeito da questão. No entanto, a Igreja Católica procedeu no sentido mais justo por essas mulheres, porém sem degradá-las publicitando os fatos. No decreto do Santo Ofício não há nada escrito sobre os abusos, porém os fatos questionados eram comunicados por escrito às madres superioras, para que pudessem aceitar mais facilmente o distanciamento do fundador. Lamentavelmente as religiosas não estiveram em condições de segurar essa mão que lhes foi estendida; não conseguiram – assim se deduz das atas – se separar desse homem, assim como muitas mulheres não conseguem se afastar de seus maridos que as maltratam e que com frequência desculpam e defendem.

A história é muito mais terrível, porque a fase diocesana da causa de beatificação do padre Kentenich, iniciada em 1975, está quase terminando para ser enviada a Roma. É por isso que lhe escrevo hoje, amável Magister, para fazer pública esta história, para que cesse a veneração deste “padre” e se possa demolir as numerosas reconstruções de verdades alternativas propostas, como se tratassem apenas de fraquezas psicológicas frente a um homem ao mesmo tempo carismático, hábil e terrível.

Não tinha vontade de guardar silêncio, porque como mulher me brotaram lágrimas ao ler essas cartas, e como cristã penso que somente a verdade nos faz livres.

Alexandra von Teuffenbach.

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