“Novela policial” na renúncia do auditor e medo de um terceiro Vatileaks

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22 Junho 2017

“Inútil negá-lo: trata-se de um momento delicado para o Papa. Não queremos cair num terceiro Vatileaks…”. A admissão vem da Casa Santa Marta, residência de Francisco dentro da Cidade do Vaticano. Provém de uma das pessoas mais versadas em assuntos financeiros da Santa Sé. E não se trata de uma reação explosiva. A renúncia de Libero Milone, o primeiro Auditor Geral das contas do Vaticano, dada ontem ao Papa, e imediatamente aceita, tinge de mistério os contornos da reforma das finanças do Vaticano. No entanto, não parece surpreender quem acompanhava, há meses, a ação do braço direito do Cardeal George Pell, Prefeito da Secretaria de Economia, pelos meandros da Cúria.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada por Corriere della Sera, 21-06-2017. A tradução é de Ramiro Mincato.

Milone, 68 anos, também ex-presidente e executivo-chefe da Deloitte, uma das maiores empresas de consultoria global, deixou o cargo três anos antes do previsto. "De comum acordo”, afirma-se. Mas no magro comunicado com que ontem à tarde foi informada a renúncia de Milone e a “aceitação do Papa", não há nenhuma explicação. Com isso, multiplicam-se as vozes sobre os verdadeiros motivos para a ruptura, que alguém no Vaticano compara com aquela de Ettore Gotti Tedeschi presidente do IOR, Instituto para as Obras de Religião, em maio de 2012. "Ele deve ter feito alguma coisa", arrisca um cardeal com grande familiaridade em questões econômicas. Foram filtradas pelo Vaticano indiscrições segundo as quais o próprio Milone, "auditor dos auditores" teria caído numa investigação interna. Mas ainda é muito cedo para compreender onde está a verdade. Falou-se inclusive de um pedido direto do Papa, imediatamente aceito por Milone. Pode-se registrar que o Auditor Geral viveu, desde o início do trabalho, momentos, para dizer o mínimo, problemáticos. Em outubro de 2015, poucos meses depois de assumir o cargo, o gestor teve seu computador violado, no escritório da Via della Conciliazione. E dalí partiu o segundo Vatileaks, depois daquele de três anos antes, que envolvia o mordomo de Bento XVI, Paolo Gabriele: um escândalo que pode ter contribuído para decisão de renúncia do Papa, em fevereiro de 2013.

O temor da Vaticano agora é que saiam outros documentos reservados; outras indiscrições que, mais uma vez, dizem respeito às atividades financeiras da Santa Sé; despesas e investimentos dos dicastérios; relações entre a Cúria e os organismos de controlo. E, claro, o círculo de Francisco. Por causa disso admite-se explicitamente o temor de “um terceira Vatileaks". Milone tinha a tarefa de analisar balanços e contas. Quando assumiu o cargo, em maio de 2015, sua escolha, favorecida por Pell, foi considerada mais um passo na direção da transparência. E em 2016, tinha chamado ao seu lado dez pessoas e dois auditores adjuntos, Ferruccio Panicco e Alessandro Cassinis Righini, para ajudá-lo a decifrar os hieróglifos dos balanços Vaticanos.

Mas os métodos do Prefeito e de Milone nunca gozaram de grande popularidade dentro dos sacros muros. Quando, em maio, o Cardeal Pell e o auditor escreveram uma carta aos Dicastérios contra duas missivas da APSA, presidida pelo Cardeal Domenico Calcagno, sobre a documentação financeira a ser transmitida, a tensão reapareceu. E ontem chegou ao último ato. Milone se viu antes "pesado" e medido, em seguida, olhado com crescente desconfiança, e, finalmente, isolado: uma trajetória, diz-se, compartilhada por Pell, embora os resultados até agora sejam bastante diferentes. "A preocupação é que agora parta uma guerra de verdades e dossiês a golpes de cartas reservadas", diz um representante do Vaticano. "Há um acordo tácito para não divulgar nada. Mas é preciso ver como se desenvolverá esse obscuro acontecimento".

Os fatos precedentes são de dar arrepios. Pontuam a fase final de Bento XVI. E agora arranham, pela segunda vez, o perfil das reformas financeiras iniciadas por Francisco. A primeira remonta a outubro de 2015, quando a Gendarmaria Vaticana prendeu duas pessoas acusadas de subtrair documentos confidenciais: monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda, secretário da Comissão de Estudos sobre as atividades econômicas e administrativas (Coşea) e Francesca Immaculata Chaouqui, membro da mesma comissão. Os processos e condenações que se seguiram, incluindo dois jornalistas, depois absolvidos, não trouxe boa publicidade.

O caso de Milone promete repercussões negativas das mesmas dimensões. "Mas o Papa tomou consciência, com coragem, de ter escolhido a pessoa errada. Embora Milone tinha sido escolhido por Pell", explica a Casa Santa Marta. "Francisco preferiu assumir a responsabilidade também de quem errou em seu nome”. Talvez seja o anúncio de um a prestação de contas não concluída. Permanece o mistério das nomeações apicais de expoentes leigos quando se trata de passar pente fino nos balanços vaticanos. Há algo errado. Mas parece que ninguém ainda encontrou o remédio.

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