Dissidência e consenso na era do Papa Francisco: petições não são a resposta

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31 Outubro 2017

A Igreja Católica é uma igreja de tradição e recepção, não de petições. Somente com o passar do tempo é que poderemos verificar se o ensino de Amoris Laetitia foi recebido ou não.

O artigo é de Massimo Faggioli,  historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA, publicado por La Croix International, 30-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Como as pessoas que acreditam que o rescaldo do Concílio Vaticano II (1962-1965) foi um período de grande turbulência enxergam a situação atual de discórdia na Igreja Católica?

Período pós-conciliar” é um termo que se tornou tão vago quanto inútil. A transição de Bento XVI para Francisco faz parte do período pós-Vaticano II, assim como ocorreu com o pontificado de Paulo VI para o de João Paulo II.

Será que um destes períodos pós-Vaticano II foi mais turbulento do que os demais?

Numa situação dessas, a tentação mais óbvia não é só assumir um lado – todos nós fazemos isso, conscientemente ou não –, mas formar um partido. Eis um dos motivos pelos quais declinei assinar uma “petição pró-Francisco”, entre cujos signatários há teólogos que admiro grandemente, tais como Thomas Halik e Paul Zulehner. Esta petição é uma reação à “Correção Filial” contra as “heresias” do Papa Francisco.

Pergunto-me o que os não católicos e não cristãos estão achando disso tudo. Curiosamente, existe também uma sub-petição postada em Change.org, que reivindica ser “A Plataforma do Mundo para a Mudança” (The World’s Platform for Change). O sítio eletrônico da organização lista o endereço do destinatário da petição: “O Vigário de Cristo, Papa Francisco”.

Esta coleção de petições é grave, mas ela é também anterior ao Papa Francisco em, pelo menos, uma geração. Vale revisitar a nota que Yves Congar, O.P., escreveu para a segunda edição de seu livro seminal “Verdadeira e falsa reforma da Igreja” (1950), publicado logo depois do levante social e da revolta dos estudantes na França, em maio/junho de 1968. O famoso dominicano francês sustentava que “o concílio [Vaticano II] não era o responsável” pela revolta social e teológica, muito embora também tenha escrito que era “verdade que o concílio abria a Igreja para enfrentar os problemas”.

Congar dizia que a Igreja precisava entender como lidar com a revolta e a dissidência. E apresentou cinco critérios para tal. “Existem certas coisas que a expressão de protesto jamais pode conseguir na Igreja”, escreveu.

a) Jamais pode destruir ou ferir o vínculo de caridade;

b) Jamais pode pôr em dúvida a estrutura hierárquica da vida pastoral da Igreja;

c) Jamais pode negar ou questionar os artigos de doutrina de um modo precipitado, superficial ou irresponsável;

d) Jamais pode fixar parâmetros para os “limites de fraternidade”, excluindo os que pensam de forma diferente; e

e) Não pode admitir expressões de protesto dentro da celebração da liturgia.

O debate em torno de Amoris Laetitia e a polêmica contra o Papa Francisco já passaram destes limites que Congar apresenta. Ambos formaram-se por uma falta visível de caridade, criaram-se listas de proscrição que envergonham os apoiadores do pontificado de Francisco e se cruzaram com as divisões criadas pelas chamadas “guerras culturais”.

Dada esta situação, é perfeitamente compreensível por que motivo tantos de nós iríamos querer demonstrar apoio ao papa sob todos os modos possíveis. Porém, há, no mínimo, duas razões pelas quais é um equívoco iniciar uma guerra teológica online de petições.

A primeira delas relaciona-se com a política eclesial. Francisco é o único papa legítimo (não há um papado duplo na Igreja Católica, apesar do que alguns pensam) e uma petição apoiando-o pode prejudicar apenas o seu pontificado. O fronte anti-Amoris Laetitia e anti-Francisco necessita admitir que é formado por poucos indivíduos. O ônus de contar o número exato cabe a eles; todos os demais católicos abraçam Francisco como o papa e não veem heresia em seus ensinamentos. Uma petição a favor do papa corre o risco de deixar a impressão de que o apoio a ele é menor, ou mais elitista ou mais geograficamente definido do que na verdade o é.

A segunda – e mais importante – razão é eclesiológica. A Igreja Católica é uma igreja de tradição e recepção, não de petições. Somente com o passar do tempo é que poderemos verificar se o ensino de Amoris Laetitia foi recebido ou não. E, daí então, veremos quais partes dos ensinamentos foram recebidos e como se deram.

O entendimento de si que a Igreja Católica tem foi grandemente modelado ao longo dos últimos dois séculos, juntamente com o pensamento da “Escola de Tübingen” de eclesiologia católica, do século XIX. Esta escola de pensamento era, com razão, cética para com a adaptação da teoria e da prática do “consenso” da Igreja (isto é, consenso mensurável sobre a doutrina). As suas mais importantes luzes advertiam que este sistema favoreceria tradições arbitrárias e secundárias.

Devemos manter esta ressalva em mente, não para argumentar que a Igreja é, essencialmente, aristocrática e não democrática, mas para lembrar que é preciso um processo de longo prazo para o discernimento das mudanças na tradição. Há mudanças que, inicialmente, parecem ser uma ruptura com o passado, mas que acabam se revelando uma recuperação de uma verdade antiga. Exemplo disso é a declaração do Concílio Vaticano IIDignitatis Humanae”, que acolheu o princípio de liberdade religiosa.

Um ceticismo salutar para com os mecanismos de formação de consenso está em sintonia com a compreensão católica de tradição, da qual a formação e a consolidação levam tempo. Formar o consenso faz, claro, parte da vida do Corpo de Cristo. Mas, quando se recorre a campanhas de petição, corre-se o risco de abrir as portas para o populismo eclesial, especialmente nesta época em que a relação entre o consenso e a liderança (política, mas também a liderança eclesial) está numa crise vertical.

Os meios de comunicação de massa – em particular, as mídias sociais – mudaram o modo como os membros da Igreja se comunicam entre si. Também mudaram a nossa ideia de revelação e tradição de uma maneira muito mais profunda do que a maioria de nós poderia imaginar. E, portanto, os ensinamentos mais importantes do Vaticano II para guiar a nossa compreensão do impacto da imprensa sobre o catolicismo não se encontram no texto atual do concílio sobre os meios de comunicação, Inter Mirifica, mas nas quatro constituições conciliares. A principal entre elas sendo a constituição sobre a revelação divina, Dei Verbum.

Durante os últimos dois séculos pelo menos, a Igreja Católica lidou com a perda da unidade e do controle sobre a totalidade do mundo e o imaginário social. Charles Taylor descreveu isto como uma mudança de uma “mentalité comunitária” para uma “postura partidária”. (Conferir “Uma era secular”, publicado pela Editora Unisinos.)

Taylor fala do catolicismo do século XIX, quando a Igreja criou um fronte contra a modernidade secular e liberal. Naquela época, ser católico era adotar uma postura partidária em si e de si mesmo, porque o catolicismo suponha a unidade de seus membros como dada. Mas, hoje, esta postura partidária invadiu a vida interna da Igreja, evidenciado pela grande tentação a definir-se, formal e publicamente, como um tipo particular de católico em oposição a um outro.

Da mesma forma como as discussões sobre a comunhão eucarística se tornaram – paradoxalmente – um debate sobre a exclusão, o termo “católico” foi virado de cabeça para baixo de um modo parecido. Ele se tornou sinônimo de partidarismo intraeclesial.

A Igreja Católica modelou-se não só com a nouvelle théologie francesa que a levou ao Vaticano II, mas também com a teologia não racionalista e romântica do século XIX. Nesse tipo peculiar de relação romântica que é a Igreja, há muitos modos, além de assinar uma petição, em que podemos expressar amor e afeição uns aos outros – e ao Papa Francisco.

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