João Paulo I: ''Por que tantos boatos? Ele estava na cama, com um leve sorriso''

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06 Novembro 2017

Nesta entrevista, uma das freiras que encontrou João Paulo I morto, em 28 de setembro de 1978, relata detalhes de um dos momentos que marcou a história da Igreja recente.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada por Avvenire, 04-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Pode nos dizer a que horas, como e quem encontrou o papa morto?

Perto das 5h15 daquela manhã, como todas as manhãs, a Ir. Vincenza havia deixado uma xícara de café para o Santo Padre na sacristia, logo ao lado do apartamento do papa, em frente à capelinha. O Santo Padre, ao sair do seu quarto, costumava tomar o café na sacristia, antes de entrar na capela para rezar. Naquela manhã, porém, o café ficou lá. Passados cerca de dez minutos, a Ir. Vincenza disse: “Ele ainda não saiu? Mas por quê?”. Eu estava lá no corredor. Assim, eu vi que ela bateu uma vez, bateu de novo, ele não respondeu... Ainda silêncio. Então, ela abriu a porta e depois entrou. Eu estava lá e, quando ela entrava, eu fiquei do lado de fora. Ouvi que ela disse: “Santidade, o senhor não deveria fazer essas brincadeiras comigo”. Depois, ela me chamou, saindo chocada. Então, eu logo entrei também com ela e o vi. O Santo Padre estava na sua cama, a luz para ler sobre a cabeceira estava acesa. Ele estava com os seus dois travesseiros atrás das costas, que o seguravam um pouco erguido, as pernas esticadas, os braços sobre os lençóis, de pijama, e, entre as mãos, apoiadas no peito, ele segurava algumas folhas datilografadas, a cabeça estava virada um pouco para a direita, com um leve sorriso, os óculos sobre o nariz, os olhos semifechados... Parecia realmente que ele estava dormindo. Eu toquei as suas mãos, estavam frias. Olhei e me chamaram a atenção as unhas um pouco escuras.

Não notou nada fora do lugar?

Não. Nada, nada. Nem mesmo uma dobra. Nada caído no chão, nada desarrumado que pudesse levar a se pensar em um mal-estar do qual ele tivesse se dado conta. Parecia realmente como alguém que adormeceu lendo. Que adormeceu e ficou assim.

E, depois, o que vocês fizeram?

Logo depois, a Ir. Vincenza subiu para chamar o Pe. Magee, e eu corri para chamar o Pe. Diego, bati na porta, chamei-o: “Desça, o Santo Padre, o Santo Padre...”. Ele acordou de sobressalto e desceu. Rezamos uma oração, depois o Pe. Magee foi chamar o médico do Vaticano. O Dr. Buzzonetti chegou quase imediatamente. Eu vi chegarem os cardeais Villot e, depois, Poletti.

Vocês, freiras, estavam presentes no momento do relatório do médico?

Não, porque saímos do quarto. Depois, o Pe. Magee veio ao nosso encontro e nos disse: “Ele não sofreu, nem se deu conta”, referindo-se às palavras ditas pelo médico, e também disse que a morte súbita tinha sido de noite, perto das 23h. Isso eu ouvi. Não ouvi outras coisas... havia pouco a dizer. Depois, nós não lidamos com a preparação do corpo, nem a Ir. Vincenza nem nós. Eles pensaram nisso. Mais tarde, chegou também Angelo e outros para ajudar.

Do que você ainda se lembra daqueles momentos?

Lembro-me das idas e vindas de prelados, lembro que andavam para a frente e para trás no corredor, e ouvi que não sabiam como fazer para dar ao mundo a notícia de que o papa, que em pouco tempo tinha conquistado a todos, tinha morrido assim, tanto que, somente duas horas depois, desde que nós, freiras, o havíamos encontrado, deram a notícia oficial. Lembro-me de que, quando o Santo Padre ainda estava no seu quarto, também foi vê-lo a sua sobrinha, uma menina jovem. Ela parou à distância e chorou com a Ir. Vincenza. Nós, freiras, sem os secretários, assistimos à missa de sufrágio celebrada pelo cardeal Poletti. Eles nos chamaram mais tarde para dar os paramentos e para acompanhá-lo à Sala Clementina. Ficamos lá rezando e, depois, voltamos, porque devíamos liberar o apartamento e selar tudo, de acordo com o que é estabelecido pela práxis. Recordo que o Pe. Magee nos disse para pegar alguns pertences pessoais do Santo Padre. À Ir. Vincenza, ele deu os óculos, as pantufas e outros objetos. Eu fiquei com o seu radiozinho, que eu ainda guardo como uma relíquia.

Você se lembra se alguém lhe intimou a dizer isto ou aquilo sobre a morte do papa?

O Pe. Magee nos disse para não dizer que tínhamos sido nós, freiras, eu e a a Ir. Vincenza, que o encontramos morto no quatro, porque decidiram dizer que haviam sido os secretários que o encontraram primeiro.

Você sabe quem pegou e o que aconteceu com as folhas que ele tinha em mãos?

Não. Não saberia dizer quem lidou com isso. Eu também não perguntei. Nós o deixamos com elas em mãos, não tocamos em nada. Eram folhas datilografadas ou, melhor, meias folhas, duas ou três. Não escritas à mão, estou muito certa disso, mas não sei dizer o conteúdo, porque não as fiquei lendo naqueles momentos lá. Alguém lá no corredor nos disse que eram as folhas para a audiência da quarta-feira. O escritório com os seus papéis e o quarto foram selados, depois, e reabertos pelo seu sucessor, João Paulo II. Eu estava presente quando o novo papa cortou os selos e entrou no apartamento.

Depois da morte do papa, você se encontrou com a Ir. Vincenza ou com as outras coirmãs e recordaram alguns detalhes daquele mês?

Sim, nos encontramos. Pouco com a Ir. Vincenza, mais com a Ir. Elena, que, enquanto isso, tivera um tumor. Mas, mais do que recordações particulares daqueles dias, nós nos convidávamos reciprocamente a rezar por ele, para que ele intercedesse por nós.

Alguém, depois, lhe pediu informações ou manifestou suspeitas sobre a circunstância da morte de João Paulo I?

Depois que eu voltei para a comunidade de Vittorio Veneto, lembro que o bispo de Belluno, Dom Ducoli, me telefonou. Ele estava muito entristecido e me pediu para lhe dizer como o papa verdadeiramente tinha sido encontrado, se estava no chão, caído de algum modo. “Não, excelência”, eu lhe disse, “o Santo Padre estava na sua cama, nós o vimos, e ele não tinha nem sequer uma prega”.

Você ainda tem alguma coisa a dizer sobre as versões conflitantes sobre as últimas horas do papa?

Eu simplesmente não sei como sugiram todos aqueles boatos. Nós estávamos lá. Eu posso dizer, e disse, tudo o que sei e o que vi.

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