Cúpula sobre segurança infantil reflete o ''extraordinário'' poder de convocação do papa

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05 Outubro 2017

Olhe a programação de uma cúpula realizada entre os dias 3 a 6 de outubro na Universidade Gregoriana de Roma sobre “A dignidade infantil no mundo digital”: trata-se de uma série de especialistas das maiores instituições nos seus vários campos – Harvard, Interpol, Facebook, Unicef, Microsoft e assim por diante. É a “nata” da cultura, e é outra ilustração do poder único de convocação do Vaticano, já que basicamente ninguém pode dizer não a um convite do papa.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 04-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde o colapso dos Estados papais em 1870, o Vaticano teve que abrir caminho no mundo como um “poder suave”, dependendo da autoridade moral e do imenso púlpito social do papa para seguir em frente em assuntos que ele percebe como prioritários.

Esse poder suave assume muitas formas, mas uma está sendo exibida de modo especialmente claro nesta semana na Universidade Gregoriana dos jesuítas de Roma: o poder de convocação.

Uma das verdades quase universais sobre o papel do Vaticano no mundo de hoje é que praticamente ninguém pode dizer não a um convite do papa. Você pode realizar quase qualquer tipo de evento que você desejar, desde um estudo de inteligência artificial até um simpósio sobre punk rock nos anos 1980 e, se vier com a promessa de estar diante do papa em algum momento, as principais autoridades do mundo sobre o assunto inevitavelmente aparecerão.

Essa não é a única razão pela qual eles vão, é claro – eles vão porque são apaixonados pelo assunto, porque Roma não é o pior lugar do mundo para se passar alguns dias e porque eles vão ver amigos e colegas valiosos que cultivam os mesmos terrenos. Mesmo assim, no entanto, é justo dizer que a atração magnética do papa não faz mal a ninguém.

Entre 3 e 6 de outubro, a Gregoriana está hospedando uma importante cúpula internacional intitulada “A dignidade infantil no mundo digital”, dedicada ao esforço de combater o abuso e a exploração infantil online, especialmente a chamada “Dark Web”. É uma vasta região da internet, talvez a maioria esmagadora dela, que é anônima e projetada para ser impossível de detectar, onde se acredita que 80% do tráfego são movidos a pornografia infantil.

Os participantes representam o melhor dos melhores em uma gama de campos surpreendente: um epidemiologista de Harvard, o diretor de serviços policiais da Interpol, o chefe da Política de Segurança Global do Facebook, um ex-presidente de uma comissão da União Africana em matéria de segurança infantil, o chefe global da Proteção da Criança da Unicef e o diretor de Segurança Online da Microsoft.

Tudo isso, além de uma dezena de acadêmicos e pesquisadores, pessoas que têm trabalhado sobre a questão do abuso infantil, tanto em nível estatístico quanto quantitativo, e também nas trincheiras, trabalhando com as vítimas e os sobreviventes, um a um.

Em outras palavras, durante uma semana, as principais mentes e atores mundiais na área da proteção infantil online estarão reunidos na Gregoriana, sob a égide da Igreja, do Vaticano e do papa, para descobrir uma estratégia mais ampla e abrangente para combater formas de abuso em rápida mudança e evolução.

Os próprios participantes pareciam um pouco deslumbrados diante do time de “cérebros” reunido nesta semana. A Dra. Elizabeth L. Letourneau, da John Hopkins University, por exemplo, na segunda-feira, prestou homenagem ao “extraordinário poder de convocação” que o evento reflete.

Pelo menos duas coisas são impressionantes sobre isso.

Primeiro, o modo como uma instituição escolhe implementar o seu poder, seja ele rígido ou suave, faz uma importante declaração sobre as suas prioridades. Talvez todos diriam “sim” a um convite do papa, mas o papa não pode realmente convidar a todos – eles precisam escolher, dependendo dos perceptíveis graus de urgência e importância.

Neste caso, a Gregoriana, em primeira instância, e o Vaticano, em segunda, estão tentando dizer que a proteção infantil importa, e que, dentre todas as causas dignas do mundo, essa é a única que eles estão dispostos a realmente dedicar tempo e dinheiro.

Os cínicos podem dizer que, em parte, esse é um exercício cosmético, projetado para desviar a atenção dos escândalos clericais dos abusos sexuais da Igreja. Essa é uma acusação bastante tola nesse caso, por alguns motivos.

Em primeiro lugar, as pessoas que reuniram esse evento – como o padre alemão Hans Zollner, que dirige o Centro para a Proteção da Criança na Gregoriana e é o coordenador do congresso, e o monsenhor estadunidense Stephen Rossetti, líder de longa data nos esforços antiabuso, que está na comissão científico do congresso – são precisamente as pessoas na Igreja Católica que passaram a maior parte das últimas décadas, muitas vezes com custos pessoais significativos, tentando chamar a atenção para os escândalos de abuso, e não a desviar deles.

Em segundo lugar, se você está tentando fazer com que o mundo se esqueça que você têm um problema com os abusos infantis, então lançar uma cúpula de alto perfil com as melhores vozes do planeta sobre o assunto e convidando (inclusive implorando) que a mídia global faça a sua cobertura não parecem ser exatamente a melhor estratégia de ocultamento de que eu já ouvi falar.

Como nota de rodapé sobre essa observação, vale a pena dizer que esse evento está se desenrolando sob uma espécie de nuvem, já que se trata de uma sessão sobre abuso infantil online em um momento em que o Vaticano está enfrentando o seu próprio escândalo de pornografia infantil, envolvendo um diplomata papal chamado de volta de Washington, após ter sido declarado como possível suspeito pelas autoridades estadunidenses, para quem um mandado de prisão foi posteriormente emitido no Canadá.

Ninguém aqui está se esquivando dessa coincidência – Rossetti, por exemplo, disse ao Crux na quarta-feira que ele acha que o Vaticano precisa ser mais explícito naquilo que quer dizer ao mundo sobre como o caso está sendo tratado. Rossetti disse acreditar que eles vão fazer a coisa certa no fim, mas alguém precisa se manifestar e dizer isso.

O impressionante, no entanto, é que apenas pessoas da Igreja estão aqui discutindo isso. Nenhum dos outros participantes mencionou isso durante as oficinas na quarta-feira de manhã, e não parecia haver muitos comentários sobre isso nos corredores.

Em vez disso, o foco parece estar nas impressões gerais de que o congresso é a ponta do iceberg em termos da contribuição que a Igreja Católica poderia fazer, não como parte do problema, mas como chave para a solução.

Em outras palavras, às vezes, o poder de convocação não é apenas exibir um grupo impressionante de VIPs, como uma demonstração da capacidade do papa de reunir as pessoas. Também se trata de agitar as conversas habituais, que podem abrir novos horizontes inesperados para fazer algo positivo, para além de lamentar o que deu errado.

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