Islã e Evangelho, caminhos para o encontro. Artigo de Paolo Dall'Oglio

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19 Novembro 2014

No dia 17 de novembro, o padre Paolo Dall'Oglio completou 60 anos. Um aniversário marcado pelos 475 dias que se passaram desde o seu sequestro, ocorrido em Raqqa, na Síria, no dia 29 de julho de 2013. A sua família propôs, nestas horas, a todos os amigos, uma oração recitada em árabe pelo Pe. Paolo para estar em comunhão com ele neste dia.

A esse gesto, o sítio Vino Nuovo, 17-11-2014, quis acrescentar outro. No arquivo do sítio Giovaniemissione.it, encontra-se uma reflexão muito interessante escrita pelo Pe. Dall'Oglio em outubro de 2007. A Síria e o Oriente Médio, na época, ainda não viviam a tragédia de hoje, em cujo interior a própria história humana do Pe. Paolo acabou por se misturar em uma incerteza terrível sobre o seu destino.

Acima de tudo, porém, Dall'Oglio foi um homem que, por 30 anos, refletiu profundamente sobre o mistério do Islã. E, nesta reflexão, colocam-se duas perguntas-chave: por que o contexto muçulmano demonstra ser historicamente impermeável ao anúncio cristão? E deve-se concluir que Islã e cristianismo são incompatíveis e antagônicos?

Voltar ao ouvir as respostas do padre Paolo Dall'Oglio sobre esses temas parece ser um modo muito bonito para viver esse dia. E também para buscar um caminho que nos leve para além dos novos crimes terríveis ocorridos justamente nestas horas.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A impermeabilidade do Islã à evangelização amargura o outubro missionário. Em todas as épocas, houve algumas raras adesões a Cristo por muçulmanos sinceros. Eles respondem ao testemunho da Igreja, desejosa de oferecer em todos os tempos o seu Senhor a todas as consciências. Neles, é possível reconhecer um pré-anúncio da manifestação final do Filho de Maria.

O mistério da adesão na fé da consciência individual a Jesus proclama a sua glória universal. Resta o dever de escutar a recusa muçulmana do proselitismo e das conversões, que são consideradas um perigo para a sociedade e um ato blasfemo a ser reprimido.

Estratégias

Pode-se dizer que a "cristandade" tentou todas as estratégias. Por "cristandade", entendemos uma entidade sociocultural inseparável da Igreja, no seu duplo valor histórico e meta-histórico, e não identificável com ela.

As primeiras resistências militares à expansão muçulmana na Alta Idade Média e as reconquistas normandas  espanholas, as Cruzadas, as expansões coloniais e os desenhos mais recentes de contenção ou de repressão do Islã (termo que escrevemos com letra maiúscula, por ser o nome próprio da comunidade islâmica, a Umma; a analogia é com a Igreja, não com o cristianismo), não só norte-americanos ou russos, não podem ser conectadas facilmente com o Evangelho dos mansos e humildes de coração.

Certamente – pense-se, por exemplo, em Lepanto –, os acontecimentos listados acima não são estranhos à história das Igrejas, que são inseparáveis dos destinos das nações ou dos impérios "cristãos". A adesão ao Evangelho não inibe o exercício "natural" dos direitos dos grupos humanos.

No entanto, a Comunidade do Nazareno, como tal, não pode usar senão os meios do seu Mestre para se propor às consciências na perspectiva das Bem-aventuranças. As Igrejas nem sempre souberam distinguir os níveis entre serviço do Evangelho, reivindicação de direitos, reação a abusos e busca de interesses materiais e políticos.

O consolo é que, em geral, as Igrejas tiveram ao menos alguma consciência da dificuldade para distinguir entre tais níveis. Porém, desagrada que se queira condenar na história muçulmana o que tendemos a justificar na história cristã.

Além disso, é geralmente louvável que as comunidades humanas caracterizadas cristãmente forneçam pessoas e meios à evangelização, embora isso não seja isento de equívocos e riscos. As Igrejas, especialmente na era colonial e pós-colonial, também tentaram evangelizar os muçulmanos através da obra social: as escolas e os hospitais, em particular. Um imenso capital de generosidade apostólica até o martírio, certamente não oferecido em vão, na medida em que o objetivo é o de um serviço gratuito e desinteressado.

Infelizmente, a falta de inculturação e a contiguidade colonial produziram uma reação alérgica muçulmana a mais àquelas que, em árabe, são definidas, negativamente, omo "campanhas de evangelização" (hamlât tabsciriya).

Outras missões se mostraram muito difíceis. Acima de todas, a evangelização dos nossos irmãos mais velhos no judaísmo. Enormes esforços obtiveram resultados inadequados na Índia, na China, no Japão. Insuficiente inculturação da fé? É possível, mas isso não explica tudo.

Parece que essas grandes "culturas religiosas" desenvolveram um grau muito elevado de autoconsciência carismática e identitária e uma tal atitude de autoconservação a ponto de impedir geralmente a conversão ao cristianismo.

No Islã, isso é evidente ao excesso. De fato, trata-se de uma religião consciente e polemicamente pós-cristã: o Islã, para os muçulmanos, é a religião autêntica, definitiva e insuperável. Pode-se fazer uma comparação com o judaísmo talmúdico, por se entender como a religião autêntica insuperável.

A profecia de Charles de Foucauld

Depois veio Charles de Foucauld. A sua estratégia é intencionalmente evangélica, alternativa ao espírito de "militância" e alérgica ao triunfalismo. Mas ele vê o mundo muçulmano como uma realidade folclórica e tribal e não capta a sua unidade universal.

Os muçulmanos, segundo ele, se converterão por causa de um excesso de amor da Igreja, dos discípulos honestos, humildes, serviçais de Jesus de Nazaré. Charles de Foucauld teoriza uma missão de tempos muito longos. Não estamos sequer no tempo da semeadura, mas no da lavragem.

Enquanto isso, os seus touareg se islamizam de modo cada vez mais radical. Charles foi morto em 1916, como inimigo colonial, e o seu esforço parece ter acabado no fracasso.

Na atitude do Bem-aventurado Charles de Foucauld, há uma dimensão profética a se compreender para além do contexto colonial e da teologia pré-conciliar. A ideia de que, na presença seminal do Verbo Encarnado, na santificação silenciosa, na pobreza e pequenez de Nazaré, há o sacramento de uma dimensão essencial da ação salvífica de Deus em favor de cada pessoa humana foi reconhecida por Igreja como constitutiva da sua identidade e missão, não só em terra muçulmana.

O que ainda falta é uma resposta adequada em relação ao valor da experiência religiosa muçulmana na perspectiva final da recapitulação em Cristo de todas as coisas. Charles de Foucauld sugeriu tal resposta na prática de valorização, amizade, hospitalidade, dependência do outro, dom de si mesmo até o sangue, que caracterizou o seu estar em meio aos muçulmanos.

Depois do Concílio

O Concílio Vaticano II, também por mérito de Louis Massignon (o mais conhecido discípulo de Charles de Foucauld), foi teologicamente além, reconhecendo à adoração muçulmana uma certa autenticidade e, à proximidade bíblica do Islã, uma certa legitimidade.

Mas era cedo para abordar explicitamente o tema da profecia muhammádica, do valor do Alcorão e do papel da Umma na história da salvação.

Hoje, esse aprofundamento é mais difícil, porque se corre o risco de querer aplacar os muçulmanos para evitar a agressão das alas mais violentas e fundamentalistas. Alguns, até mesmo entre os eclesiásticos, praticam um silêncio diplomático em relação ao Islã; outros, um debate midiático provocativo; por fim, há quem pratique a retórica fácil do diálogo superficial.

Tal aprofundamento, no entanto, é urgente, porque a relação de compreensão entre cristãos e muçulmanos, nas sociedades onde o Islã é majoritário, é condição para a permanência da própria Igreja ali. Isso também é urgente em relação à presença de comunidades muçulmanas cada vez mais importantes em contextos de imigração, especialmente na Europa.

Por outro lado, a convivência e a boa vizinhança plurissecular de cristãos e muçulmanos no contexto do Oriente Médio devem ser considerados como um dado teológico positivo: o vizinho muçulmano também está perto de Deus. Ou, mais simplesmente: não se pode coabitar com o demônio por 14 séculos!

Portanto, é possível promover a elaboração otimista de uma teologia cristã do Islã, que não será ofuscamento da verdade, mas milagre da caridade, que impulsiona o reconhecimento da ação do Espírito de Deus, em vista do Reino, até mesmo dentro da experiência muhammádica.

Conversão e inculturação

Os muçulmanos se sentem hoje mundialmente agredidos e tendem a considerar cada ação de proselitismo como um atentado à segurança da religião-sociedade. A liberdade de consciência deve poder ser uma conquista interna do mundo muçulmano e não pode ser imposta de fora.

Alguns cristãos consideram que a forma secular e laica do Estado, que garante a liberdade de consciência individual, acabará mostrando a superioridade invencível da religião cristã. Bastará "impor" a laicidade para vencer o Islã. Se essa é a abordagem, pode-se entender algo da resistência muçulmana às "liberdades ocidentais".

O proselitismo cristão é concretamente impraticável em terra islâmica. O "convertido" é expulso da sua sociedade e se sente em perigo até mesmo no Ocidente. A publicidade triunfalista e midiatizada das eventuais adesões à Igreja certamente é contraproducente.

Também é necessário empreender uma medida eclesial em defesa da liberdade de consciência. As Igrejas deverão criar canais de assistência para aqueles que, passando para o cristianismo, se encontrem obrigado a emigrar e a recomeçar em outro lugar a própria vida. Isso deve ser feito com a discrição necessária para não criar mais problemas às comunidades cristãs em ambiente islâmico.

Além disso, é preciso promover a inculturação da fé cristã em âmbito muçulmano. A inculturação não é uma estratégia, mas uma exigência do discipulado à Palavra divina encarnada. Mas será preciso prestar atenção para evitar equívocos entre os cristãos e suspeitas entre os muçulmanos, que poderiam ver na inculturação um último exercício de proselitismo camuflado voltado, definitivamente, a abolir o Islã.

É oportuno praticar a assunção cordial de tudo o que do Islã é harmonizável com a pertença a Cristo. Começando pela língua religiosa, do árabe do Alcorão, da tradição profética e da experiência sufi, e tentando todas as pontes com o pensamento muçulmano contemporâneo.

Também se tentará criar, sem mimetismos, harmonia habitativa e de vestuário, artística e habitual. Os muçulmanos não serão contrários por princípio: não lhes perturba observar que, nos ícones cristãos, Maria veste o véu islâmico...

Essa inculturação já ocorreu nos primeiros séculos do Islã, quando se arabenizaram as comunidades cristãs do Oriente Médio. Também existem comunidades cristãs de origem árabe pré-islâmica culturalmente homogêneas ao contexto muçulmano. Para o mundo muçulmano, a convivência pacífica com cristãos e judeus é uma constante na história e é considerada como uma realidade positiva desejada por Deus e codificada pelo exemplo do Profeta.

A presença histórica continuada das comunidades cristãs orientais em terra muçulmana deve ser considerada, no plano teológico, como uma demonstração do valor espiritual e sagrado reconhecido reciprocamente pelas comunidades cristãs e muçulmanas.

Um fenômeno semelhante não ocorreu duradouramente no Ocidente latino, senão depois da secularização dos Estados nacionais. Hoje, porém, as comunidades cristãs históricas em contexto muçulmano encontram-se muitas vezes em condição de guetização cultural, social e geográfica. A evolução negativa, também teológica, da relação com o Islã leva a um vazio de sentido. Se o Islã é teologicamente um absurdo, que significado tem a nossa convivência?

Portanto, o Espírito de Jesus teria renunciado totalmente a aconselhar as Igrejas ao desenvolvimento de uma comunidade cristã plenamente inserida no tecido social, familiar e simbólico muçulmano? Pensamos que não. Uma "Igreja para o Islã" é possível; isto é, estará voltada com simpatia ao Islã, na hospitalidade, na comensalidade, na intercessão, na vida monástica e consagrada, na solidariedade social, na boa vizinhança, na comunidade nacional, através de uma inculturação sábia e cordial.

Muçulmanos discípulos de Jesus?

Outra tipologia de fé evangélica germina na trama do tecido social muçulmano em amorosa discrição. Ela constitui um misterioso (não no sentido de segredo, mas de sacramental e místico) rosário de corações apaixonados por Alá, para os quais Jesus, Iisa, o Messias, é o ato central e final da autorrevelação do Único, do Misericordioso, acontecimento da Unidade divina (como comunhão trinitária).

Para essas almas "muçulmanas", então, o universo está voltado à última manifestação do Espírito e Verbo de Deus, o Filho de Maria, e a sua leitura do Alcorão e da tradição profética, por analogia com a leitura cristã da Bíblia hebraica, está centrada n'Ele e é em vista d'Ele.

Faz parte da identidade dos discípulos muçulmanos de Jesus o fato de não quererem aparecer e de permanecerem plenamente solidários com o seu ambiente original. Não querem privar a comunidade muçulmana desse humilde fermento e renunciam a uma pertença visível à Igreja histórica, para não perder a própria identidade carismática e a solidariedade da vida e de oração no Islã.

A Umma não conhecerá a salvação por meio de uma humilhante desintegração, mas por cumprimento e união no Senhor do Dia do Juízo.

Esses discípulos de Jesus de Nazaré, "muçulmanos de Iisa", veem também a sua função carismática em discernir e defender o papel construtivo do Islã no caminho global cultural, religioso e espiritual da família humana. Eles se reúnem segundo o modelo do "dois ou três no meu nome".

Do ponto de vista sociológico, é uma Igreja mais inexistente do que clandestina. O ser Igreja dessas pessoas está ligado a uma profecia de esperança sobre o futuro do conjunto da Umma. Sempre que possível, participam da vida sacramental da Igreja institucional, embora de forma privada. O ritmo esporádico da celebração eucarística não fere a sua centralidade.

Também é na vida litúrgica da comunidade muçulmana que elas expressam a sua união com Aquele que, elevado da terra, atraiu todos para si, admitindo os fiéis muçulmanos, por graça, ao banquete eucarístico paradisíaco.

No seu livro sobre Jesus (cfr. J. Ratzinger, Jesus de Nazaré. Ed. Rizzoli, 2007, p. 354 e ss), o Papa Bento XVI explica as três dimensões da liturgia judaica: a dimensão da criação (valor natural-religioso), o da história (valor histórico-memorial) e o da esperança (valor messiânico-escatológico).

A liturgia cristã realiza e desenvolve essas três dimensões. A inculturação cristã em ambiente muçulmano não deixará de encontrar tais valores, analogamente, nas grandes festas do ano lunar islâmico (a Noite do Destino, a prática e a conclusão do Ramadã, a Peregrinação e a Festa do Sacrifício) e, especialmente, no ritmo da oração diária e semanal. Assim, a caridade de Cristo impele esse "cristão do Islã" a recompreender a simbologia da celebração  islâmica e participar dela sem duplicidades nem perigos à integridade da sua fé eclesial.

A missão evangelizadora, na medida em que está em uma ótica de defesa, de conquista e de vitória, deixa de ser evangélica. As resistências muçulmanas à missão nos "reimpulsionam" ao Evangelho!

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Islã e Evangelho, caminhos para o encontro. Artigo de Paolo Dall'Oglio - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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