Apenas rumores sobre o jesuíta Dall'Oglio: quinto ano sem uma verdade. Entrevista com Giovanni Dall'Oglio

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27 Julho 2018

Aquela “mediação”, à qual o padre Paolo Dall’Oglio não se isentou, provavelmente era o desesperado socorro à “Primavera Síria”. “Volto para a Síria. Este é o número dos meus, se for preciso”, dizia ele, cumprimentando os jornalistas amigos poucos dias antes. As últimas imagens na web retratam o jesuíta entre estudantes que louvam a Síria livre na frente de uma igreja armênia em Raqqa. Eram os jovens do Pe. Paolo, a quem ele havia ligado a sua vida, até tentar aquela “mediação”.

A reportagem é de Luca Geronico, publicada em Avvenire, 26-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Poucas horas depois, em 29 de julho de 2013, começava o silêncio que perdura até hoje. Talvez uma negociação por um refém sequestrado, talvez a tentativa de abrir um canal de diálogo com o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, que, em Raqqa, estava abrindo escritórios e assentando milícias: a primeira cidade conquistada completamente pelos rebeldes ao regime ainda não era a “capital” do Daesh.

Um ano depois, em 29 de junho de 2014, Abu Bakr al-Baghdadi, com o discurso na mesquita de al-Nouri, em Mosul, poria o seu macabro selo também em um pedaço da história da Síria. Mas não era esse o desígnio dos primeiros seis meses da revolta na Síria.

E, justamente por isso, o desaparecimento em Raqqa do padre do diálogo islâmico-cristão expulso pelo regime parece, mais do que uma rendição, a última tentativa extrema de se opor, com sua presença física, com seu corpo, a um desvio que – com a cumplicidade daquela que Dall’Oglio chamava de “criminosa indiferença internacional” – parecia uma necessidade.

A própria Raqqa demonstra plasticamente o que foram para a Síria esses cinco anos de silêncio do Pe. Paolo Dall’Oglio. Por três anos, central do terror “nazi-jihadista” do Daesh e agora, após meses de ataque, arrasada completamente. Um turbilhão de violência, enquanto regime e forças russo-sírias prosseguiam na “reconquista”, que eviscerou Homs em outros ataques medievais, parte de Aleppo, a Ghouta oriental, além da capital dos jihadistas.

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Uma tragédia que quase apagou uma nação e produziu uma bomba migratória incontrolável. Já foi negada qualquer razão a quem, em 2011, a partir de Daraa, havia começado a marchar atrás das insígnias de “pão e liberdade”. E nessa quarta-feira, 25, em Sweida, perto de Daraa, o Daesh, oficialmente derrotado, de repente se rematerializou: ataques suicidas em série contra vilarejos, capazes de fazer mais de 220 vítimas, das quais 127 eram civis. Uma regurgitação, talvez a última, da guerra civil.

Mas, há cinco anos, à espera do retorno do Pe. Paolo Dall’Oglio, sua profecia inerme e impiedosa invoca outra Síria.

“Nessa expectativa, o meu vínculo com Paolo se renova cada vez mais. Enquanto isso, constato que, no debate, Paolo vai se delineando cada vez mais na sua figura profética, vai-se apreciando cada vez mais o seu ensinamento.” Giovanni Dall’Oglio, irmão mais novo do Pe. Paolo, cardiologista, responde ao Avvenire no Sudão do Sul, onde é coordenador de um importante projeto de saúde do CUAMM [Médicos com a África].

“Claro que o estamos esperando, nós sempre esperamos, mesmo que a esperança vai se reduzindo, mas aumenta a consciência de que ele era um grande homem: como irmão, sinto admiração na recordação de como ele viveu, da sua dedicação total, do fato de ele ser um rebocador. Eu diria que Paolo, em termos de fé, era realmente cheio de graça. E isso também explica o fato de ele agir com ímpeto, a sua grande energia.”

Eis a entrevista.

Quando você falou pela última vez com seu irmão?

Cinco anos atrás, o Pe. Paolo me telefonou, enquanto eu estava na África, pouco antes de partir para Raqqa. “Eu gostaria muito de ver você pessoalmente”, ele me disse. “Não consigo chegar antes em Roma”, respondi. Era uma saudação muito especial, cheia de afeto. Poucos dias depois, assim que aterrissei na Itália, me disseram que ele havia sido sequestrado...

Padre Paolo em Mar Musa (Foto: La Repubblica)

Muitos falam de “profecia” do Pe. Paolo Dall’Oglio. Qual era, para quem cresceu junto dele, a sua originalidade humana e religiosa?

Fomos educados para colocar em primeiro lugar os valores cristãos, a partilha. Isso nos veio em primeiro lugar do exemplo dos nossos pais e foi recebido fortemente por Paolo, assim como por todos nós, irmãos. Paolo, como eu dizia, era um rebocador, mas também um antecipador, queria queimar as etapas. Aos 16 anos, eu me lembro, ele não quis vir de férias conosco para trabalhar por dois meses como operário nos estaleiros de Fiumicino: ele queria, na sua busca humana, enfrentar experiências autênticas, conhecer a pobreza e o sofrimento para saber qual poderia ser o seu caminho. Por isso, acho seu percurso muito linear. A partir dessa profunda convicção, vem também o fato de ele ser impetuoso, a grande energia que também queria comunicar aos outros.

Como você vive o seu vínculo com o seu irmão, no Sudão do Sul, em uma terra não menos provada do que a Síria?

É um exemplo límpido. Além disso, no passado, o Pe. Paolo estava perto de mim em períodos em que eu estava hesitante, em dificuldade. Um testemunho de fé vivido até o fim e que ele queria transmitir de modo empático me acompanha. Agora, eu também, no meu pequeno, vivo ao lado dos últimos, em primeira linha. Estamos próximos.

Vocês tiveram informações sobre uma negociação? Alguém já se dirigiu à família prometendo levar o Pe. Paolo novamente para casa?

Neste momento, não temos provas nem de vida nem de morte. Sabemos aquilo que lemos na imprensa: algumas notícias, depois desmentidas, e afirmações genéricas de um compromisso para tutelar o destino dos italianos no exterior. Se se queria apagar a sua mensagem, talvez esse era o melhor modo de fazer isso.

Durante toda a vida, o Pe. Dall’Oglio buscou o diálogo com o Islã. Como o ensinamento dele sobrevive agora?

Seria preciso dizer que a difusão do Daesh na Síria desmentiu essa sua profecia utópica. Mas eu acredito que esse é o único caminho: compartilhar os valores que estão no Alcorão e no Evangelho, e construir sobre eles. Os desvios, além disso, existem por todos os lados, mas isso não torna menos válido o caminho do diálogo.

Por que, após meses de exílio, ele decidiu retornar para Raqqa? O que o movia?

Na verdade, a sua vida vinha depois do fato de ele estar totalmente à disposição dos outros. Isso não significa que ele não tivesse ponderado a escolha, uma escolha não individual, mas, acredito, discutida também com os seus superiores: uma missão arriscada, mas para abrir uma possibilidade concreta de paz.

O Pe. Paolo, em uma manhã de um dia de Páscoa, reaparecerá. Todos nós esperamos isso. Quais poderiam ser as suas primeiras palavras e os seus primeiros gestos?

Grandes silêncios e abraços comovidos. Voltamos mudados, perturbados profundamente a partir de situações semelhantes. Será preciso um período nada fácil de silêncio para reavê-lo.

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