O cinema franciscano, entre o profeta fundador e o "burocrata" frei Elias. Artigo de Goffredo Fofi

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05 Outubro 2016

"Um filme a ser feito, hoje, talvez devesse se ocupar do Francisco contemporâneo nosso, da sua imensa coragem e da sua maior contradição, que é a de querer e ter que ser o Francisco que salva, a partir de baixo, uma Igreja periclitante e, ao mesmo tempo, o Francisco que está no topo da instituição. Como se, na cena giottesca do sonho do papa, Francisco e o papa tivessem o mesmo rosto, fossem o mesmo ator, a mesma pessoa."

A opinião é do crítico cinematográfico, literário e teatral italiano Goffredo Fofi, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 02-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Artesão da paz (Periodista Digital)

Quantos são os filmes inspirados na figura de Francisco de Assis, desde o cinema mudo? Ao menos uma dezena, e nenhum memorável, exceto "Francisco, arauto de Deus", de Roberto Rossellini, inspirado mais nos Fioretti do que na história. Todo o resto é hagiografia banal, excluindo as forçações irresolvidas dos dois Franciscos de Cavani, que levavam em conta o anterior, mas querendo se distinguir dele por meio de uma leitura do personagem cada vez mais extrema, atualizada, mas não diante no primeiro caso (1966), o mais sincero, do ensinamento de Pasolini.

Por outro lado, o próprio Pasolini tentou o seu "fioretto", no mesmo ano de 1966, com o episódio do frei Totò que prega em "Passarinhos e passarões". O Francisco rosselliniano (1950, escrito com Fellini, que tinha muito a aprender com ele) era dividido em episódios, e um deles, aquele com Aldo Fabrizi grotesco e rude condotiero conquistado pela obstinada não violência do frei Junípero, permaneceu entre as mais fortes imagens da Idade Média que o cinema soube sugerir (pode-se censurar hoje esse filme apenas por um uso medíocre da dublagem).

Rossellini, de fato, não pretendia fazer uma leitura histórica do franciscanismo e do seu inspirador, mas uma adesão íntima e convencida ao espírito dos Fioretti, que, de acordo com os cânones da modernidade, podem ser chamados de tudo, menos de realistas, pensados e nascidos no espírito de uma religiosidade popular e camponesa, entre lenda e exemplo.

Como se coloca "O sonho de Francisco", de Renaud Fély e Arnaud Louvet na história, digamos assim, do cinema franciscano? Ele rejeita a candura rosselliniana-felliniana-pasoliniana, a tensão cavaniana, mas também a hagiografia "saint-sulpicienne" à la Zeffirelli e a ênfase dannunziana do cinema mudo e se agacha satisfeito à lógica didática e atualizadora das versões televisivas e da sua linguagem, mais aproximada do que inspirada.

O bom uso que os autores – um diretor e o seu produtor, evidentemente insatisfeito com o seu papel – fazem do cinemascópio e do espaço teria exigido, por exemplo, um uso não habitual da cor e do comentário musical, e uma louvável e econômica essencialidade na escolha dos ambientes (colinas arborizadas, muros e igrejas medievais – as pedras como único achado da época, como única autenticidade?) teriam merecido uma imediaticidade e simplicidade também dos costumes e uma escolha dos rostos e dos corpos não tão "nossa", irremediavelmente marcados pelo pertencimento a esta nossa época, nos anos 2000.

E o roteiro, a "story"? Sobre a fundação e a história da ordem franciscana, e aquela história conturbada da sua regra, escrita por Francisco e modificada por vontade do papa, já se escreveu muito e também já se bordou muito, muitas vezes puxando-a para um lado ou para o outro (ou atualizando-a) de acordo com a visão do franciscanismo que os estudiosos queriam afirmar, também em relação, de acordo com aqueles de filiação protestante, com a história de uma Reforma ainda muito longe de chegar.

E se identificou na figura do frei Elias aquele que pressionou e fez mais por uma regularização da ordem, para torná-la aceitável à hierarquia eclesial, para fazê-la sair, para usar termos políticos, da espontaneidade da organização. E, sim, também houve quem fizesse comparações forçadas e ridículas entre Francisco e Elias, por um lado, e, digamos, Lenin e Stalin, por outro, como dois polos de uma experiência histórica que se repete, entre inovadores revolucionários e normalizadores burocráticos ou coisa pior.

A escolha de Fély e Louvet não foi tão drástica, mas mais sábia e mediana, e a contraposição entre Francisco e Elias é, nos seus filmes, uma espécie de jogo das partes necessário entre as duas instâncias da ordem – a do profeta e santo e a do funcionário, embora fiel, mesmo que se preocupe com o retorno à realidade, com o fazer as contas com a realidade, não tanto do profeta, mas sim dos seus seguidores.

Para que a ordem sobreviva ao seu fundador é necessário que a ordem, e o seu próprio fundador, levem a realidade em conta, e esta não é apenas a da Igreja do tempo (e talvez de toda "Igreja" de sempre), mas da institucionalização de todo impulso radical, revolucionário. Venceu a ordem (a tal ponto que, hoje, e me parece bem conhecido, os franciscanos têm, há muito tempo, um peso escasso na história da Igreja, sem falar da sua renovação). Convence no filme o respeito pela figura de Elias, de fato, o verdadeiro protagonista – dilacerado pela dúvida de fazer bem para a duração da ordem, sobre o santo e, depois, se substituindo a ele ao censurar (e não reescrever) a regra nas passagens que são as mais próximas do Evangelho, até o ponto, com a vitória obtida, de tentar o suicídio. Essa forçação histórica, nas intenções dos autores, tem uma função didática forte, atualizadora, e o filme, nas suas intenções, deveria viver desse choque-encontro, desse amor-distância entre Francisco e Elias.

Não era uma ideia tola, mas teria precisado de um roteiro adequado e de uma direção mais inspirada. Da forma como é, ela se resolve em uma justificação da obra que parece mais escolar do que profunda, embora a relação entre Francisco e Elias teria merecido e ainda mereceria um Autor ou Autores com letra maiúscula. Prisioneiros do nosso tempo e da convencionalidade das linguagens do nosso tempo, eles transferem para o passado as suas-nossas ideias, os seus-nossos preconceitos, mas, apesar disso, talvez pudessem nos dar algo melhor do que um teatrinho de ideias agradáveis e televisivo, sem drama de verdade. Falta-lhes uma verdadeira tensão ou persuasão religiosa, do mesmo modo que uma verdadeira tensão ou persuasão "política".

Um indicador dessa banalidade está na escolha dos protagonistas e coadjuvantes do filme: rostos e gestos de hoje, rostos e gestos, se assim se pode dizer, ricos. O mais irritante de tudo, por ser o mais contemporâneo (nosso), é o tão "burguês 2016" do ator que interpreta Elias. Sempre vistosamente atores, no entanto, de acadêmica normalidade atual, apesar dos bons esforços de Elio Germano para introduzir um pouco de alma no seu Francisco.

(O filme a ser feito, hoje, talvez devesse se ocupar do Francisco contemporâneo nosso, da sua imensa coragem e da sua maior contradição, que é a de querer e ter que ser o Francisco que salva, a partir de baixo, uma Igreja periclitante e, ao mesmo tempo, o Francisco que está no topo da instituição. Como se, na cena giottesca do sonho do papa, Francisco e o papa tivessem o mesmo rosto, fossem o mesmo ator, a mesma pessoa).

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