Católicos indianos frustrados por casos de abusos sexuais de religiosos

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03 Maio 2017

Casos recentes de abuso sexual envolvendo sacerdotes católicos no sul da Índia deixaram os cristãos angustiados e frustrados com a falta de resposta da igreja local. Mais de 100 teólogos, religiosas, sacerdotes e feministas escreveram aos bispos da Índia exigindo que eles reagissem rapidamente frente ao apelo do papa para acabar com tais transgressões.

A reportagem é de Jose Kavi, publicada por National Catholic Reporter, 01-05-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

"Estamos tentando de todas as formas fazer com que os bispos ajam. Acreditamos que esta é uma boa oportunidade", diz Virginia Saldanha, uma teóloga que fazia parte da equipe que redigiu a carta de 22 de março aos bispos.

Astrid Lobo Gajiwala, outra teóloga que coordenou a elaboração da carta, diz que a prisão de um padre católico, em 28 de fevereiro, que supostamente estuprou e engravidou uma jovem adolescente em sua paróquia no estado de Kerala os encorajou a buscar as autoridades da Igreja.

A polícia apreendeu o Pe. Robin Vadakkumcherry, 48 anos, da Diocese de Mananthavady, enquanto ele tentava sair do país após os supostos crimes. Robin Vadakkumcherry está na cadeia, aguardando julgamento, segundo a polícia.

O Padre Thomas Therakam, sacerdote da diocese, e cinco freiras foram acusados de supostamente ajudar Vadakkumcherry a encobrir o escândalo. Os seis religiosos, junto com supostos cúmplices leigos, esconderam-se para fugir da prisão, mas depois se renderam às autoridades e foram soltos mediante pagamento de fiança.

O caso indignou membros de vários grupos religiosos católicos e jurídicos. Eles escreveram ao Cardeal Baselios Cleemis, presidente da Conferência Episcopal da Índia, dizendo que estavam "profundamente preocupados com a integridade e a missão da Igreja Indiana".

Baselios Cleemis disse ao NCR, em 22 de abril, que ele havia recebido a carta, mas estava viajando pelos Estados Unidos em abril e ficou doente ao retornar. Ele se recusou a comentar o conteúdo da carta, mas disse que planeja apresentá-la ao Comitê Permanente da conferência em seu encontro em Bangalore, no sul da Índia, de 2 a 5 de maio. O cardeal disse que a conferência dos bispos não tem controle direto sobre eles e trata apenas de questões gerais comuns às jurisdições católicas na Índia.

Astrid Gajiwala disse ao NCR que não espera uma resposta individual dos líderes da Igreja, mas sim que eles pelo menos emitam uma declaração expressando preocupação sobre a questão e listem as medidas que tomarão para evitar tais casos.

E acrescentou que o Cardeal Oswald Gracias, líder do rito latino da igreja indiana, prometeu que ele também levantaria o assunto na reunião de maio.

A carta descreve seis áreas de preocupação para a igreja, alertadas a partir do caso Vadakkumcherry:

  • Confiança fiduciária desgastada entre sacerdotes e paroquianos que consideram o sacerdote como "outro Cristo";
  • Não cumprimento das leis penais indianas em casos de abuso de menores e proteção aos agressores;
  • Necessidade de uma estrutura diocesana para acompanhar os casos de abuso sexual do clero e incluir mulheres nos comitês de supervisão conduzindo inquéritos;
  • A liberação de uma política da conferência dos bispos para proibir, prevenir e reparar abusos sexuais na Igreja;
  • Maior cuidado na seleção de candidatos ao sacerdócio, melhor formação em seminários e formação clerical continuada a respeito de questões de sexualidade e celibato;
  • Análise da relação entre o clero e as religiosas, e da possibilidade de que irmãs possam encobrir casos de abuso por parte dos sacerdotes.

Entre as 122 pessoas que assinam a carta estão membros do Fórum das Teólogas Indianas, Satyashodhak (discernimento), Streevani (voz das mulheres), o Fórum dos Religiosos pela Justiça e pela Paz e a Conferência de Religiosos da Índia. Mais da metade dos signatários são freiras católicas. Cópias da carta foram enviadas ao núncio apostólico, Dom Giambattista Diquattro; aos líderes de três igrejas rituais na Índia; e a várias autoridades da Conferência Episcopal.

A carta expressou desapontamento com o fato de que "foi preciso uma agência externa alertar quanto aos crimes que haviam ocorrido". Uma agência de assistência infantil notificou a polícia após ter recebido uma pista sobre o caso depois que a menina de 16 anos deu à luz a seu filho em um hospital da igreja no dia 7 de fevereiro. 7. Seu bebê foi levado sem sua permissão para um orfanato de freiras no distrito de Kannur, disse a polícia.

Vadakkumcherry era o pároco da Igreja de São Sebastião em Kottiyoor e diretor da escola onde a menina fazia o Ensino Médio. O sacerdote teria oferecido à família da menina um milhão de rúpias (US$ 15.600) para coagir seu pai a afirmar que ele tinha engravidado a menina.

A igreja hesita em expor seus sacerdotes criminosos porque teme que seus inimigos explorem a situação, diz a carta, acusando que a administração clandestina de casos de abuso sexual causa mais danos porque "a demora na ação corretiva piora a ferida".
Há um ano a demanda por diretrizes da conferência dos bispos para lidar com casos de abuso foi levantada por 75 membros do Fórum de Religiosos pela Justiça e Paz, um grupo progressista. Sua solicitação a todos os bispos e superiores para monitorar sacerdotes que abusavam de religiosas católicas ficou sem resposta.

Saldanha diz que ela está envolvida no assunto desde que a primeira queixa de abuso clerical chegou até ela, em 2010. "Desde então, formamos um grupo para que a Igreja lidasse com essa questão em casa, mas de uma maneira justa, fazendo justiça às vítimas".

O grupo elaborou diretrizes sobre como os sacerdotes deveriam lidar com as mulheres, redigiu políticas baseadas em leis governamentais e, em 2013, apresentou os documentos à conferência episcopal através da Comissão Episcopal para as Mulheres.
"Nos prometeram que fariam alguma coisa", disse Saldanha. "Mas ainda estamos esperando que esses documentos venham a público."

Autoridades da conferência disseram que haviam passado orientações para a abordagem de casos de abuso clerical na reunião bianual em setembro passado e que elas viriam a público depois de alguns aperfeiçoamentos, o que ainda não aconteceu.
O silêncio dos bispos irritou alguns católicos. "Nós não precisamos de nenhuma orientação frouxa dos bispos para atos tão hediondos. Como cidadãos, é nosso dever relatar crimes e não ajudar ou instigá-lo", disse o ex-presidente da All India Catholic Union, conhecido como Chhotebhai, que significa "irmão mais novo".

Ele diz que a Igreja tende a se esconder no medo em casos de abuso, na esperança de que a controvérsia seja resolvida de alguma forma. "A Igreja deve ser humilde o suficiente para admitir seus erros ou transgressões", disse o líder leigo. "Caso contrário, a ferida de hoje ficará pior amanhã e exigirá amputação".

Astrid Gajiwala quer que a política final dos bispos se concentre na justiça para a vítima, em vez de salvaguardar a reputação da Igreja ou do sacerdote.

Saldanha, que era secretária da Comissão Episcopal para as Mulheres e líder da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, disse que os bispos temem um "tsunami de queixas" se as diretrizes se tornarem públicas.

A Igreja indiana enfrentou uma série de casos de abuso de religiosos no ano passado.

Em 21 de março, a polícia prendeu o Pe. Thomas Parackal, reitor de um seminário na Diocese de Punalur, em Kerala, acusado de abusar de três seminaristas menores de idade. Em 9 de dezembro de 2016, um tribunal em Ernakulam, Kerala, sentenciou um sacerdote com duas penas perpétuas pelo estupro de uma menor.

Para completar a vergonha da Igreja, o Outlook, um jornal inglês sediado em Nova Delhi, publicou uma matéria de capa intitulada "Priestly Predators" (Padres Predadores). O artigo de 30 de janeiro cita vários casos de abuso clerical ao longo dos anos e observa que Francisco "expiou os pecados de seu clero. Mas a Igreja indiana não mostrou sinais de remorso pelos crimes sexuais dos pastores."

Os casos de abuso sexual agitaram os católicos comuns, principalmente em Kerala. E. M. Baby, um paroquiano de Kottiyoor, diz que a sentença do padre foi chocante. Ele diz que Vadakkumcherry agia como um rígido disciplinador moral na paróquia. A prisão do sacerdote ocorreu quando os cristãos orientais, católicos e ortodoxos, começaram o período de oração e jejum da Quaresma.
"Muito poucas pessoas, especialmente mulheres, fizeram a confissão anual durante a Semana Santa deste ano. As pessoas perderam a fé em recorrer a um padre", acrescentou.

N. K. Thomas, professor universitário e católico na diocese de Palai, diz que os padres e seus desvios tornaram-se o assunto da paróquia. "O problema que a Igreja enfrenta hoje não é a falta de sacerdotes, mas a presença de sacerdotes indesejados", disse ele.

Os jovens procuram os seminários buscando a vida confortável dos padres, acrescentou. "Nossos sacerdotes perderam a mentalidade de serviço conforme foram entrando em um estilo de vida mundano".

O Padre Babu Kalathil, da Arquidiocese de Ernakulam-Angamaly, onde atua o cardeal George Alencherry, chefe da Igreja Syro-Malabar, diz que o povo de Kerala, onde o cristianismo foi introduzido há 2.000 anos, tinha uma grande consideração por padres e freiras. "Essa imagem decaiu muito", disse Kalathil ao NCR.

O teólogo jesuíta Pe. T. K. John, que assinou a carta aos bispos, diz que os escândalos já mancharam o rosto da Igreja indiana, diminuíram sua credibilidade moral e espiritual e reduziram seu poder e chance de testemunho. Os casos provocaram em todos um sentimento conjunto de culpa, diz o padre, que leciona em seminários há mais de quatro décadas.

João e Chhotebhai querem que a Igreja preste mais atenção à formação sacerdotal. O sacerdote jesuíta quer que os candidatos ao sacerdócio aprendam as exigências da vida celibatária em um ambiente livre e recebam orientação de pessoas competentes para tomar decisões livres.

"Confrontar o prejuízo do sigilo inoportuno e da atitude do 'não vamos tocar neste assunto' ", disse John ao NCR. "A maturidade exige o reconhecimento de todas as formas de desejo como normais, como fome, sede, etc, para lidar com elas abertamente."
Chhotebhai adverte que a Igreja não deve recrutar adolescentes imaturos para o sacerdócio. Ele também acredita que o comportamento subserviente dos leigos é nocivo. "Como um cão completamente domesticado, eles são tão leais a seus mestres que não conseguem ver nada de errado neles e, se houver algo errado, escolhem fechar os olhos", diz ele.

Kochurani Abraham, teóloga líder em Kerala, diz que o caso Vadakkumcherry criou um "medo palpável" entre as pessoas, porque já não se pode confiar na Igreja como um lugar seguro e sagrado. Ela ficou decepcionada com as tentativas de alguns de seus porta-vozes de descartar as controvérsias como sendo sensacionalismo da mídia para manchar sua imagem.

Abraão espera que a Igreja aprenda com os escândalos, exortando-a a direcionar suas "pretensões de ser uma instituição 'celestial' e unir-se à humanidade sofredora, como Jesus fez através de sua vida, sua paixão e sua morte".

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