''Ser padre na Igreja em diálogo'': uma carta inédita de Paolo Dall'Oglio

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Padres despedaçados. Artigo de Pietro Parolin

    LER MAIS
  • Na igreja do Papa Francisco, os movimentos estão parando

    LER MAIS
  • Abusos, sínodo e a falsa prudência

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


01 Setembro 2014

Nesse domingo 31 de agosto, celebram-se os 30 anos da consagração ao sacerdócio de Paolo Dall'Oglio, jesuíta italiano, colaborador fixo da revista Popoli com a coluna La sete di Ismaele, sequestrado na Síria no dia 29 de julho de 2013. Para fazer memória desse aniversário, a família decidiu tornar pública – através do site da Popoli, 30-08-2014 – amplos trechos de uma carta inédita que o padre Paolo escreveu por ocasião da sua ordenação diaconal, ocorrida um ano antes.

Trata-se de um texto muito denso, em que já estão contidos os fundamentos sobre os quais o padre Paolo (então com 29 anos) construiu a sua vida e a sua missão na Síria, em particular o caminho de consagração ao diálogo.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 30 de outubro, serei ordenado diácono na Igreja do Gesú [em Roma], às 16 horas em ponto, segundo o rito da Igreja siríaca, e espero depois ser ordenado padre em Damasco, no próximo verão. O diaconato é "a ordem do serviço eclesial": trata-se do sacramento da ordem nessa sua primeira dimensão, "o serviço".

Nós sabemos que todo ser humano tem uma vocação, mas nos parece que uma pessoa que se ocupa de estar em relação com Deus para ajudar os irmãos a encontrá-lo e que continua a partir-lhes o Pão da Vida no rastro de Jesus e dos Apóstolos deve ser chamada de um modo muito claro.

Certa vez, em um lugar e em uma hora específicos, eu tive a clara consciência de que o Senhor me queria com ele em tempo integral e com toda a minha vida, para ser uma pessoa à sua disposição para ser enviada segundo as necessidades do Reino; tudo isso acompanhado de muita alegria...

Eu já conhecia o suficiente dos jesuítas para intuir que, na Companhia, eu poderia realizar essa vocação... Mas estou continuamente maravilhado por causa desse chamado: a minha experiência é que Deus não joga fora nada da pessoa, tudo deve ser e deverá ser purificado e assumido para fazer a argila com a qual ele quer nos moldar. [...]

Nesses anos, com os meus "superiores", realizamos um discernimento sobre a minha missão no âmbito do trabalho apostólico da Companhia de Jesus. Essa missão é, em três palavras, a de ser padre na Igreja em diálogo.

Em diálogo: isto é, na abertura a Deus e ao mundo, e aqui penso que ter nascido romano é uma graça especial: de fato, parece-me que em Roma temos uma percepção clara, juntamente com os limites, também da missão universal da Igreja; e se não caímos no "romanocentrismo", entende-se que um serviço universal só é possível como abertura à pluralidade e acolhida da diversidade.

Mais em particular, o meu compromisso é na Igreja síria antioquena (que faz parte do quebra-cabeça da Igreja na Síria). É um ato de respeito, de afeto e de reconhecimento por uma Igreja que permaneceu fiel, apesar de um mar de dificuldades, ao Evangelho recebido dos Apóstolos e que deu à Igreja universal uma multidão de santos, mártires, doutores...

É uma Igreja orgulhosa do seu patrimônio cultural e que, se gosta de rezar em siríaco, língua falada também por Jesus e pelos judeus do seu tempo na Palestina, não se recusa a se expressar em árabe, a rezar em árabe, a língua dos filhos de Ismael, dos muçulmanos, com os quais o Senhor se pôs em contato há tantos séculos, porque, na fidelidade e no sofrimento, se prepare o dia do reconhecimento de todos os filhos de Abraão no único Caminho, a Misericórdia do Pai.

A Igreja síria está atualmente dividida entre católicos e ortodoxos, mas já fez percorreu um longo caminho rumo à unidade e ainda percorrerá muito se ma Igreja Católica se afirmar cada vez mais um estilo de profundo respeito capaz de amar e de valorizar as diversas tradições e se em todos prevalecer o desejo de dar ao mundo um único testemunho humilde.

Vou tentar contribuir com o diálogo islâmico-cristão com a clara consciência de que não se pode fazer esse trabalho eficazmente se ele permanecer como um monopólio clerical e não se tornar um caminho de muitos para viver o batismo. Esse compromisso é tanto dos bispos que, com a ajuda do seu clero, garantem continuidade com Jesus, quanto da Igreja toda, constituída pelos cristãos no mundo, que são a continuidade com Jesus.

Mas, se o diálogo não for vivido por nós dentro, como o pregaremos fora? E se Igrejas poderosas e majoritárias continuarem sendo o modelo de desenvolvimento, como pretenderemo que os cristãos que se encontram privados de poder ou são minoritários não sintam a tentação de fazer gueto ou de emigrar, como ocorre no Oriente Médio?

Nessa ótica, o Islã é uma prova, um desafio, um apelo indireto ao crescimento e à conversão, para conhecer e imitar Jesus, seja para os cristãos do Oriente Médio seja para a Igreja toda.

A Igreja de hoje é chamada, parece-me, a viver também aqui em Roma, justamente aqui em Roma, um processo de abertura para as grandes realidades não cristãs que nos rodeiam e que veiculam valores autênticos ou ao menos exigências autênticas: se o espírito trabalha em nós, e o nosso processo de cristificação como indivíduos e como Igreja é avançado, então, sem medo, podemos penetrar em todas as realidades, e em contato com elas nos será ensinado o que dizer; isto é, a fé se veste de, se encarna em, se expressa com a realidade encontrada, e eu mesmo, junto com o irmão encontrado, faço uma experiência nova da multiforme Sabedoria de Deus. Esse processo é o da encarnação e se aplica à vida concreta de cada um: família, trabalho, cultura, ideologias...

Que fique claro: não sou eu que me encarno, mas é a verdade que, através do diálogo, ocorre entre nós. Muitas vezes, é mais um problema de método do que de etiqueta. Com um amigo muçulmano muito querido, dizíamos: "Há apenas dois partidos: o do extremismo fanático (ou seja, em que eu sou o critério para julgar os outros) e o de Deus (ou seja, o contrário do primeiro e, portanto, buscar e encontrar a beleza do seu rosto em todas as coisas)"; parece-me que há aqui um bom critério de juízo e autocrítica para nos movermos no mundo e na Igreja hoje.

O diálogo também é o meu compromisso "político", porque leva à paz e à justiça, mas então é evidente que não deve ser um diálogo de "falação", mas de sinais e de fatos concretos. A minha experiência no Oriente Médio – mas bastam as nossas experiências italianas – me ensina que todos os níveis da existência estão envolvidos no conflito da religião até a economia, e o diálogo deve ser feito em todos os níveis na sua interdependência, e há realmente trabalho para todos!

Concluindo, é esse serviço (diaconia) do diálogo pela paz com Deus e entre nós que eu gostaria que fosse o sentido dessa minha ordenação diaconal; serviço sempre necessário e já parte daquela ação sacerdotal que é a celebração do mistério de Jesus, nossa paz. Com o Salmo 122, peço a vocês: "Desejem a paz para Jerusalém (…) Por amor dos meus irmãos e meus amigos, eu digo: 'A paz esteja com você!'".

Com afeto, desejo-lhes um grande bem.

Paolo Dall'Oglio

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

''Ser padre na Igreja em diálogo'': uma carta inédita de Paolo Dall'Oglio - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV