EUA. A Igreja Católica vai se autodestruir devido à divisão partidária ou vai superá-la? Artigo de Thomas Reese

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01 Agosto 2019

“A Igreja (e eu não me refiro apenas aos bispos) precisa ajudar na cura do nosso país. Devemos testemunhar uma unidade que transcende o partidarismo. Devemos ouvir respeitosamente uns aos outros. Devemos modelar uma cidadania que coloque o bem do país acima da vantagem pessoal e partidária.”

O artigo é de Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), publicado por National Catholic Reporter, 31-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Os católicos estadunidenses estão praticamente divididos entre republicanos e democratas, o que significa que a Igreja pode se autodestruir ou superar a divisão partidária.

A maioria das outras tradições religiosas nos EUA está em um ou em outro lado da divisão política. A maioria dos evangélicos e mórmons brancos votam nos republicanos; a maioria dos judeus, muçulmanos e protestantes negros votam nos democratas.

Os católicos estão divididos de modo mais uniforme.

Dependendo de qual pesquisa você olha, a diferença entre o voto democrata e o voto republicano entre os católicos nas eleições presidenciais de 2016 foi de 3% a 4%.

Em outras eleições presidenciais próximas, a divisão católica também foi próxima.

Quando se trata da identificação partidária, os católicos estão divididos, com 37% que se identificam como republicanos e 44% que se identificam como democratas. Apenas algumas Igrejas menores estão tão divididas. Os católicos também têm um dos maiores percentuais de independentes (19%) entre os grupos religiosos.

O grande número de católicos independentes faz deles um alvo favorito dos estrategistas políticos que lutam pelos seus votos. Mas o grande número de católicos de ambos os partidos torna possível que as disputas partidárias explodam a Igreja.

O envolvimento do clero na política exacerba o problema. Embora o clero católico tenha evitado endossar partidos ou candidatos, eles assumiram posições em temas controversos que podem perturbar as suas congregações.

Em “Forming Consciences for Faithful Citizenship” [Formando consciências para a cidadania dos fiéis], um documento de ensino sobre fé e política, os bispos dos EUA tomaram uma posição sobre várias questões enquanto tentavam evitar o partidarismo.

Isso é mais difícil de fazer em uma diocese ou paróquia.

Se um bispo ou padre prega sobre o aborto, ele afasta os democratas. Se ele prega sobre a situação dos refugiados e dos migrantes, ele afasta os republicanos. Exercer um ministério profético é muito desafiador em uma comunidade politicamente dividida.

A Igreja Católica tem sido bem-sucedida em não permitir que o seu rebanho se divida em tempos de turbulência política. Ele se manteve unido durante a Guerra Civil Americana, quando algumas Igrejas protestantes se dividiram.

A candidatura de Al Smith em 1928, a Depressão, Franklin Roosevelt, John Kennedy e a filiação sindical mantiveram os católicos firmemente no Partido Democrata durante grande parte do século XX.

Quando os católicos brancos ingressaram na classe média no pós-guerra, muitos começaram a abandonar o Partido Democrata, à medida que esses católicos de classe média passaram a se preocupar mais com os impostos, os crimes e as questões culturais. Os operários católicos também se afastaram quando perderam seus bons empregos nas fábricas e se sentiram abandonados pelo partido. Enquanto isso, os católicos hispânicos tendem a ser democratas.

Com os católicos agora divididos ao longo das linhas étnicas e partidárias, o partidarismo se tornou uma ameaça à unidade católica. É uma ameaça maior à unidade do que as diferenças teológicas. O modo como a Igreja responderá à divisão política irá determinar se ela explodirá na acrimônia partidária ou se tornará uma força para a cura da divisão partidária dos EUA.

A tentação será ignorar a divisão, porque muitas vezes as paróquias, assim como as suas vizinhanças, se inclinam politicamente para um lado ou para outro. Mas ignorar a divisão não seria bom para a Igreja nem para a nação.

Por causa de seus membros mistos, a Igreja Católica é uma das poucas instituições do país que potencialmente poderia superar a divisão entre republicanos e democratas.

Infelizmente, a credibilidade dos bispos está em baixa por causa da crise dos abusos sexuais. Como resultado, a Igreja está em seu ponto mais fraco quando a nação mais precisa da sua ajuda.

Por outro lado, talvez a fraqueza do clero seja algo bom. O que é necessário atualmente na nossa nação e na nossa Igreja é um clero humilde que não proponha respostas, mas comece a ouvir.

Talvez o melhor lugar para começar seja reunindo os católicos democratas e republicanos para falar sobre como podemos curar os EUA.

Moderadores experientes serão necessários para tais sessões de escuta. Sem dúvida, os democratas dirão: “O presidente deveria parar de tuitar”, enquanto os republicanos dirão: “Os democratas deveriam parar de tentar ‘impichar’ o presidente”. O moderador precisará constantemente trazer o grupo de volta à questão: “O que podemos fazer para curar o nosso país?”, não o que o presidente ou os outros deveriam fazer.

A Igreja (e eu não me refiro apenas aos bispos) precisa ajudar na cura do nosso país. Devemos testemunhar uma unidade que transcende o partidarismo. Devemos ouvir respeitosamente uns aos outros. Devemos modelar uma cidadania que coloque o bem do país acima da vantagem pessoal e partidária.

“Eles devem saber que nós somos cristãos pelo nosso amor, em vez de saber que somos católicos pelas nossas lutas.”

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