''Virtude comprovada'' só para homens casados? E os homens celibatários?

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22 Outubro 2019

A pauta do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que está sendo realizado em Roma, inclui a discussão sobre a ordenação de “homens casados de virtude comprovada” (viri probati), para oferecer a oportunidade para que os católicos da Amazônia participem da Eucaristia, em uma região onde a escassez de padres impede as pessoas de participarem do sacramento durante meses ou até anos.

O comentário é de Bill Grimm MM, sacerdote estadunidense e editor do site UCA News, com sede em Tóquio, no Japão, em artigo publicado por La Croix International, 21-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O tema é importante, e a eventual implementação de tal medida é essencial não apenas para o povo de Deus na Amazônia, mas em todo o mundo, se quisermos ser fiéis à tradição católica de que a Eucaristia é “a fonte e o ápice da vida cristã”.

Simplificando, se a Eucaristia é aquilo que dizemos que ela é, então o direito dos católicos de todas as partes de compartilhar o sacramento é absoluto e não deve ser evitado, muito menos impedido, por regulamentos não dogmáticos inferiores, desenvolvidos histórica e regionalmente, relativos ao celibato ou a modelos de serviço sacramental.

No entanto, embora a questão seja de extrema importância, o modo como ela é expressada é cômica ou ofensiva, ou ambas as coisas, dependendo do seu gosto.

À luz dos abusos sexuais e da corrupção financeira por parte do clero, que têm dilacerado a Igreja Católica pelo menos nas últimas três décadas, e da cultura clerical que favorece tudo isso, é difícil não dar um sorriso sarcástico ou até uma gargalhada diante da alegação implícita de que os homens casados precisam de uma verificação suplementar especial de que são de virtude “comprovada” a fim de serem ordenados.

Eu nunca ouvi falar em ordenar “homens celibatários de virtude comprovada”. Exigimos virtude certificável apenas de homens casados? Os homens celibatários estão isentos desse requisito, porque, embora possam e devam ser virtuosos, a prova de sua virtude não é necessária, porque pode ser presumida ou porque não é tão importante quanto ser pelo menos nominalmente celibatário?

Certamente, a evidência não mostra que os padres celibatários são exemplos de virtude maiores do que outros homens. Na máximo, esperamos e rezamos para que, em geral, eles não sejam piores do que os homens casados, como provavelmente é o caso.

Portanto, a ênfase na “virtude comprovada” é ridícula o suficiente a ponto de ser levemente divertida para aqueles que, como eu, são sarcasticamente inclinados.

No entanto, há um aspecto muito menos divertido nessa ênfase. A exigência de “virtude comprovada” implica que, de um modo ou de outro, os homens casados, ipso facto, não devem ser considerados virtuosos, a menos que se prove o contrário. Por que isso? O que há nos homens casados que torna o vício o pressuposto do seu estado?

Obviamente, o fato básico sobre os homens casados é que suas vidas envolvem mulheres. E não apenas mulheres, mas mulheres com as quais eles fazem sexo.

Há uma longa história na Igreja Católica, especialmente entre os clérigos, talvez, de considerar o sexo como algo profanador, e as mulheres, como convites para pecar. Essa atitude é uma das razões (não a única nem, espera-se, a principal) subjacente à ênfase no celibato.

Após a recente restauração da estrita observação litúrgica das práticas latinas mais antigas, quando os bispos do Japão quiseram reafirmar sua prática de não beijar o altar durante a missa, um cardeal da Cúria insistiu que eles deveriam reintroduzir o beijo, porque é um gesto universal de respeito. Ele ressaltou que, quando os japoneses se encontram com o seu imperador, eles fazem a genuflexão e beijam o seu anel.

Na verdade, eles se curvam e absolutamente não tocam em Sua Majestade. E ele não usa anel. Esses fatos não impressionaram Sua Eminência. Ele insistiu que o beijo do altar deveria ser restaurado.

O que finalmente o fez mudar de ideia foi um bispo que lhe apontou que, no Japão, beijar é um gesto unicamente sexual. A palavra “sexo” foi suficiente para que o cardeal recuasse e declarasse que, se era assim, uma inclinação poderia substituir o beijo no Japão.

No entanto, não poderia ser uma “inclinação japonesa”. Ninguém ainda descobriu em que a flexão de cintura no Japão difere de uma flexão de cintura em qualquer outro lugar. Mas, pelo menos uma vez, a prudência eclesiástica em relação ao sexo defendeu a causa do senso comum.

De todos os modos, ordenemos os homens, casados ou não, a fim de permitir o acesso à Eucaristia a todos os católicos, não importa onde eles vivam (a ordenação de mulheres não está no atual estado da questão dentro do âmbito de possibilidades realistas, e é improvável que ela ocorra durante muito tempo, se é que ocorrerá).

De todas as formas, esperamos que esses homens sejam virtuosos, assim como esperamos que todos os cristãos sejam virtuosos. Mas paremos de agir como se os homens casados, de algum modo, tivessem mais necessidade de verificação por parte da polícia da virtude ou do esquadrão do vício do que os homens não casados, sejam eles celibatários ou simplesmente solteiros.

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