"A direita é, em El Salvador, fechada em seus próprios interesses’. Entrevista com José Maria Tojeira

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25 Mai 2011

"O assassinato de Ellacuría me tornou mais radical e mais combativo" disse, um dia, esse homem de 64 anos, jesuíta e ex-reitor da Universidade Centro-Americana (UCA) de El Salvador. Não é para menos. José María Tojeira, um galego de Vigo, com mais de 40 anos vividos na América Central, provavelmente escapou por alguma casualidade do espantoso massacre em que o Exército salvadorenho assassinou os seus amigos, o padre Ignacio Ellacuría, também reitor da UCA, outros cinco jesuítas, uma empregada da residência e sua filha, de apenas 15 anos, no dia 16 de novembro de 1989. Antes, haviam assassinado o Monsenhor Oscar Arnulfo Romero, enquanto presidia uma missa, em março de 1980.

Tojeira acaba de deixar o seu cargo na UCA e, na Costa Rica, conversamos sobre aqueles anos de guerra e de sangue, de crimes horrendos, de feridas que não saram. Mas falamos também de El Salvador e da América Central atuais, e da rebelião nas praças da Espanha: "Mais que surpreendente, me alegra. O emprego é o grande problema ali. Não esperava as coisas que estão acontecendo", disse Tojeira, sobre os protestos na Espanha.

A entrevista é de Gilberto Lopes e está publicada no sítio Rebelión, 24-05-2011. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O governo de Mauricio Funes despertou renovadas expectativas na região. Agora, quando já está há dois anos no poder, em El Salvador, quais dessas expectativas pôde cumprir?

O que vejo como positivo do governo de Funes é levantar um diálogo sobre a realidade do país do qual participam todos os setores. O Estado nunca se preocupou realmente com as pessoas em El Salvador.

Funes criou o Conselho Econômico e Social, mas, o debate, a direita levava um susto por qualquer coisa. O objetivo era entabular um diálogo sobre o El Salvador que queremos. A intenção de fundo é chegar a uma espécie de pacto social, muito orientado para uma reestruturação do sistema fiscal.

Mas há um problema de visão muito forte na direita de El Salvador. É uma direita muito pouco ilustrada, fechada em seus próprios interesses. Quando alguém fala de socialização de serviços, eles já pensam que é "comunismo".

Em que áreas se reflete a mudança política impulsionada por Funes em El Salvador?

Uma conquista de Funes foi, mediante negociações, introduzir uma nova dinâmica no sistema judiciário. A Sala Constitucional começou a exercer um papel para impor respeito à legalidade do país. A realidade é que, até agora, o Poder Judiciário dependia do poder político e essas mudanças deixam o setor político nervoso.

Funes promoveu também programas de transferências aos setores mais pobres da sociedade, similares ao modelo brasileiro. Mas a impressão que tenho é que tudo isto é insuficiente. O Estado salvadorenho não apenas reflete a desigualdade no país, mas que esta se promove estruturalmente a partir do Estado. O sistema de pensões é apenas para 20% da população; o sistema educativo tem gravíssimas diferenças entre o público e o provado; o mesmo acontece na saúde.

Não tocou a essência do Estado, estruturado em base à desigualdade. O debate sobre isso ainda está muito verde e não sinto que tenha amadurecido. Além disso, o governo herdou uma dívida muito grande dos governos da direita, representada pela Arena, incluindo a questão da segurança. A direita, que conseguiu, com seu mau governo, despertar todo este problema, agora não perdoa Funes que não consegue resolvê-lo em dois anos!

A violência é endêmica no país, onde temos 60 homicídios sobre cada 100.000 habitantes. É certo que, em El Salvador, esse índice nunca baixou de 30 sobre cada 100.000 habitantes, entre outras coisas pelo tipo de estrutura estatal, que favorece uns poucos e deixa ao "salve-se quem puder" os de baixo, que só têm três alternativas: querer superar-se em seus filhos; a emigração (dois milhões, dos oito milhões de salvadorenhos, emigraram); e a delinquência.

Depois de uma trágica guerra civil e de 20 anos de governos de Arena, a eleição de Funes parecia confirmar que a América Central buscava um novo rumo. Avançou-se nessa direção?

Em El Salvador, certamente há um pouco mais de esperança devido a algumas conquistas, como as que mencionei.

Em Honduras, todo o movimento em torno do golpe de Estado de junho de 2009 despertou uma certa esperança. Como tudo isto vai evoluir está para se ver: se vai criar um novo partido, quem vai dirigi-lo, se será um movimento social, não sabemos. O golpe foi um estímulo que mostrou uma força social mais ativa do que parecia, em um país onde os dois partidos tradicionais estão há mais de cem anos no poder, aliados com os militares.

Diante do golpe, me desconcertou a atitude do Cardeal Oscar Rodríguez e do Comissionado Nacional dos Direitos Humanos, Ramón Custodio. Esperava de ambos uma palavra para o diálogo depois do golpe. Mas não foi isso que se viu.

Na Nicarágua, o que sinto é uma deterioração do político. Os grandes ideais da revolução giraram para um populismo excessivamente pragmático, que não transcende a planificação séria do futuro da Nicarágua. É uma esquerda que se desprestigiou muito. Mas segue cumprindo um papel de moderação dos problemas. Recordo os grandes ideais e as conquistas da revolução em termos de alfabetização, na criação de coesão social, por ter despertado um sentimento de autoestima popular. Isso continua absorvendo uma parte dos valores e limitando o protesto popular.

A revolução significou um corte tremendo dos processos de desigualdade da Nicarágua, despertou a consciência de dignidade do povo, além da reforma agrária, e da alfabetização, embora o analfabetismo tenha voltado a aumentar. Uma parte do contraste da Nicarágua com os países do triângulo do norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador) com relação à violência – pois seus índices são muito menores – se deve a esse espírito de coesão social, que ainda se mantém e ajuda a atenuar as contradições sociais que produzem violência.

A América Central parece hoje agoniada pela questão da segurança, consequência de uma crescente criminalidade organizada. A violência parece superar a dos anos de guerra. Na sua opinião, qual é a origem dessa violência e o que lhe dá sustentação?

Há uma tradição de violência forte na região. Estes países passaram por diversas revoluções e guerras civis. Os Estados foram Estados oligárquicos, preocupados com uma certa minoria e abandonaram os pobres à sua própria sorte.

A institucionalidade também foi muito frouxa. E houve uma enorme desigualdade entre as pessoas. Por que El Salvador tem tanta violência? Porque em um país amontoado, a violência se observa melhor. A grande migração demonstra também que se pode viver de outra maneira. E depois vêm outros fatores: um Estado frágil, a estrutura social excludente, uma polícia ineficiente, índices de impunidade muito altos.

O problema da violência, na América Central, tem que ser resolvido em conjunto ou não vai ser resolvido. O crime está cada vez mais interconectado.

Você tem uma vasta experiência na América Latina. Em uma recente entrevista falava de "um processo de busca de independência na América Latina". Onde estamos nesse processo?

A América Latina está cobrando uma identidade maior como região. Todas estas experiências políticas de transformação – como no Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador ou Argentina – mesmo que diferentes, mostram um desejo de presença internacional, com uma dose de personalidade própria, comparada com o que ocorria há 50 anos, quando as votações eram quase unânimes com os Estados Unidos. No tempos das ditaduras se queria ser ainda mais de direita que os Estados Unidos.

Há um avanço mais sólido de consciência, de busca de identidade regional. São processos lentos e, às vezes, muito marcados por personalidades, mas quando se olha o conjunto, cresce essa identidade própria, esse enfoque dos problemas regionais a partir de um diálogo interno, de novas alianças.

Você também criticou o que qualificou de uma "dupla moral", uma "política ambígua" da Espanha na América Latina. Hoje vemos como está se espalhando por toda a Espanha essa estranha rebelião em suas praças, algo similar com o que aconteceu no norte da África. Isso o surpreende? A que isso responde? Que rumo vai tomar?

Mais que me surpreender, me alegra. Não esperava as coisas que estão acontecendo. O emprego é o grande problema ali. Me alegram porque mostram um rosto diferente da Espanha conformista dos últimos tempos, da Espanha que se gloria de si mesma, de seus avanços, de seus pactos, de sua política internacional, mas que foi muito ambígua, muito temerosa. Apesar do desejo de uma presença mais forte na América Latina tem um temor muito grande de ferir suscetibilidades da direita, inclusive quando o PSOE esteve no poder.

Este tipo de protesto mostra uma juventude (mas também adultos) preocupada com uma maior honestidade no país, que não seja uma democracia de autolouvor e de fachada, mas de discussão, debate, serviço, trabalho.

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